De Cascais a Colares: mar, serra e céu

A N247 no troço entre Cascais a Sintra, com passagem obrigatória por Colares, assiste à passagem de menos visitantes, mas os motivos para a visita são os mesmos de sempre: o contraste entre o mar e a serra

Há formas mais rápidas de se fazer o percurso Cascais-Sintra, mas não é para gente com pressa que este post se dirige. Antes do advento das grandes superfícies comerciais, das auto-estradas ou da obrigatoriedade de cinto de condução, eram muitas as famílias da região de Lisboa que, ao domingo, agarravam no carro e conduziam, aparentemente sem destino, pelas curvas da Serra. Hoje em dia, a N247 no troço entre Cascais a Sintra, com passagem obrigatória por Colares, assiste à passagem de menos visitantes, mas os motivos para a visita são os mesmos de sempre: o contraste entre o mar e a serra é de uma beleza que nunca deixa de nos impressionar. Mas já estamos a revelar demasiado: siga o nosso roteiro e conheça um trajecto que até Fernando Pessoa invocou.

 

À boca do mar

Ainda antes do início “oficial” da N247, e saídos do centro de Cascais, nos primeiros quilómetros do nosso percurso passamos logo pela deliciosamente pequena Praia de Santa Marta, um recanto que parece cristalizado no tempo desde o séc XIX. Em completo contraste, mais à frente iremos passar pela Boca do Inferno, precipício onde o mar fustiga a rocha e invoca visões dantescas. De forma mais suave, é essa a paisagem que nos acompanhará até ao Guincho, com a costa da Guia a ser um ponto de visita obrigatória para entusiastas da escalada, mas que não deixa ninguém indiferente. Sempre que aqui passamos, basta-nos a visão de um dos muitos viveiros de marisco que marcam a paisagem, para recordar que os próximos quilómetros estão repletos de belíssimos restaurantes à beira da estrada. Estaríamos a ser injustos em recomendar apenas um, quando a oferta inclui nomes como o “MesteZé”, “Faroleiro”, “Furnas do Guincho” ou o “Porto de Santa Maria”. Dificilmente saímos desiludidos.

Rota Cascasis carro - Quilometrosquecontam

Azul e verde em contraste

Depois do extenso areal do Guincho e do cruzamento da Malveira da Serra, o contraste é imediato: à nossa direita cresce a serra, à esquerda, apartado de nós por verdes vales, fica o mar. No meio está uma das estradas de condução mais aprazível que já experimentámos: vamos “colados” ao declive, serpenteando por entre curvas e extensas rectas. É um dos troços em Portugal mais visitados por motards, em ritmo de passeio para o Cabo da Roca. Mas, desta vez, não iremos visitar o ponto mais Ocidental da Europa. Em vez disso, depois da Azóia, continuamos pela N247 e preparamos ao “assalto” à Serra. A vegetação começa a mudar, a tornar-se mais densa, e ainda com os solos arenosos de influência marítima, ganha características que lhe permitem produzir um dos vinhos de excepção portugueses.

 

No pé da serra

Colares não está na moda como outras regiões do país, mas produz um néctar reconhecido por todos os conhecedores de vinho. E, depois de o experimentar, só podemos concordar. A loja da Adega Regional de Colares (fechada aos domingos) é a nossa recomendação para conhecer os produtos da zona, mas não se acanhe e não deixe de visitar a vila. A estrada continua na direcção de Sintra mas, pelo menos desta vez, ficamo-nos por aqui. Pitoresca e bastante antiga (remonta pelo menos ao séc XIII), Colares está repleta de recantos encantadores, de velhos sinais de um passado agrário, que ainda perdura mas parece anacrónico. Experimente estar aqui numa manhã em que a bruma desce da Serra (não é difícil por alturas de fim do Outono). Terá dificuldade em saber em que século está…