A primavera já está na Madeira

Veja porque o inverno nunca consegue chegar à Ilha da Madeira. Nesta rota, com a Goodyear, de Santa Clara a Porto Moniz nunca deixamos a primavera

Não admira saber que é crescente o número de portugueses que escolhem a Madeira como destino onde fugir dos rigores do inverno. Uma temperatura média acima de 15 graus durante o mês de fevereiro é uma escusa perfeita para ir conhecer a alfaia do Portugal ultramarino. Pois é preciso apenas alugar um carro para começar a descobrir algumas das paisagens mais formosas do país acariciadas por uma brisa fresca que vem do mar e umas estradas esticadas sob o sol que convidam a se demorar por elas. A primavera na Madeira é eterna, costumam dizer, e não erram.

A chegada à ilha produz-se por Santa Cruz, na costa oriental, onde está situado o Aeroporto Internacional da Madeira. Existem várias companhias disponíveis quanto ao aluguer de carros, fazendo fácil começar imediatamente um percurso ainda a esticar as pernas após a viagem de 1 hora e 45 minutos. O município de Santa Cruz é a nossa primeira paragem na rota, uma completamente necessária: os vestígios da colonização que teve aqui o seu começo estão por toda a parte e desenham uma vila de indiscutível ar fidalgo e senhorial, onde imaginamos ainda ver ao longo, no mar, os galeões de João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira a aproximar-se da ilha como fizeram num dia afastado de 1419.

É pena termos perdido um dos tesouros da cidade, o Forte de São Francisco de Santa Cruz, do século XVIII, que foi demolido quando das obras de ampliação do aeroporto, mas hoje ainda podemos perder o olhar noutros exemplos do património local como o Mercado Municipal da Rua da Praia, o Convento Franciscano de Nossa Senhora da Piedade ou o antigo edifício dos Paços do Concelho, hoje Tribunal da Comarca.

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    A ponta do Garajau

    Após esta visita devemos pegar a estrada R-101 em direção à capital e depressa chegaremos a Caniço, onde podemos subir à ponta do Garajau. Do miradouro temos uma vista maravilhosa da baía do Funchal em cujo estremo sul nos encontramos. As casas da povoação refletem-se no mar enquanto a brisa marinha parece pentear os cabelos da estátua do Coração de Jesus aqui construída em 1917. O trilho pedonal leva ao miradouro e resulta muito fácil, aqui, imaginar a estação baleeira que operou na ponta e o posto de vigia que servia para avistar os gigantescos cetáceos. Ainda, se tiver vontade de experimentar a praia, existe um teleférico que desce até à Praia do Garajau.

     

    Funchal, capital da Madeira

    A viagem continua até ao Funchal, a capital. Uma vida buliçosa mexe-se sempre na Praça do Município, e pode fazer com que esqueçamos pontos importantes que toda visita à cidade deveria incluir: a catedral e a igreja de São João Evangelista. Também é recomendável conhecer o Mercado dos Lavradores para se aproximar mesmo da vida local. Inaugurado em 1940 como obra de Edmundo Tavares, o mercado tem uma área coberta de 9.600 m2 com uma entrada decorada de azulejos com temas regionais. Aqui o mundo vira um Carnaval de cor: as flores, os frutos, e os lindos trajes regionais que muitas das vendedoras vestem contribui a trasladar-nos para um outro mundo.

    A autoestrada leva-nos agora para uma cidade de nome sonoro: Câmara de Lobos. É aqui que o universalmente conhecido vinho da Madeira é produzido, e a beleza dos vinhedos que envolvem a cidade a a baía é completamente justificada. O miradouro do Pico da Torre é um local excelente para contemplar o conjunto da povoação: os barcos da pesca nas docas, o ilhéu… Muito perto iremos bater com o cabo Girão, e depois com a Ribeira Brava, onde abandonamos a R-101 pela direita e entramos através da R-104 no Parque Natural de Madeira.

    Sao Lourenco. Funchal - Quilometrosquecontam

    Reserva de vida

    Criada em 1982, a reserva ocupa uma área muito grande da ilha e visa proteger autênticas raridades do ponto de vista da flora e da fauna, incluindo espécies endémicas da ilha. Vales e montanhas são refúgio para espécies extintas ou muito pouco frequentes noutras partes do mundo, caso da floresta laurissilva.

    Deixar o carro e praticar um bocadinho de pedestrianismo seria uma escusa perfeita para mais uma rota que podemos desenhar noutro dia. Pelo vidro distinguiremos uma paisagem de verdes diversos e únicos, enredados com o sol tímido, enquanto o ar traz uma fresquidão que se calhar no continente seja impossível encontrar desde há muito tempo.

    Quando sairmos do parque chegaremos à vila de São Vicente, um destino de casas brancas cheias de charme ilhenho. As palmeiras e os edifícios de ar ilhenho conformam uma paisagem relaxadora e convidam a um passeio devagar pelas ruas. Após a longa viagem feita, é possível chegarmos a São Vicente nas horas prévias ao pôr-do-sol, quando um laranja de lume envolve a brancura da povoação enfeitiçando o olhar.

     

    No topo dos céus

    Saindo de São Vicente é possível tomar o caminho que leva até a Santana e ao Pico Ruivo, uma das grandes montanhas vulcânicas da ilha. 1862 metros de altura fazem da montanha a terceira mais alta de Portugal (por baixo da Ponta do Pico dos Açores e a Serra da Estrela no continente). É, porém, a mais alta montanha do arquipélago.

    O caminho para o cume serpenteia partindo de Santana entre urze e mato ralo dobradas sob a força dos fortes ventos atlânticos. As rochas aparecem aqui e acolá também, como se a montanha ficasse espida e os seus ossos antigos quisessem saudar mais uma vez o céu azul.  Em consequência, a paisagem é afeiçoada pela ação rochosa potenciando plantas acordes com este tipo de solo e uma fauna típica de cabras e ovelhas que hoje está em declínio pela preservação da flora. Pois nada detinha os antigos moradores, que nestas íngremes encostas também criavam as suas vacas e outros animais domésticos aproveitando o espaço escasso da ilha. A vista desde o cume do Pico Ruivo é singular: impressiona a alma, mas também traz uma desconcertante sensação de pequenez na imensidade do oceano.

    Após regressar a Santana e em seguida a São Vicente, pegamos a estrada para Porto Moniz que corre à beira do mar durante quase 20 quilómetros. Deixamos atrás túneis e cascatas que marcam a orografia da ilha, e entramos em Porto Moniz, um lugar inesquecível. O Ilhéu Mole e o seu faro ficam ao fundo do cenário, e defronte de nós vemos as piscinas naturais de água salgada onde as rochas vulcânicas foram vencidas pelo mar que entra nelas. 3800 metros2 disponíveis para a natação e 3217 para solário, com uma bandeira azul que convida a mergulhar nessas águas da cor do céu do verão. É aqui que devemos desligar o motor.