Alcácer do Sal, postal à beira do Sado

A uma hora de Lisboa, Alcácer do Sal é destino excepcional para uma fuga original e descontraída. A Goodyear diz-lhe onde ficar, o que comer e visitar.

A frente rio de Alcácer do Sal é uma das mais bonitas fachadas de uma povoação portuguesa. A cidade deixa-se escorregar pela encosta que desce desde o castelo e, impedida de continuar pelo Sado que aqui faz caminho, ergue uma parede de casario branco que se reflecte nas águas. A cerca de uma hora de Lisboa, Alcácer é local de eleição para um passeio de fim de semana com algo para oferecer a toda a gente: uma história milenar e monumentos que o comprovam, os frutos da pesca no Sado a compor uma excelente oferta gastronómica e as águas do rio a completarem um panorama belíssimo. Alcácer do Sal é um dos destinos preferidos da Goodyear e vamos explicar porquê.

Dormimos com a História na Pousada de Alcácer do Sal

Apesar do seu aspecto arejado tão convidativo, a cidade das duas pontes (agora quatro) é uma das mais antigas da península e mesmo da Europa, tendo os fenícios inaugurado aqui um importante ponto de escala no comércio de estanho entre o Mediterrâneo e as Ilhas Britânicas, em 1000 a.C.. Para respeitar a tradição e entender melhor esta terra milenar, a nossa opção para passar o fim de semana foi a Pousada D. Afonso II, dentro das muralhas do histórico castelo.

A pousada de Alcácer já foi um convento das Irmãs Clarissas e guarda o silêncio e tranquilidade que imaginamos na vida monástica, mas junta-lhe uma comodidade e acabamentos interiores modernos que em nada destoam das ameias ou torreões originais que ainda resistem. Apesar do conforto, aquilo que nos seduziu mesmo foi a vista que temos a partir deste ponto mais elevado da localidade. Vá até à torre que se vira para sul e vai entender o que estamos a falar: debruçados sobre a cidade, a nossa vista estende-se por uma parte substancial deste troço do Sado, os campos de arroz e as duas pontes.

No alto do monte

Depois de instalados e refrescados, a nossa exploração da cidade começou aqui mesmo pelo topo. O Castelo é a construção dominante de Alcácer do Sal, na sombra da qual se encerra a História e uma cidade. As escavações aqui feitas têm, sucessivamente, dado provas da sua ocupação desde cada vez mais cedo. O nível mais profundo deixa-nos sinais do fim do Neolítico, há cerca de 8000 anos, e o casario circundante guarda achados mais recentes: durante a presença romana tinha peso económico e político suficientes para cunhar moeda própria e os árabes instalaram aqui uma das mais importantes fortificações da península no séc. VIII. Tomada por cruzados franceses em 1217, só a partir dessa altura passa definitivamente a fazer parte do reino português. Ficámos a conhecer esta História e muito mais pormenores, no museu arqueológico instalado na antiga cripta do castelo e, se estiver instalado na pousada, a visita é obrigatória.

Manto branco na margem do Sado

Prosseguindo caminho para a zona que faz frente ao Sado, entramos no casario tradicional da cidade: uma terra de ar piscatório, que cresceu em virtude da sua posição privilegiada mas mantém essa relação com o rio bem vincada, mesmo que grande parte da população tenha sempre vivido da agricultura. Casas sempre brancas, com as ocasionais ombreiras a azul ou amarelo, em ruas com calçada, raramente se destaca uma ou outra. Apesar de ter vários edifícios nobres, resultado do intenso comércio do sal de há dois séculos, como os que rodeiam a praça Pedro Nunes, a zona antiga é a do povo e é a ele que ainda pertence.

Prosseguindo caminho para a zona que faz frente ao Sado, entramos no casario tradicional da cidade

Doce rio

Perdidos nas nossas deambulações, chegámos finalmente à margem do Sado já cheios de fome. Ainda faltavam algumas horas para o almoço, por isso decidimos repor os níveis de açúcar com a tradicional pinhoada. A região é fértil em pinhão e inventou-se aqui um doce que lhe junta mel para criar uma espécie de nougat ou torrão. Mas há ainda rebuçados de ovo e pinhão, tarte de pinhão, cones de pinhão… Se enjoar o fruto (o que é menos provável do que pode parecer), há bolo de mel e, as nossas preferidas, queijadas do torrão. Para isso, fomos às esplanadas ao pé do Largo Luís de Camões, de onde depois seguimos pela beira rio.

Alvo Sado

A Av. João Soares Branco faz o caminho marginal até ao largo D. Pedro Nunes e à ponte pedonal que atravessa o Sado. Todo este passeio é extremamente agradável e leva-nos entre as gentes da terra, restaurantes típicos e outros estabelecimentos comerciais, mas passámos para a outra margem para apreciar o conjunto. Atravessámos a ponte em frente ao largo na direcção de Santana, virámo-nos para a cidade e vimos o cenário fantástico que Alcácer monta sobre a margem: é uma longa faixa de branco que se reflecte sobre o Sado e que até faz doer os olhos no pino do Verão.

Uma cidade ao Pôr do Sol

De regresso à margem direita, o dia começava a chegar ao fim e o Sol deitava-se ao longe. Aqui tínhamos duas hipóteses, qualquer uma delas igualmente válida: a visão do pôr do sol aqui de baixo, na marginal encostada ao Sado e na companhia das águas que parecem até parar para apreciar o espectáculo, ou lá de cima, do topo do Castelo onde iremos passar a noite. Ficámos pela zona baixa da cidade, pois tínhamos planos para jantar na zona, e pudemos assim apreciar as luzes que se começam a acender e a bailar nos reflexos do rio.

Apesar da presença do Sado, a gastronomia de Alcácer tem bastante mais do que peixe. A sopa de corvina, o achigã grelhado e a açorda são tirados do rio, mas a caça tinha aqui alguma tradição e ainda subsistem pratos que, mesmo que já não venham directamente dos caçadores do sopé da Serra de Grândola, ainda respeitam esse passado. A Escola é famosa pela sua empada de coelho bravo e pelo polvo com batata doce, mas precisamos de pegar no carro para o encontrar a meio do caminho para a Comporta. Mais próximo do centro, O Brazão tem o bife de javali mais famoso do país. Do outro lado do rio e perto da ponte que atravessámos ao pôr do sol, o Porto de Santana é local privilegiado para ver a cidade à noite e apreciar peixe. Arroz de lingueirão, açorda de tomate e a sopa de bacalhau foram os pratos que aqui já experimentámos e recomendamos.

De regresso à pousada, deixámos o carro na parte ribeirinha da cidade e fizemos os últimos 500 metros a pé, para desenjoar e sentir o ar fresco da noite que chega aqui com a humidade do rio. As cores dos candeeiros dão um tom diferente à luminosa cidade que nos recebeu pela manhã e uma estranha calma inunda as ruas. Chegados ao topo, viramo-nos para o rio e deliciamo-nos durante uns minutos antes que o frio nos obrigue a desistir. Alcácer parece agora um postal turístico, cheio de cores e reflexos, uma deliciosa imagem para levarmos connosco para o mundo dos sonhos.

E ainda…

Um fim de semana em Alcácer do Sal pode servir de justificação para uma série de passeios pela região de Setúbal e Península de Tróia. Santa Susana é uma pitoresca vila alentejana, perto da barragem do Pego do Altar. Mais a sul, Grândola é vila que tem que ser visitada pelo menos uma vez na vida. Na direção das praias, a Comporta tem o “melhor bar de praia do mundo” e Brejos da Carregueira é uma belíssima praia, com um ar ainda mais selvagem do que aquelas que a rodeiam. No regresso a casa, se vier com tempo, almoce a famosa Caldeirada de Setúbal.