Encontro com Napoleão: a Rota das Linhas de Torres

Um fim de semana pela zona de Torres Vedras, em visita aos fortes e monumentos das invasões napoleónicas

Fomos passar um fim de semana à procura de Napoleão e encontrámos um país diferente mesmo às portas de Lisboa. Os sinais da presença do exército francês na península ainda estão bem presentes e, à sua volta, foi criada uma rota turística que, para além do interesse histórico, leva-nos através de formosas paisagens das zona saloia que, apesar da pressão urbanística, guarda ainda recantos apaixonantes.

 

Fim de semana com as guerras peninsulares

Desde o Tejo até ao mar passamos por seis municípios que guardam ainda a memória da invasão napoleónica de 1810. Da Arruda dos Vinhos, Loures, Mafra, Sobral, e Torres Vedras  até Vila Franca de Xira, fizemos o percurso das antigas Linhas de Torres, o conjunto defensivo que serviu de obstáculo à terceira vez que os franceses invadiram Portugal. Não conseguimos visitar tudo mas, já que estávamos por aqui, aproveitámos também para visitar as “tasquinhas” da região e descobrir se a fama desta carne e vinhos é merecida (spoiler: É!).

Passar um fim de semana em busca das Linhas de Torres obriga-nos a algum exercício: fizemos a maior parte do percurso de carro, mas optámos por andar a pé em alguns dos trajectos pois é essa a única maneira de chegar a alguns dos locais recomendados. Apesar disso, e porque o Ribatejo é também conhecido pelas suas planícies, nenhum dos percursos pedestres criados apresenta dificuldades de maior e podem ser feitos facilmente por quase toda a gente.

Sempre tivemos boas notas a História na escola, mas devemos confessar que as invasões napoleónicas são um daqueles momentos que não tínhamos fresco na memória. Felizmente, e  armados apenas com o mapa, fomos acompanhados em várias etapas do caminho pelos seis centros de interpretação criados para contextualizar este período histórico. O tom escolhido para nos apresentar o princípio do século XIX é, na maior parte destes espaços, bastante eficaz e contemporâneo. No centro do Sobral de Monte Agraço, por exemplo, fomos encontrar um local moderno e com uma comunicação apelativa, que nos deixou com vontade de saber mais sobre personagens como o Marechal Massena ou o Duque de Wellington .

Torres Vedra - Quilometrosquecontam

Encontro com o passado

Apesar de tudo, e não sendo especialistas ou sequer curiosos da história militar, viemos aqui à procura de fortes e esses não faltam. As linhas de torres foram construídas em conjunto com os ingleses, na antecipação do ataque francês e constituiram-se em mais de 150 pequenas fortificações espalhadas entre o Tejo e a costa atlântica. Começámos o nosso périplo pelo Castelo Medieval de Torres, na época semi-convertido em prisão, e fomos até ao Parque do Choupal, para subir até São Vicente, o forte grande da cidade. Aqui era o ponto avançado e, nas três grandes estruturas da praça de armas, a casa do governador e a ermida, Wellington e José Maria das Neves Costa, afinavam estratégias e definiam o futuro de um país.

Aqui perto fica o Forte de Olheiros, bastante mais pequeno, e o seu companheiro, um dos moínhos típicos da região transformado em paiol. Das canhoeiras destas paredes rugiram outrora canhões contra as tropas francesas, resistência fundamental naquela hora de desespero. Do outro lado da colina fica o Forte da Forca, separado pelo vale.

O desafio de desenhar e construir uma estrutura defensiva quase em segredo, foi plenamente alcançado e, um ano após ser iniciada a sua construção, já as Linhas de Torres davam que fazer ao marechal Massena. Antes orgulhosamente resistente, hoje quase camuflado pela vegetação, justifica-se ainda a visita ao Forte da Feiteira. O fosso ostenta o empedrado original e a paisagem espraia-se até à foz do Sizandro. Este era um ponto importante na logística do exército defensor e daqui controlava-se o movimento de mantimentos e armas para a linha da frente.

Para chegarmos ao Forte da Archeira temos que percorrer o topo da serra, agora sempre a pé, por entre uma paisagem que antes se preenchia com moinhos tradicionais e que hoje em dia deram lugar a gigantescas turbinas de energia eólica. Mas o esforço vale a pena e o panorama que nos recebe é ainda largo e rico.

 

Com pão e vinho…

A comunicação entre todos estes postos era essencial para manter uma forte defesa e o posto de sinais mais próximo do Atlântico era o do Reduto do Grilo, depois de passarmos Ponte do Rol. Salienta-se por, depois de um restauro em meados do séc. XX, estar em relativo bom estado de conservação e apresentar uma planta em estrela, uma arquitectura invulgar nestes fortes. Para chegarmos ao Forte do Grilo, temos que passar pelas vinhas que, já no princípio do séc XIX, deliciaram os generais ingleses e, já cansados, prometemos que é a última paragem do dia. A visão destas uvas deixou-nos o apetite mais acirrado…

Ainda hoje é aqui que a grande Lisboa tem a sua despensa: produtos agrícolas de excelência, como frutas, hortaliças, coelho, aves, ovos, queijo e caça ajudam a compor o menu da gastronomia local. Perto do Centro de Interpretação da Batalha do Vimieiro descobrimos o “Pão Saloio”, acolhedor restaurante regional com uma boa selecção de grelhados e saudado por todos pelo seu bacalhau assado com batatas a murro. O porco, ex-libris da região, fomos encontrá-lo, já em espetadas, no “Pátio do Faustino”, ao lado do Choupal onde começámos a nossa viagem. Em todas as refeições optámos pela entrada com queijo fresco, porque aquele que aqui se come estabelece o standart para todo o país. Acompanhado do pão tradicional, quase que bastaria para ficarmos satisfeitos não se desse o caso de esta gloriosa gente ter ainda inventado o pastel de feijão!