As Perseidas nos céus de Nisa: fim de semana com as estrelas alentejanas

A Goodyear foi passar um fim de semana a Nisa, Alto Alentejo, para apreciar a maior chuva de estrelas do ano e apreciar a calma local. Contamos-lhe tudo.

A região de Nisa é um daqueles locais ainda relativamente desconhecidos no Alto Alentejo, sem verdadeiros motivos que justifiquem o facto. Sem a fama de outras localidades não muito distantes, como Castelo de Vide, Crato ou Vila Velha de Ródão, não tem menos charme e, menos concorrida, propicia-se ainda mais a momentos de reclusão. No nosso caso, que íamos à procura da chuva de estrelas de Agosto, as Perseidas, era mesmo isto que procurávamos: um céu escuro, pouca gente e calma, ingredientes a que se juntaram as magníficas paisagens e os prazeres da gastronomia local para compor um fantástico fim de semana em Nisa.

Nisa é, infelizmente, muito menos servida de infraestruturas hoteleiras do que outras zonas do Alentejo. Mas, se não encontrar alojamento na vila, Alpalhão, Gavião ou Belver ficam relativamente perto e contam também com suficientes motivos para uma visita. O Monte Filipe e a Casa do Chão do Prior são dois locais bem reputados, mas o nosso destino era uma casa regional alugada a uma família local, na pequena Aldeia de Chão da Velha. As noites eram para ser passadas a olhar para o céu, por isso queríamos a maior distância possível do resto da humanidade.

Pelas sombras de Nisa

Enquanto a noite não caía, mas evitando as horas do pico do calor, impunha-se uma visita à vila propriamente dita. A História local é longa e isso ainda se reflecte nas portas medievais que dão acesso à zona velha, nas muralhas ou na presença da Ermida de Nossa Senhora da Graça, no alto da povoação. A terra terá sido fundada por D. Dinis, que ordenou também a construção do castelo, mas o foral só foi concedido por D. Manuel I, época da qual as ruas ainda guardam recordação nas fachadas e iconografia.

Numa mercearia local abastecemo-nos de enchidos e do famoso queijo da terra, mas acabou por ser em Chão Da Velha que comprámos o melhor da viagem, directamente ao produtor. Trouxemos também um frasco de mel e uma ramada de poejo que são das melhores coisas que o campo pode produzir. O artesanato local é rico e motivo de atenção se tiver interesse em bordados e rendas, mas encontra também aquelas deliciosas peças de mobiliário pintadas à mão que são comuns no Alto Alentejo.

O sotaque do Alto Alentejo

Para percebermos o que dá o sabor especial a estas chouriças subimos ao alto da Serra de São Miguel. A partir do miradouro a 460 metros de altitude, com paisagem que se estica até Espanha, vimos todos os campos em volta e a natureza que dá o sabor especial a esta carne. Carvalhos até perder de vista, vegetação rasteira que tenta sobreviver na canícula, é uma imagem de um Alentejo feito a tons um pouco mais escuros do que a Sul mas, indubitavelmente, o Alentejo que bem conhecemos.

Nesta região do Tejo, onde podemos incluir ainda Castelo de Vide e Vila Velha de Ródão, entalada entre Beira e Alentejo, ainda encontramos gente mais velha que fala da forma típica da terra. Os “r” no final dos verbos parecem desaparecer e todas as frases parecem acabar em “…em”, naquilo a que as avós chamavam de “falar de rabo comprido”. As novas gerações já não falam assim, mas o forasteiro pode ter alguma dificuldade em perceber uma anciâ quando estiver a comprar o pão ou mais um queijo. E, não é demais recordar, por que motivo é que alguma vez poderia passar em Nisa sem trazer um dos óptimos queijos regionais?

À volta de Nisa

Através da estrada que vai de Gavião até ao rio, a N244, fomos até à praia fluvial do Alamal, um paraíso sem o qual os locais não poderiam sobreviver nos meses do verão. Passámos para outra margem, através da barragem, e visitámos também Belver, onde o castelo de planta circular já albergou o tesouro do reino, por alturas de D. Sancho I. Hoje em dia, um moderno centro de interpretação dá vida ao monumento e explica tudo ao visitante. Relatos históricos a meio de uma tarde de Agosto acabaram por revelar-se interesse limitado, por isso prosseguimos até à Praia Fluvial de Ortiga, numa pequena reentrância feita pelo Tejo, para um rápido mergulho.

Ainda tivemos oportunidade para uma passagem pela Amieira do Tejo, na encosta que sobe a partir do rio e rodeada de altos montes, antiga povoação que parece aninhada dentro de uma cova, em redor de um clássico castelo de quatro torres. A igreja, muito branca a reluzir, é a nota de cor na paisagem e o sinal que os ritmos da Páscoa e do Natal são ainda muito importantes para as gentes locais.

Para compor o fim de semana, o principal motivo que nos levou até ao interior do país, as Perseidas revelaram-se em todo o seu esplendor. Depois da lua, num quarto crescente esplendoroso e a flutuar num céu cristalino, se pôr por volta das duas da madrugada, tivemos oportunidade de assistir a muitos rastos luminosos a cruzar a esfera celeste. Os clássicos do céu desta altura do ano, Albireo, a nebulosa do halter ou os Patos Selvagens, apresentaram-se como de costume, velhos clássicos renovados agora na companhia de um bom tinto alentejano, um naco de pão com chouriço e uma noite sem brisa. O Alqueva que se cuide…