Cabo da Roca, eis o fim do mundo

A descer a serra até ao Cabo da Roca, a Goodyear descobriu relatos de mouros, boémios dos anos 40 e o som das ondas contra a rocha. Uma viagem dramática.

Cavada pelo Atlântico, a nossa costa tem muitas falésias e outros brutos monumentos à força do mar, mas nenhum tão significativo e místico como o Cabo da Roca. Com a serra e a água por companheiras, a estrada que vai até ao ponto mais ocidental da Europa é um delicioso convite à condução e é o centro nevrálgico para algumas dos melhores quilómetros que podemos fazer atrás de um volante. A Goodyear foi de Sintra até ao mar, revisitou algumas das suas estradas favoritas e prestou tributo à História que se recorda ainda no Cabo da Roca.

    38.803864-9.381410

    A partir da sombra de Monserrate e do Monte da Lua

    À saída da vila, damos uma última olhadela à nossa lista: Queijadas? Temos! Regaleira? Já conhecemos. Seteais? Pena? Castelo dos Mouros? Todos são locais fantásticos, numa terra linda como poucas, mas hoje vamos virar costas a Sintra e prosseguimos para as indómitas águas da Roca. Vamos fazer como o orvalho e os nevoeiros que emprestam magia às manhãs da serra e deixamo-nos escorregar pela encosta até ao mar.

    Paisagem de inspirações

    A nossa primeira paragem é em Galamares, local bucólico, onde começamos a entrar na zona da Várzea. Apesar de pouco povoada, cresceu durante os anos 40 do século passado com casas burguesas que aqui se instalavam para que os seus ocupantes pudessem sentir os “ares da serra”. Entre as distintas figuras que para aqui vieram nessa altura inclui-se José Gomes Ferreira, Reinaldo dos Santos ou Mário Dionísio.

    Jóias em Colares

    Ao cruzar o fértil vale da Várzea de Colares, percorrido pela ribeira que alimenta os pomares e vinhedo que são o orgulho da terra, encontramos uma jóia que nos obriga a parar. É uma deliciosa localidade que parece viver numa bolha de tempo algures no séc.XIX, ainda com os muros das antigas residências rurais ao longo da estrada. Se este ambiente não o obrigar a parar o carro por uns minutos, lembre-se que nasce aqui um dos melhores vinhos do país.

    Praia da Ursa

    Cruzamento da Azóia

    O nosso percurso vai agora prosseguir na direcção do mar e vamos virar à direita no cruzamento para a Azóia. Se prosseguíssemos esta estrada, iríamos fazer o percurso pela costa até à Malveira da Serra e, logo de seguida, a Praia do Guincho. Se nunca fez essa estrada todos os fins de semana inundada de motociclistas e condutores em passeio, nem sabe o que está a perder.

    Azóia

    Depois de virarmos para a Azóia, o alvo casario da terra aparece rodeado pela verde mistura de vegetação que aqui faz a passagem do ambiente da serra para o oceânico, com o azul do mar como pano de fundo. Tal como Almoçageme que a precedeu, esta é uma localidade com raízes no tempo em que os Mouros eram os donos de Cintra e tem aquele ar comum a outras localidades marítimas árabes, como Sidi Bou Said na Tunísia, por exemplo. A um domingo de manhã aproveite para parar num café à beira da estrada, enquanto assiste à procissão de milhares de motards que aqui passam todas as semanas. É tribo que sabe sempre onde encontrar o prazer da condução.

    Metros finais da estrada

    Na etapa final, abre-se toda a paisagem enquanto a estrada prossegue pela parte superior do promontório que começa aqui a definir-se até chegar ao cabo. Entre os chorões que se estendem pelo chão, podemos ver, aqui e ali, uma pequena planta de flores brancas que é endémica do Cabo da Roca apesar de ter vindo a perder terreno durante as últimas décadas, a Armeria Maritima. A toda a volta, os pedregulhos de granito e calcário que se erguem do verde, são o retrato em bruto do combate milenar entre a água e a terra.

    “Onde a terra se acaba e o mar começa”

    O Cabo da Roca tem a impressionante altura de 165 metros e é o ponto mais ocidental da Europa e Portugal continentais. Dramático nas dimensões, tem também um micro-clima a preceito, com brutas rajadas de vento por altura do inverno, enquanto a espuma das águas se desfaz no fundo do precipício.

    Aproveite para trazer um certificado da sua visita, mas a loja de recordações e artesanato ou o monumento não lhe demorarão mais do que poucos minutos, por isso todo o tempo aqui passado é mesmo para sentirmos o cheiro do mar e a força do azul que se estende à nossa frente. No miradouro, uma placa recorda Camões e cita a passagem dos Lusíadas: “aqui, onde a terra acaba e o mar começa”.

    Depois do passeio à beira da falésia, outro curioso motivo para se vir até aqui é o velho farol. Construído em 1772, pode ser visitado durante as tardes de quarta-feira. Já subimos até ao topo desta torre e, para além da interessante introdução à vida dos antigos faroleiros, tivemos direito a um panorama ainda mais monumental.

    E ainda…

    Se tem a resistência física necessária e o tempo assim o convidar, o mesmo percurso pode ser feito de bicicleta e existe ainda uma série de outros pontos de interesse para se visitar, como o Castelo dos Mouros ou Monserrate. Se, depois do Cabo da Roca, ainda tiver energia para mais uns quilómetros de condução, entre a Praia das Maçãs e as Azenhas do Mar irá encontrar um bonito pedaço de costa, com bons restaurantes em qualquer uma das duas localidades. Finalmente, uma visita à região de Sintra não estará completa sem um travesseiro ou uma queijada e nem todos os bons exemplos se encontram na vila, por isso não tenha medo de se perder.