Por onde nasceu e andou Camões?

Lisboa, Chaves e Alenquer reivindicam a honra de serem o berço de nascimento de Camões e fomos para à estrada à procura dos locais que inspiraram o poeta.

A resposta rápida é “ninguém sabe ao certo”. Mas a resposta longa à questão sobre onde nasceu Luís Vaz de Camões é muito mais interessante e, mesmo que nem sempre nos leve na pista certa, bastante mais sumarenta para quem prefere imaginar como é que seria Portugal no século XVI e quem gosta de novos motivos para partir numa visita à aventura. Venha daí connosco num mini-roteiro às cidades que reivindicam a honra de terem sido berço de nascimento do grande poeta.

Os registos da Casa das Índias indicam que deverá ter nascido em Lisboa em 1524, mas a questão não fica assim tão facilmente esclarecida, pois outras pistas dão sinais de que há motivos para que outras localidades possam dizer o mesmo. Comecemos pelo que os historiadores já estabeleceram: a casa ancestral dos Camões seria de origem galega e teria entre os seus nomes Vasco Pires de Camões, o guerreiro trovador da Galiza que se mudou para Portugal em 1370. Algumas gerações mais tarde, Simão Vaz de Camões e Ana de Sá e Macedo seriam os pais de Luís. Onde? Aí é que está a dúvida.

O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.

É num eclipse semelhante que se vive a incerteza sobre a data e local de nascimento de Camões. Dá-se como certo que Camões terá passado por Lisboa, Chaves, Santarém e Coimbra mas, em muitas dessas vezes, essas afirmações dão-se por dedução e não por registo explícito nesse sentido. Um percurso por estes locais é também uma viagem a alguns das mais bonitos e pitorescos pontos de interesse do nosso país, motivo suficiente para pegarmos no carro e recomendar-vos este percurso por Portugal de Norte a Sul.

Chaves

Da Galiza para o Alto Tâmega

Chaves guarda a memória do poeta numa praça a ele dedicada, pois os Camões eram os senhores da aldeia de Vilar de Nantes, nas imediações da cidade. Aqui, um edifício em ruínas conhecido como “Casa de Camões” poderá ter pertencido ao avô e, segundo algumas versões da história, terá sido o seu local de nascimento. Ambas as afirmações são improváveis, não existem evidências concretas nesse sentido, mas fazem parte da mitologia que acompanha Camões. Certo é que também o percurso que a sua família fez desde o Cabo Finisterra até Lisboa, ajuda a entender quem era afinal o escritor e qual a sua proveniência. Afinal, quem passa por Trás-os-Montes fica com a sua vida irremediavelmente marcada. Que o diga Miguel Torga.

Vão as serenas águas
do Mondego descendo
mansamente, que até o mar não param;
por onde minhas mágoas
pouco a pouco crecendo,
para nunca acabar se começaram.

O nascimento do génio

Coimbra deverá ter sido ponto de passagem também. Mesmo que as evidências para o seu nascimento nesta cidade sejam muito escassas, o despontar do intelecto parece estar devidamente esclarecido. A sua cultura indica que terá passado por um centro de conhecimento e, na época, isso em Portugal queria dizer inevitavelmente Coimbra. A cidade das margens do Mondego guarda-lhe bastantes memórias e poderá ter sido um tio, professor da universidade, que o trouxe até aqui e o apresentou ao latim e aos grandes clássicos da literatura. É muito possível tenha feito parte do corpo de estudantes que acorriam para as aulas ao som da “cabra” e que tenha tido lições dos mestres mais cultos da época.

Coimbra

Camões e o Tejo

Uma das nossas localidades preferidas à beira Tejo, Constância é outro ponto a não perder nesta viagem. O cruzamento do Zêzere com o Tejo, apesar dos séculos, não deverá estar assim tão distante da terra que Camões poderá ter conhecido, mas não é uma das hipóteses para local de nascimento. Diz a tradição que ele terá aqui estado durante uma temporada para se refugiar de uma questão amorosa que terá corrido da pior forma e que o obrigou ao afastamento de Lisboa. O edifício quinhentista onde terá morado é hoje a Casa-Memória de Camões mas a verdade é que nunca foram apresentadas provas concretas nesse sentido e falta documentação definitiva sobre este possível exílio. Apesar disso, a terra exibe a sua ligação ao poeta com muito orgulho, com o Horto de Camões e um pequeno monumento em que nos podemos sentar na companhia de uma estátua do poeta. Se ele tiver feito um passeio nesta margem, parte da sua inspiração fica com certeza explicada.

Alenquer também apresenta os seus argumentos para incluir Camões como um dos seus conterrâneos: quando chegou a Portugal, Vasco recebeu vários benefícios da coroa, incluindo a governação da Vila e Castelo de Alenquer, sendo que parentes do poeta viveram na região durante os anos seguintes. Segundo o historiador Filipe Rogeiro “nenhuma outra localidade [como Alenquer] é recordada em Os Lusíadas em termos tão enternecidos” e a possibilidade da mãe do poeta pertencer aos “Macedos de Santarém”, é sinal de uma ligação clara à zona. De acordo com este autor, mesmo que não tenha nascido aqui, Camões teve um contacto forte com Alenquer durante a sua infância. Opinião algo semelhante têm outros historiadores que colocam Santarém com um dos seus prováveis locais de nascimento.

Para os historiadores, claro que a questão do nascimento daquele que é considerado o maior poeta português é um tema muito sério e para ser interpretado segundo todas as regras da Academia. Mas nós aqui somos só viajantes e, quando toca motivos para visitar Chaves, Alenquer ou Coimbra, preferimos uma boa história (com “h” minúsculo) do que os factos puros e duros. Afinal, partir à procura de Camões é como partir à procura de Portugal.