Os caçadores de Salvaterra de Magos

A tradição da falcoaria ainda está forte no Ribatejo. Traga os seus filhos a conhecer aves de rapina na Falcoaria Real de Salvaterra de Magos

A falcoaria já foi uma parte inseparável da nossa História, desporto de reis e arte ancestral que une Homem e animal de forma única. Na Falcoaria Real, em Salvaterra de Magos, ainda se vive essa tradição e abrem-se as portas para que grandes e pequenos conheçam estas magníficas aves de rapina. O respeito pela natureza e a memória do passado justificaram a candidatura da Falcoaria Portuguesa em 2015 a Património Imaterial da Humanidade da UNESCO e motivaram agora a nossa visita à vila ribatejana.

Os nossos leitores já sabem bem o quanto aqui na Goodyear gostamos de mostrar a vida selvagem às nossas crianças. É sempre um ótimo motivo para metermos a família no carro e partir para a aventura de vivermos umas horas bem passadas no campo. Desta vez temos uma proposta um pouco diferente já que os falcões que vamos visitar fazem parte de uma História centenária de relação com o Homem, de um conjunto de tradições que muito nos contam sobre os nossos antepassados. Mas não faça confusão: estes não são animais domésticos, são exemplares de caçadores altamente evoluídos, bem preparados e de um porte que bem recorda a sua “real linhagem”.

Falcon
A origem da Falcoaria Real de Salvaterra de Magos remonta a um conjunto de falcoeiros holandeses vindos de Valkenswaard que, no século XVIII, se sediaram nesta povoação ribatejana. Caso único na Península, a traça pombalina do edifício foi também buscar inspiração às falcoarias da Flandres, sendo que hoje em dia em nada destoa no conjunto arquitetónico desta simpática vila. Os responsáveis originais escolheram aves com características diversas, para poderem caçar diferentes espécies, e é o resultado dessas opções, mais de 200 anos depois, que podemos hoje visitar na Falcoaria Real.

Os primeiros “utilizadores” do espaço foram, claro está, os membros da família real portuguesa que, com as invasões francesas e a posterior fuga para o Brasil, deixaram progressivamente de se interessar por esta atividade. Os anos que se seguiram foram de progressivo abandono e decadência até que, em 2009, foram efetuadas obras de recuperação e criados uma série de novos espaços para receber um público muito diferente: auditório, salas de exposição de aves e objetos históricos, pombal, restaurante e casa de chá.

Da tradição à modernidade

Apesar da tradição e da história, a visita à Falcoaria Real mostra-nos um espaço que abriu também os braços à modernidade. A primeira sala de exposição começa com a projeção de um documentário, a que se segue a apresentação das várias aves de rapina aqui presentes pelas palavras de um dos falcoeiros “residentes”. Muito afável e aberto a relatar pormenores diversos, o nosso cicerone conta-nos que o pombal tem mais de 300 nichos onde se abrigam os pombos que irão ser utilizados nos treinos de caça. Diz-nos ainda que já não há muitos praticantes e que, por isso mesmo, um espaço aberto ao público como este é determinante para manter a recordação viva.

Prosseguindo a visita, cruzamo-nos com galerias de fotografias, quadros e objetos que nos contam como  a Cetraria (outro nome para esta atividade) tem raízes no Neolítico e acompanhou os humanos até muito recentemente. Não é uma atividade para crianças de tenra idade, mas se um dos pais ficar interessado, fique a saber que aqui também se efetuam cursos com alguma regularidade, da iniciativa da Associação Portuguesa de Falcoaria. Um alerta: é uma tarefa dura e que o levará a anos de estudo e prática, mas que os praticantes dizem ser altamente recompensadora.

De asas abertas

O momento chave da nossa visita foi a demonstração do treino de falcoaria que, afinal, o principal motivo da nossa visita. A demonstração de voo em liberdade é o momento em que tudo se revela. Aprendemos sobre o que é isso do “alto” e do “baixo” voo e as diferentes espécies utilizadas,  dos falcões, aos açores e às águias. Assistir aos voos rasantes destes animais é um espetáculo que, além de já raro, ajuda a explicar o fascínio de quem fez dos falcões a sua vida. O momento é inesquecível e, se realmente parecem animais ameaçadores também ao vivo, aqueles olhos negros e as penas que reluzem ao brilho do sol da tarde relembram-nos que este é um animal também frágil.
Confessamos que não somos praticantes de caça, preferimos apontar lentes quando saímos para um passeio em família, mas esta experiência na Falcoaria Real de Salvaterra de Magos deixou-nos um sabor completamente diferente. Um falcoeiro só caça aquilo que o seu par decidir: estes falcões voltam sempre ao seu dono, mas nunca se poderá dizer que são animais domesticados. Em nenhum jardim zoológico ou parque encontramos uma relação homem-natureza deste tipo e é mesmo esse o tipo de experiências que gostamos de dar a conhecer aos nossos filhos.

Horário de Funcionamento

3ª a 6ª – 9h às 12h30m

14h às 17h30m

Finais de semana e feriados:

Das 14h às 18h (visitas guiadas de hora a hora)