A Lisboa de Pessoa

Redescobrir a Lisboa onde viveu Fernando Pessoa. Guia dos pontos turísticos de Lisboa que mais impressionaram Fernando Pessoa

Incontornável como figura maior da língua portuguesa, quando Fernando Pessoa escreveu o seu guia «Lisboa – O Que o Turista Deve Ver , Lisbon – What the Tourist Should See», fê-lo em  directamente em Inglês porque, depois de visitar algumas cidades europeias, não compreendia como é que no estrangeiro a nossa capital não era mais conhecida.

Peça insólita na bibliografia do poeta, é um livro que se afasta da sua obra mas que, à sua maneira, é também uma declaração de amor à cidade. Escrito em 1925 e só descoberto em 1988, o guia foi alvo agora de uma re-edição de luxo, facto que nos convida a relançar um olhar sobre a cidade e a tentar perceber o que foram 90 anos na vida de Lisboa.

 

Uma outra ideia de guia

Este guia turístico de Pessoa fazia parte de uma intenção maior: o autor queria iniciar uma série de publicações que, mais do que apenas Lisboa, difundissem uma nova imagem do país, contra aquilo a que chamava de “descategorização europeia”. Chegou mesmo a imaginar uma empresa de nome “Cosmopolis”, que infelizmente nunca chegou a a abrir, para internacionalizar a nossa cultura.

A nova edição foi traduzida por Pedro Cotrim (autor de “Um Mundo deste Tamanho”) e ilustrada pela mão de Mário Linhares, “urbansketcher”, que passou um ano a calcorrear Lisboa para produzir os 100 desenhos que fazem a ponte com a cidade de 1925. Poderá conhecer os originais até ao final de Janeiro, enquanto durar a exposição no Museu dos Coches.

Lisboa - Quilometrosquecontam

Outras gentes, a mesma cidade

Primeira constatação do turista que chega: Lisboa já não é nenhuma desconhecida. A nossa capital está na moda e tem o turismo como grande indústria a dinamizar o centro histórico. Pessoa conhecia bem o “Martinho da Arcada” ou “A Brasileira”, mas os intelectuais e as vanguardas já não param nestes cafés. Agora o Chiado enche-se quase exclusivamente de turistas estrangeiros mesmo que a presença do poeta nunca seja esquecida e muitos voltem para casa com uma fotografia sentados ao lado da sua estátua, na esplanada da Brasileira.

Depois da bica e antes de rumar à baixa, façamos um desvio para uns minutos no local que Pessoa considerava ser o verdadeiro centro cultural da cidade, o Teatro Nacional de São Carlos. Noventa anos depois, os lisboetas contam com uma oferta cultural muito mais vasta e já não acorrem à ópera como antigamente, mas o magnífico edíficio continua a receber melómanos com uma programação intensa. Aproveite a calma que esta praça oferece e descanse aqui numa das suas esplanadas.

Descido o Chiado e chegados à Praça da Figueira, o guia diz-nos que aqui ficava o mercado central, com lojas e quiosques dos dois lados da praça, debaixo de uma construção em vidro. A estrutura já não existe mas podemos encontrar na Rua do Alecrim um painel de azulejos com a sua ilustração.

Era aqui que Lisboa vivia o seu comércio de forma mais intensa, num eixo que se prolongava depois pela Rua do Ouro até à Praça do Comércio, por entre alfaiates e modistas, chapelarias e charcutarias. Aqui vivia-se um pouco de Paris mas o cenário já mudou. As ruas continuam cheias de vida, os locais misturam-se com forasteiros de forma flúida e a Rua Augusta mantém a sua traça, mas os lisboetas estão agora muito mais dispersos por outras zonas da cidade, centros comerciais e os ocasionais locais trendy.

Continuando o percurso com a colina do castelo no horizonte, podemos fazer um desvio para conhecermos a Custódia da Sé de Lisboa que tanto impressionou o poeta com os seus rubis, esmeraldas e safiras, e continuar a subida até às ameias de São Jorge onde teremos uma impressionante vista sobre a cidade. Na colina em frente, a da Senhora do Monte, Fernando Pessoa salientou também a paisagem e só podemos imaginar como seria o impacto deste casario no princípio do século passado. Hoje em dia, em todas as direções, encontramos sinais de uma Lisboa moderna, prédios altos construídos nos últimos anos, uma Praça do Martim Moniz que nem existia naquela altura ou a Ponte 25 de Abril que aproxima as duas margens do rio.

 

“Loucos anos 20”

Se na Praça da Figueira tivéssemos optado por virar à esquerda e seguido para Norte, iríamos passar pelos Restauradores onde, nos anos 20, se cruzavam cavalheiros com chapéus de aba e meninas com “escandalosas” saias pelo joelho. Hoje o cenário é muito mais prático e são os habitantes dos subúrbios que aqui passam, chegados através do terminal ferroviário em trânsito para os seus empregos.

Esses cavalheiros e damas de 1925 subiam depois a Avenida da Liberdade, onde havia uma curiosa tradição de passeios entre as suas árvores, visitas a confeitarias e música na rua durante o verão. Por alturas dos anos 80 e 90, esta clássica avenida corria o risco de perder o seu charme e tornar-se apenas a mais intensa via de trânsito automóvel da capital, mas com o séc XXI o comércio voltou a reanimar nesta zona, instalaram-se aqui reconhecidas marcas e costureiros internacionais e as esplanadas voltaram a ser local de eleição para os tempos livres dos lisboetas.

Quase um século depois de Fernando Pessoa ter percorrido as ruas desta cidade, a intenção do autor parece ter-se concretizado: Lisboa é agora um destino turístico de eleição e serão poucos os europeus que não ouviram falar da capital nestes últimos anos. Mesmo que ninguém possa acusar Lisboa de não se manter fiél a si mesma e não ter orgulho em si, nem conseguimos imaginar o que diria hoje em dia o poeta…