Vale do Tua: entre dois rios

Fomos conhecer os últimos quilómetros da linha e descobrir a zona onde Douro e Tua se encontram

Ainda envolta em polémica, a barragem da foz do Tua aproxima-se da sua conclusão e, muito em breve, uma das zonas mais belas de Portugal irá mudar para sempre. O ponto onde este rio se encontra com o Douro é de uma beleza memorável e, nestes últimos momentos que podem anteceder o seu desaparecimento, o Tua transforma-se numa visita obrigatória. Não deixe 2016 acabar sem passar um par de dias na “Terra Quente Transmontana” e ver esta paisagem, quem sabe, pela última vez.

À descoberta do Tua

Não é nossa tarefa questionar o progresso que traz a nova barragem ao Alto Douro mas, depois de visitarmos a região, temos que vos desafiar: antes que este ponto onde o Tua encontra o Douro vinhateiro desapareça da paisagem, guarde um fim de semana para registar esta visão na memória. O que quer que o poder político venha a decidir no futuro, e há ainda muita oposição à conclusão do projeto, este é um local de uma beleza excecional que urge ser descoberto por todos. Se a N222 entre a Régua e o Pinhão já é mundialmente conhecida como “linda de morrer”, o percurso a montante não é menos impressionante.

Vista Pinhao

Em passeio recente que fizemos ao Vale do Tua, optámos pela abordagem a partir de sul, chegando à Régua através da A24. A norte, o percurso faz-se com passagem por Carrazeda de Ansiães ou Alijó, estradas bem diferentes mas que merecem atenção própria. Se chegar por esta direção, não perca o panorama que lhe surge no miradouro das Curvas do Cadaval, um “banho” de paisagem sem par entre as estradas portuguesas.

Se tivéssemos a genialidade de Miguel Torga e nos pedissem para descrever este triângulo de terra, poderíamos escrever algo como:

“O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a refletir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.”

Ainda podemos chegar ao Tua de comboio

A linha ferroviária do Tua era a forma como as gentes destas terras se ligavam a Mirandela, a norte, e os 21 kms pelo Vale são de um valor cénico que tem que ser visto para ser compreendido, as fotografias não lhe fazem justiça. Os carris já começaram a ser levantados entre Tua e Cachão e parece certo que o comboio não voltará a circular aqui. Resta-nos a opção de aqui chegar de carro ou através da linha do Douro, entre a Régua e o Tua, que é também um percurso inesquecível para apreciarmos de um ângulo original as  paisagens do Douro Vinhateiro.

A CP tem o programa “Comboio Histórico”, que  percorre o troço compreendido entre a Régua e o Tua e procura recriar um ambiente de época, com um andamento tranquilo para que apreciemos todos os pormenores da paisagem. Logo a seguir à Régua, podemos apreciar o espetáculo curioso dos barcos a transporem o sistema de comportas onde, ao fim de alguns minutos, se faz o nivelamento do caudal, funcionando como elevadores a água. O troço até à estação do Pinhão faz-se através de uma longa reta pela margem direita do rio, que permite-nos apreciar os socalcos vinhateiros e as quintas produtoras na margem oposta.

A chegada ao Pinhão acontece via uma das estações mais bonitas e pitorescas das ferrovias nacionais: o edifício é forrado por 24 painéis de azulejos que constituem um rico e valioso mostruário etnográfico à volta do vinho. Aqui se retratam diversos aspetos da faina, desde a vindima ao transporte e carregamento dos pipos nos barcos rabelos.

Retomada a viagem sempre com o Douro do lado direito, começamos a avistar ilhotas rochosas no meio do rio, algumas cobertas de vegetação. A aproximação à confluência com o Rio Tua traz consigo uma mudança na paisagem, agora mais agreste e rochosa e, daqui para a frente, teremos que escolher novo meio de transporte.

No coração do Vale

Se chegar  de carro via Alijó, os últimos quilómetros já serão feitos muito próximo do Rio. Pare em São Mamede de Ribatua e tenha o primeiro contacto com a imponência do Tua, observando a “cicatriz” do caminho de ferro que o acompanha e as serras contíguas que dão forma ao vale. Não recuse a oferta de uma laranja: na nossa muito modesta opinião, estão ao mesmo nível do vinho que se produz nesta região. Ou seja, não são menos do que divinais…

Com tempo, faça o desvio até ao topo da Senhora da Cunha. É um trajeto difícil (10 quilómetros em estrada de terra) mas a vista do alto destes 800 metros é única e deslumbrante. Aproveite bem o parque de merendas antes de voltar a descer porque, se seguir o nosso conselho, quando chegar à próxima paragem vai ser altura de abandonar o carro e prosseguir a pé.

Depois de passar para a outra margem, equipe-se com água, calçado confortável e roupa leve e rume até São Lourenço, onde, a pé, irá entrar finalmente na zona que irá ficar submersa pela barragem. Daqui ao Fiolhal são 16 quilómetros sempre feitos ao longo da linha desativada, um esforço que é a única forma de conhecermos bem o interior do vale e a margem do rio. Para Caminhadas mais curtas, Brunheda- Abreiro (9 Km) ou Abreiro-Ribeirinha (3,5 km) são dois percursos também recomendáveis.

Até ao Fiolhal, o percurso é feito pela garganta granítica talhada pelo rio e pelo Homem. Cruzamo-nos com um teleférico abandonado que unia as duas margens, com estradas agrícolas, túneis e desabamentos de terra, numa paisagem em que a natureza já começou a fazer esquecer que este era antigamente um importante eixo de comunicação e transporte. A rocha é, a toda a largura da visão, a presença mais significativa mas é também a partir daqui que o rio se revela como o espetáculo que sempre nos relataram sobre esta zona.

A história do Tua não ficará com certeza por aqui. Aconteça o que acontecer nos próximos meses, por muito grande que seja a marca que a barragem deixará na paisagem, o romantismo intemporal destas terras não será nunca perdido. Mas a imagem destes socalcos, dos caminhos que serpenteiam estas encostas e do verde que aqui cresce pela mão do homem, está prestes a desaparecer. Concordemos ou não  com o futuro que está a nascer, é agora que temos que visitar este Vale para que não se torne mera lembrança do passado.

Onde ficar

Nesta passagem pela Terra Quente, ficámos na Casa do Tua, hotel construído quase em cima do rio e dono de um cenário tão calmo que nos “obrigou” a perder horas a fio na sua varanda. Noutra visita recente, ficámos na Casa das Tecedeiras, no Pinhão, antigo mosteiro de freiras que é hoje em dia alojamento rural e produtor de vinho e azeite. Recomendamos ambas as opções. Em Tua, no Parque de Campismo Três Rios pode ainda encontrar bungalows e uma piscina, boas soluções se aterrar aqui num dos dias de canícula que estão para chegar.