Os trilhos subterrâneos da Serra de Aire

Como visitar as grutas do Parque Natural de Serra D´Aire e Candeeiros, o que fazer e visitar na zona de Mira De Aire durante um fim de semana de espeleologia

Muito antes da descoberta das Grutas de Mira De Aire, já se sabia que, sem respeitar a fronteira entre Leiria e Santarém, debaixo destes solos calcários se estendem quilómetros insondáveis de galerias, cavernas e passagens com fantásticas maravilhas para descobrir. O Parque Natural da Serra De Aire e Candeeiros é o paraíso da espeolologia em Portugal e uma oportunidade única para experimentarmos um fim de semana de exploração subterrânea.

Com a intenção de enfrentar o desafio de dois dias a passear pelo submundo, fomos até à Serra de Aire, local que, para além de uma beleza natural perfeitamente visível, guarda as maiores riquezas no seu interior. Aqui se escondem grutas e algares, com fantásticas e surpreendentes formas, esculpidas pela água e pelos séculos.

 

Exploradores de fim de semana
O nosso fim de semana de aventuras pela Serra de Aire foi sediado na Casa dos Matos, delicioso hotel rural em Alvados. Apesar de já termos as nossas actividades preparadas de antemão, foi bom saber que aqui também poderíamos ter contratado um guia para uma visita de quatro horas a uma gruta. Aliás, as experiências que a Serra nos oferece estão aqui bem representadas: passeios a pé, a cavalo ou de burro, parapente, trilhos de BTT, escalada ou passeios de balão. Tudo boas opções para complementar um grande fim de semana nesta zona.

Outra agradável solução e bem dentro do tema é ficar num dos 11 bungalows que fazem parte do complexo das grutas de Mira de Aire, muito próximos da entrada. A vila oferece boa gastronomia e podemos aproveitar para visitar a zona de prova das grutas para apreciarmos vinhos de todo o país que fazem o seu estágio no subsolo.

Batalha - Quilometrosquecontam

 

À procura da Fonte das Pérolas
Mas viemos aqui pelas grutas e aí as opções não nos faltam. Algumas estão orientadas para receber visitantes, como as Grutas de Santo António, Moeda, Mira d’Aire e Alvados, que dispõem de diversas infraestruturas de apoio, e outras são só para os conhecedores do assunto. Exemplos destas últimas são o Algar da Bajanca, usado como “gruta-escola”, ou o Algar do Cofelo, onde morcegos hibernam.

As mais famosas e melhor preparadas para receber o turista que quer apenas conhecer um pouco do que se esconde abaixo do chão, sem ter que andar de frontal e capacete na cabeça, são as de Mira de Aire. Fazem parte de um complexo de passagens com mais de 11km, mas o visitante só tem acesso a cerca de 600 metros. Apesar disso, a visita é impressionante e obrigatória, convencendo-nos da justiça de serem reconhecidas como uma das Sete Maravilhas de Portugal.

Através de centenas de metros de estrados e escadas de madeira, podemos vislumbrar e reconhecer a imponência da “Galeria Grande”, a “Fonte das Pérolas”, as “Galerias do Polvo”, ou do “Sifão das Areias”, numa sucessão de galerias que se estende até ao interior do Planalto de S. Mamede. A toda a nossa volta, é a água que marca e remarca a paisagem, construindo estalactites, estalagamites e, por vezes, magníficas colunas que vão do tecto até ao chão.

 

De volta à luz do Sol
No Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros temos ainda tempo para visitar as Salinas de Fonte da Bica em Rio Maior, as únicas não marítimas no nosso país, os Olhos de Água na nascente do Alviela, que abastece Lisboa, e a maior e mais importante jazida mundial de pegadas de dinossáurio saurópode do Jurássico. Algumas das cerca de 20 pistas têm mais de 100m de extensão, encontrando-se aqui das maiores e mais nítidas pegadas conhecidas.

Aqui perto, e se quisermos uma pausa da natureza, estamos muito próximos de dois edifícios que não perdem em imponência para Mira de Aire. Imaginemos no mapa um triângulo que tem um dos vértices nas grutas, e os outros dois em Alcobaça e Batalha, e percebemos que o cenário fica montado para o deslumbre da pedra. Ambos de influência gótica, parecem complementar em tudo o que encontramos debaixo da terra: a mesma solenidade, o mesmo silêncio marcante, aquela pujança que só encontramos em locais com estas dimensões.

Depois do cansaço deste fim de semana, a idade é conceito que passámos a relativizar. Com centenas ou milhões de anos, a pedra não sabe o que é isso do tempo e, século após século , continuará lá, para nos recordar o quanto somos pequenos.