Almeida a Ciudad Rodrigo, uma rota de desavenças e reencontros

Entre Almeida e Ciudad Rodrigo a Goodyear encontrou as testemunhas das guerras peninsulares e de quando nos juntámos aos espanhóis para combater Napoleão.

De Almeida a Ciudad Rodrigo, a raia está cheia de antigas recordações dos tempos em que a fronteira entre Portugal e Espanha era ainda um conceito nebuloso. Assistiu-se aqui às lutas entre os dois países e até ao momento em que nos unimos todos para combater os franceses, e alguns destes lugares ainda guardam esta história de forma muito bem preservada. Com os exemplos de Almeida de um lado e Ciudad Rodrigo do outro, partimos para um passeio na fronteira que, além de ser um mergulho no passado, leva-nos a uma região que muitos portugueses só conhecem como o caminho para Vilar Formoso.

    Toda a linha de fronteira ente os dois países da Península é pródiga em histórias e edifícios que trazem as recordações da guerra e dos antigos senhores responsáveis pela sua proteção, testemunhas dos importantes acontecimentos que definiram o futuro dos dois países. Já fizemos antes um percurso pela linha de castelos que vão de Marvão até Zafra, quase todos fundados ainda durante a Idade Média por ordens religiosas, e desta vez seguimos mais para norte, para recordar outros momentos da história ibérica, a Restauração e, mais tarde, as Invasões Napoleónicas.

    Apesar dos conflitos que os dois vizinhos tiveram ao longo dos séculos, a fronteira entre Portugal e Espanha é a mais antiga da Europa e ninguém está interessado em reavivar antigas querelas, por isso podemos saltitar de um lado e do outro da linha e ser bem recebidos nos dois lados. Aliás: se quisermos entender bem o que faz de nós, afinal, tão parecidos com os Espanhóis, é mesmo aqui que temos que vir.

    Almeida

    Malhada Sorda

    Depois de partirmos da Guarda, começamos a nossa rota numa pequena e discreta aldeia que pouco revela ainda do panorama que vamos ver no resto do percurso, mas que é um bom exemplo das povoações que encontramos do nosso lado da fronteira, com as suas casas com pátios lajeados, alpendres e escadas exteriores, a Malhada Sorda. Antigo centro oleiro, já houve uma altura em que a louça vermelha aqui produzida podia ser encontrada um pouco por toda a zona raiana.

    Castelo Mendo

    Uma das Aldeias Históricas oficiais, Castelo Mendo tem ainda as sua muralhas e a porta ogival flanqueada por duas torres a recordar-nos a sua participação nos combates da Restauração da Independência. Ainda sobrevivem edifícios dos séculos XV e XVI e uma bela igreja paroquial, mas parte da fortaleza foi destruída durante o terramoto de 1755, já depois de cumprir um importante papel na luta contra Castela e Leão, na defesa da região de Ribacôa. Vale a pena uma visita à Rua do Forno, para calcorrear a calçada medieval e ver as fachadas das casas quinhentistas ainda de pé.

    Castelo Bom

    Prosseguindo caminho na direcção de Almeida, Castelo Bom não tem a imponência que acabamos de ver na última paragem, mas tem um silêncio e um ambiente pacífico merecedor da nossa atenção. A terra não tem muita actividade e o seu antigo castelo não é agora mais do que algumas ruínas, mas do alto do monte onde se ergueu, a vista é fantástica e um complemento perfeito para este panorama bucólico.

    Almeida

    É dentro da fortaleza na forma de estrela de 12 pontas que vamos encontrar Almeida, um magnífico exemplar das “Fortalezas de Vauban”: um polígono hexagonal com os lados continuados para o exterior por fortes baluartes, cercado a toda a volta por um fosso. Impressionante à distância, seduz-nos com o seu bom estado de conservação e pela forma como a vila “civil” cresceu dentro desta construção militar que já teve um paiol, um quartel e uma prisão. Hoje em dia vale a pena a visita ao Museu Militar, ao Palácio da Justiça, à Casa dos Governadores ou ao Picadeiro Real, entre outros.

    Recomendamos uma passagem demorada pela terra, não é sítio que se conheça de fugida, e a gastronomia local assim o convida. Cabrito e borrego assado, arroz de lebre, coelho à caçador e a bola doce são algumas iguarias que poderá encontrar aqui, e queijos, presuntos, chouriços e morcelas estão entre os produtos locais que irá querer conhecer.

    Vale da Mula

    Separadas por cerca de um quilómetro e pela ribeira de Tourões, Vale da Mula e Aldea del Obispo são uma espécie de irmãs separadas à nascença que os homens voltaram a unir. Enquanto os castelhanos guardaram desejos de ocupar Portugal, a terra era base dos espiões portugueses que iam até território espanhol investigar operações militares. Depois disso, as duas povoações criaram laços próximos e foram os próprios habitantes a tomar a iniciativa de restaurar e alargar a ponte entre eles.

    Fuerte de la Concepción

    Do outro lado da fronteira, La Concepcion era também uma espécie de gémea de Almeida, a cerca de 9Km, de onde partiram vários ataques espanhóis durante a Restauração e a Guerra dos Sete Anos. Já no séc. XIX, quando portugueses e espanhóis se juntaram aos ingleses para combater as invasões francesas, o Duque de Wellington mandou sabotar La Concépcion para parar o avanço napoleónico. Reza a História que, com a memória das guerras com os espanhóis ainda bem vivas na memória, os sapadores portugueses esmeraram-se de tal forma que deixaram a fortificação completamente arruinada depois da explosão parcial de seis toneladas de pólvora. Apesar disso, é um curioso edifício que foi protegido de mais degradação e onde existe agora um Hotel de prestígio.

    Ciudad Rodrigo

    Aldea del Obispo

    Esta pequena localidade de fronteira já viu muitos dos seus filhos partirem nas vagas de migração que levaram tantos espanhóis para a América Latina. Vive hoje em dia da agricultura e da pecuária, o que deu à terra boa fama na qualidade da sua carne. A partir daqui poderíamos seguir até à Puente de los Franceses, visitar Villar de Ciervo e a sua fama de pastelaria, ou seguir até San Felices de los Gallegos, onde outro castelo medieval nos aguardaria. Deixamos esses destinos para outra oportunidade e seguimos diretos a Ciudad Rodrigo

    Ciudad Rodrigo

    Depois das lutas entre D. Enrique IIº de Espanha e o seu irmão Pedro, Ciudad Rodrigo ficou em particular mau estado, cabendo ao vencedor restaurar a antiga praça e fortificá-la ainda mais. Foi nessa altura que se edificou o Alcazar em cima da rocha escarpada sobre o rio, até que em 1928 foi transformado em Museu Regional e, logo a seguir, em Hotel.

    O Castelo original remonta ao séc. XIV e as suas muralhas desenham-se à volta da Torre de Menagem que está aberta para a nossa visita, com o bilhete a dar direito a uma prova de vinho e um petisco no fim. A entrada nas muralhas faz-se através de uma das suas seis portas e, a partir desse momento, estamos convidados a deliciar-nos com a sua arquitectura, as ruas empedradas, torres e cúpulas. O edifício mais carismático é com certeza a catedral, imponente nos seus traços românicos na transição para o gótico, mas as fachadas de palácios de famílias como os Castro, Águilla e Velasquez são também verdadeiras obras de arte.

    Deixe que os seus pés o levem até à Plaza Mayor onde, na companhia do velho edifício da Câmara, vamos encontrar uma série restaurantes onde poderemos, finalmente, descansar desta longa viagem. Ovos rotos com farinheira, batatas “meneás”, “hornazos” de carne, chouriço e presunto, a popular “chanfaina” de arroz e porco… O cansaço combate-se assim e, na sombra destas colunas e arcos, recordamo-nos o quanto somos bem recebidos numa cidade espanhola.