A rota mítica da Estrada Nacional 2 no Verão

Menos utilizada que as autoestradas que rasgam o país, a EN2 segue uma rota mítica: 10 pontos da estrada que continuam a ser de paragem obrigatória.

As auto-estradas tiraram muito tráfego das estradas nacionais, o que as tornou num percurso simpático para se conhecer o país. Assim, para quem está de férias, sair da via rápida e optar antes pelas estradas, agora secundárias, é uma opção.  A Goodyear espreitou a Estrada Nacional 2, uma rota mítica. Tem origens noutras épocas, integra dezenas de pontos de interesse e todos podem ser considerados de “paragem obrigatória”.

São 738,5 quilómetros de comprimento, que atravessam onze rios, onze cidades e onze distritos (Vila Real, Viseu, Coimbra, Leiria, Castelo Branco, Santarém, Portalegre, Évora, Setúbal, Beja e Faro). Irá passar por quatro áreas protegidas e por quatro monumentos considerados património da humanidade pela UNESCO e ainda quatro serras. Naturalmente não é um percurso para se fazer em apenas um ou dois dias. Reserve uma semana ou duas. Por isso, pegue na família ou nos amigos e siga pela estrada fora, sem portagens.

O trânsito de outros tempos, incluindo o transporte de mercadorias em camiões, deixou de ser um problema. Assim, a EN2 pode agora ser considerada a “route 66” (EUA) ou a “ruta 40” (Argentina) de Portugal. É uma estrada histórica, longa, esquiva, perigosa, exigente, mas também viciante com tudo o que há para ver.

Partida: Chaves

Escolhemos como ponto de partida para a viagem Chaves para rumar até Faro. Naturalmente, poderá fazer a estrada no sentido contrário – Faro-Chaves – com um único “senão”: os marcos quilométricos irão começar no 738 em Faro e estarão do lado esquerdo da estrada e terá de seguir a numeração de trás para a frente.

De Chaves a Vila Real são 62 quilómetros para fazer com calma, mais que não seja, porque a estrada está repleta de curvas e contracurvas e pelos motivos que há para parar.

Ponte de Trajano

Em primeiro lugar, paramos na Ponte de Trajano, em Chaves. Construída pelos romanos atravessa o rio Tâmega e corta a cidade a meio. Na margem norte, fica o centro histórico, na margem sul, o marco “zero” fica ao lado do jardim público. O centro de histórico de Chaves parece ter sido a inspiração para os restantes centros de cidades em Portugal. Tem pelourinho, Igreja Matriz, um castelo com a sua torre de menagem e os Paços do Concelho. Acrescem as casas coloridas com as suas varandas de madeira.

O pastel de Chaves, em formato de meia lua, crocante e com Identificação Geográfica Protegida (IGP) é originário desta cidade. Irá encontrá-lo um pouco por todo o lado, sendo que, dizem, o melhor, será degustado na Pastelaria Maria. Outros dizem igualmente que é no Café-de-Chaves ou na pastelaria Mil Doces. O melhor é experimentar e, de preferência, feitos por um dos oito produtores certificados do salgado.

Poderá ficar na Quinta da Mata ou no Ester Guest House. Para comer a Adega Faustino ou o restaurante da Pensão Flávia são opções seguras.

Vidago Palace

Seguindo pela estrada fora perto do quilómetro 17, não deixe de dar um passeio nos jardins do Vidago Palace Hotel, em torno de um edifício de 1910, recuperado 100 anos depois por Siza Vieira. A fonte de água do Vidago, neste jardim, está aberta de Maio a Outubro.

Chega então ao Parque Termal das Pedras Salgadas (km 32), também renovado por Siza Vieira, em 2009. O arquitecto deu nova vida às termas, populares entre os portugueses desde o século XIX. No parque pode dormir em cima de uma árvore no premiado complexo turístico Pedras Salgadas Spa e Natura Park. Aproveite para provar, diretamente da fonte, esta água termal.

De Vila Real a Peso da Régua

Descemos a estrada e chegamos a Vila Real, a capital do distrito de Trás-os-Montes e Alto-Douro. É também a terra Natal de Diogo Cão, que descobriu a Foz do Rio Zaire. A casa onde nasceu é um testemunho vivo do que eram as casas típicas do século XV e, inesperadamente, resistiu ao passar do tempo. A saída da cidade é assinalada pelo marco quilométrico 69 onde as pessoas param para tirar fotografias.

Uma das iguarias em destaque nesta cidade são as cristas de galo – amêndoas, ovos e açúcar – que deve provar na pastelaria Casa Lapão. Outras especialidades de doçaria conventual da região são toucinho do céu, pitos de Santa Luzia ou os Antoninhos. A Casa de Mateus, da autoria de Nicolau Nasoni, arquiteto que também fez a Torre dos Clérigos, no Porto fica aqui. Além do belíssimo edifício principal, este centro cultural inclui jardins, uma capela ou uma adega que podem ser visitados sob marcação.

Poderá ficar na Casa Agrícola da Levada, uma quinta ecológica de habitação. Para comer, poderá optar decerto pelo Cais da Vila, um restaurante e wine bar especializado em tapas e bifes num antigo armazém ferroviário.

Santa Marta de Penaguião

Chegados à zona do Douro, no centro de Santa Marta de Penaguião encontra-se o marco comemorativo especial de criação da Associação de Municípios da Rota da Estrada Nacional 2 que integra mais de três dezenas municípios ao longo do caminho. Continuam pela estrada fora, pode pernoitar na Quinta Nova, com 120 hectares, 80 dos quais com vinha, tem vários trilhos à disposição, provas de vinho e visitas à adega. Há também uma piscina com vista sobre o rio.

Estrada Nacional 2

Lamego

A estrada continua pela serra de Montemuro até Peso da Régua e deparamo-nos então com Lamego. Aqui poderá visitar o centro histórico, incluindo o castelo, o santuário de Nossa Senhora dos Remédios, mas o caminho é mesmo cativante entre Lamego e Castro D’Aire. A paisagem agreste contrasta com a beleza humanizada do Douro que acabou de ficar para trás. Não deixe de ir tomando nota de nomes de terras que primam originalidade. Se pretender, por perto, mas, deixando a Nacional para trás, poderá aproveitar algumas das praias fluviais da região.

Viseu

De Viseu à Sertã, a Estrada Nacional 2 foi uma das grandes vítimas dos incêndios de 2017. Não obstante, é uma zona que pode e deve ser visitada para ver a capacidade de recuperação da Natureza e da resiliência dos povos.

Faça uma pausa num dos museus mais antigos de Portugal, o Museu Grão Vasco, no centro histórico da cidade, que tem um espólio muito variado de dedicado a arte sacra e outros temas. Em frente fica a Sé Catedral. A casa do Miradouro é outro ponto de interesse e, naturalmente não pode deixar de fazer um passeio pelo centro histórico.

Para a sua refeição sugerimos O Maçaroco, um exemplo de restaurante de estrada, onde se irá cruzar com os naturais da região. Os pratos são bem servidos e o preço é em conta. Perto do Dão, entre Viseu e Santa Comba Dão encontra a ecopista do Dão, a mais longa do país que segue o percurso do antigo caminho-de-ferro.

Barragem da Aguieira

Aguieira

Prossiga. Mas, vai ter de sair da EN2, porque não terá outra hipótese. Depois de Santa Comba Dão, a estrada transforma-se num Itinerário Principal para passar a ponte sobre o rio Dão. Só voltará a apanhar a nacional mais tarde, em Almaça, depois de alguns desvios alternando entre IP e outras estradas, cerca de 15 minutos depois. A EN2 desapareceu com a subida do leito do rio provocada pela construção da Barragem da Aguieira.

Depois de Penacova, abandonamos as margens do Mondego e encontramos a praia fluvial dos Penedos, ou a praia fluvial de Canaveias. Após Góis, irá chegar à Serra da Lousã onde poderá visitar algumas das Aldeias de Xisto. Terá naturalmente de se desviar do percurso da estrada, mas vale sempre a pena.

Cabril

Chega em seguida a Pedrógão Grande, onde poderá visitar a Barragem do Cabril, a Praia Fluvial do Mosteiro, Pedrógão Pequeno, o edifício histórico “o Casulo do Malhoa”, onde viveu José Malhoa, o autor de “O Fado” e ainda a praia fluvial “As Fragas de São Simão”.

Poderá ficar no Hotel da Montanha, em Pedrógão Grande, e tomar a sua refeição na Taberna do Ferrador. Só o facto de estar a fazer turismo nesta região é uma forma de ajudar esta zona do país tão fustigada pelo drama dos incêndios em 2017.

Sertã

Prossiga para a Sertã. O início da quarta etapa desta viagem, junto ao Centro Geodésico do país e perto do Zêzere, passando pelo quilómetro 369, após Vila de Rei. Tem um castelo, uma igreja matriz, uma praça com um coreto, uma ponte filipina e uma ribeira.

Mantém traços do edifício original e está entre os 25 melhores hotéis de pequena dimensão da Europa, segundo o TripAdvisor. Poderá usar este hotel como base para partir à descoberta da região.

Para comer sugere-se o restaurante Santo Amaro. Aqui encontra o Bucho, os Maranhos, as especialidades da região, e ainda a mítica sopa de peixe da Dona Helena.

Picoto da Milriça

Aqui fica também o Centro Geodésico do País, assinalado no Picoto da Milriça, 592 metros acima do nível do mar. Assim, pode visitar o Museu da Geodesia, onde estão expostos instrumentos de medição e se conta as histórias de quem fez as triangulações que nos levaram ao centro do país.

Pare para comer no Paragem do Motorista, típico restaurante de beira de estrada, tradicionalmente frequentado por motoristas de camiões. Este é, aliás, um dos sinais de que o restaurante é bom, quando se desloca nas “nacionais”: camiões à porta.

Siga para sul e estique as pernas no Ciborro, que fica perto do marco do quilómetro 500 da estrada. Além disso, é o único estabelecimento ao longo da sua rota que faz referência ao estatuto da Estrada Nacional 2 para se promover, como refere a mais recente edição da revista Time Out. Aqui poderá comprar autocolantes, postais, t-shirts e pins, com a frase “Historic Route”. Recorde-se que durante as viagens tem de fazer paragens regulares para evitar o cansaço. Na região poderá visitar a praia fluvial de Ferandaires e mais aldeias de xisto.

Estrada Nacional 2

Montemor-o-Novo

Finalmente, chegamos à reta final entre Montemor-o-Novo e Faro. As retas aqui predominam, mas ainda irá encontrar curvas e contracurvas na Serra do Caldeirão. Impõe-se uma visita demorada por Montemor-o-Novo. Os pontos de interesse da cidade incluem monumentos megalíticos como os Menires da Pedra Longa ou a Anta-Capela de Nossa Senhora do Livramento. Tome um reforço de café quando sair da localidade, pois seguem-se retas que parecem intermináveis.

Poderá ficar no hotel L’And Vineyards, um empreendimento vocacionado para a descoberta do mundo vinícola.

São Brás de Alportel

O troço entre São Brás de Alportel e Almodôvar foi recuperado em 2003 e classificado como Estrada Património. Aqui a estrada, os marcos quilométricos – incluindo o km 666 – , as paragens de autocarro entre outros elementos mantêm-se como há 60 anos. São assim 60 quilómetros com casas de cantoneiros bem preservadas e placas de cimento com letras pretas sobre fundo branco.

As maiores retas da nacional estão aqui: 12 quilómetros entre Monte dos Poços e Castro Verde; 8 quilómetros entre Ferreira do Alentejo e Ervidel e 5,5 quilómetros de Casa Branca a Alcáçovas. Na serra do Caldeirão irá, pelo contrário, enfrentar 366 curvas. Na Lojinha da Serra, em Barranco do Velho, compre uma garrafa de Medronho, feita com fruta colhida na Serra do Caldeirão. Nesta região, poderá visitar as Grutas da Escoural e o Museu do Chocalho e o Museu da Escrita do Sudoeste, em Almodôvar.

Poderá tomar a sua refeição no Manuel Azinheira com a sua sopa de cação e bochechas de porco preto – ou qualquer coisa do menu.

Faro, o Algarve escondido à vista de todos

Faro

Atenção que entre Aljustrel e Castro Verde o alcatrão está bastante danificado. O conselho é então circular devagar. Caso tenha problemas, a Goodyear ensina-lhe aqui a mudar um pneu.

Finalmente seguimos para o destino final. Faro.  Quilómetro 738. O marco foi transplantado há dois anos para um local mais visível. Ainda assim é difícil encontrá-lo. E assim chegamos ao fim da maior estrada do país. Foi igualmente neste ano criada a Associação de Municípios da Rota da EN2 com o objetivo de promover o turísmo.

Claro que, se preferir, esta pode ser a sua casa de partida. Então terá de ler este artigo sobre a Estrada Nacional 2 de baixo para cima.