Em busca da memória: o convento de Mafra na obra de Saramago

Visita ao convento de Mafra, aos locais citados em “Memorial do convento”, livro de José Saramago

Em “Memorial do Convento”, Mafra representa todo um país e nem todos os heróis precisam de um nome. Mas, também fora da obra de José Saramago, este é um fantástico ícone da portugalidade e dos mitos nacionais. Com a desculpa do tributo, rumemos à velha vila de Mafra e enfrentemos este convento, centro de tantas histórias.

“Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento de Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez.”

Mafra, em “Memorial do Convento”, durante as três décadas da construção, é o local onde encontramos a força do herói colectivo, e é nos trabalhadores que erguem este monumento que o romance encontra o seu esqueleto, a partir do qual o nobel ergue uma teia de fantasia. É em cima do esforço anónimo na pedra que Baltasar – Sete Sóis – e Blimunda – Sete Luas – ganham forma. Como dizia Saramago:  “é uma história na História”.

Convento - Quilometrosquecontam

O Convento do premio nóbel da literatura

Chegados a Mafra, imaginemo-nos como parte da multidão que, a 22 de Outubro de 1730, aqui assistiu à sagração do convento. Impossível não nos impressionarmos com esta fachada com mais de 230 metros de comprimento. Ao centro, a basílica com a sua cúpula e torres sineiras, de cada um dos lados imponentes torreões. As colunas do pórtico mostram claramente a influência neoclássica, complementadas com diversas esculturas no mesmo estilo.

“A sagração é já no domingo e todos os cuidados e trabalhos serão poucos para dar à basílica um ar composto de obra acabada.

Saramago conta-nos que 40.000 trabalhadores trabalharam noite e dia para que a Basílica ficasse terminada no dia do aniversário de D. João V. Três séculos depois, essa azáfama deu lugar à atmosfera dos lugares sacros: uma fiada de capelas, um altar-mor com um retábulo de um mestre italiano e um magnífico crucifixo de quatro metros de altura.

Convento Mafra - Quilometrosquecontam

Do sagrado para o profano

Como bem patente fica no romance de Saramago, mesmo que D. João V tivesse a intenção de alojar aqui um verdadeiro convento, grande parte do edifício, o Palácio, teve destino secular, servindo de casa de campo da família real. Há neste palácio um total de 666 divisões, hoje em dia convertidas em museu.

De visita obrigatória, para um roteiro completo pela acção do livro, são a Sala do Trono, a Sala da Caça, a Sala da Música ou os Aposentos Reais. Saramago fala-nos dos encontros frios entre o rei e sua esposa, duas vezes por semana, em que este fazia os 200 e muitos metros que, desde o Torreão Sul, o separavam do Torreão Norte e dos aposentos de D. Maria. O facto é histórico e podemos visitar estes quartos.

Ainda hoje, a força bruta deste gigante de pedra, divide opiniões e o próprio Saramago chamou-lhe “bisarma”. Mas, seja qual for a opinião do leitor, é inegável que o Convento de Mafra é um monumento único do Portugal setecentista, da mesma forma que “O Memorial” é um retrato sem igual de, mais do que uma época, um país.