Quando Fernando Pessoa tentou enganar-nos em Cascais

Cascais, Estoril e a Boca do Inferno foram a companhia de Fernando Pessoa nos seus últimos anos de vida. A Goodyear conta-lhe por onde andou o poeta.

A poesia é também uma forma de magia, como se fosse um encantamento em que as palavras são escolhidas para nos despertar emoções místicas e instintivas. Quando Fernando Pessoa e Aleister Crowley se “encontraram” em Cascais foi isso mesmo que se criou: uma metáfora que só poderia mesmo acontecer no vertiginoso cenário da Boca do Inferno. Mas não foi só por aí que andou o poeta e a Goodyear convida-o visitar alguns dos pontos essenciais para um roteiro de Pessoa em Cascais.

Se é famoso o amor de Pessoa por Lisboa, menos conhecida é a relação forte que o poeta estabeleceu com a Linha do Estoril, Cascais e, para lá da vila, a costa que se estende até ao Guincho. A 9 de Outubro de 1929 escrevia em carta à sua amada Ofélia: «Preciso cada vez mais de ir para Cascais…», como se a terra pudesse ser panaceia para uma qualquer maleita que trouxesse na alma.

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Fernando Pessoa no Estoril

O seu descanso habitual aos fins de semana incluía uma visita à sua irmã em São João do Estoril, na Rua de Santa Rita nº5, ao pé do Vale com o mesmo nome. É ainda hoje uma zona tranquila e, apesar de próxima da marginal e da linha do comboio, tem um ritmo muito próprio e agradavelmente dolente.

Não sabemos ao certo que pedaços da sua obra poética terá escrito nestas visitas, mas ocupou muito do seu tempo em deambulações pela linha de costa, na presença de algumas das grandes vagas que assaltam estas praias por altura do Inverno. Mesmo quando não é explicita, a presença da espuma das ondas que vão daqui até ao Guincho, é por demais clara numa série de poemas com o mar como referencial.

Do Vale de Santa Rita até à Praia da Poça não são mais do que cinco minutos a pé, pelo túnel que passa debaixo da linha do comboio, um percurso semelhante aquele que Pessoa terá feito muitas vezes. Ao longo dos anos, esta pequena praia foi tão fustigada pelas intempéries que poucos vestígios guarda dessa altura, mas sabemos que o escritor fez aqui uma extensa reportagem sobre a colónia infantil Mcfadden, situada no mesmo local, e uma narrativa ficcional sobre uma “Casa de Saúde de Cascais”.

À procura do sossego e isolamento em Cascais

A relação com região só iria aprofundar-se nos anos seguintes e é em Cascais que continuará a procurar sossego e isolamento, agora com morada provisória na Rua Oriental do Passeio, nº2. Candidata-se em 1932 ao lugar de Conservador do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães, mas perde a posição para Carlos Bonvalot, brilhante pintor que morreria apenas dois anos depois.

O Museu ainda está de pé e é um dos pontos nevrálgicos da cultura cascaense, na agradável companhia do Parque Marechal Carmona e da Praia de Santa Marta, dois locais que o poeta inevitavelmente visitou também. A publicação de Mensagem, em 1934, está inevitavelmente ligada a estes últimos anos da sua vida, passados nesta forte presença do mar.

“O Mistério da Boca do Inferno”

Uma história de dois magos

Se a obra poética de Pessoa não precisa de apresentação, a sua faceta mística e esotérica é menos conhecida, apesar de explícita numa série de cartas que lhe conhecemos. Durante os anos 20, a astrologia, os médiums e os rituais cabalísticos eram hábito de alguns intelectuais e conta-se que Fernando Pessoa era astrólogo perfeitamente capaz e competente. Na mesma altura, o nome de Aleister Crowley crescia também nesses círculos e seria considerado, mais tarde, um dos nomes mais importantes do esoterismo do séc XX.

Atento ao que se passava nessa área, Fernando Pessoa terá enviado uma carta à editora de Crowley a alertar para erros na carta astral do místico. Gerou-se uma troca de correspondência entre os dois e o “Mago Negro” veio até Portugal para conhecer o poeta e descansar na Costa do Sol, no Hotel Miramar. A partir daqui pouco se sabe do que realmente se terá passado, apenas que os dois se terão encontrado algumas vezes durante essas semanas.

“O Mistério da Boca do Inferno”

Certo é que, a 5 de Outubro de 1930, o Diário de Notícias publicava na sua revista de domingo “O Mistério da Boca do Inferno”, da autoria de Augusto Ferreira Gomes. No artigo, o jornalista contava como, a 25 de Setembro, tinha encontrado uma cigarreira e uma carta de suicídio na gruta de Mata-Cães, uma das reentrâncias da Boca do Inferno. Providencialmente, quando Ferreira Gomes está a prestar declarações à polícia sobre a proveniência desse achado, surge Fernando Pessoa que reconhece as iniciais e a assinatura como pertencentes a Crowley e jura que o viu por várias vezes em Lisboa no dia 24 de Setembro. A história do Diário de Notícias aponta para um final macabro nas ondas da Boca do Inferno, mas a polícia afirma que tem testemunhas que o mago passou a fronteira no dia 23. Algo estava errado com o testemunho de Pessoa…

O poeta insiste na veracidade da carta com o argumento que um mago da estirpe da Crowley nunca mentiria no uso dos símbolos místicos encontrados nessa missiva. As lendas populares e a tradição esotérica encarregam-se de compor o resto da narrativa: diz-se que uma das três grutas que partem da Boca do Inferno vão até ao coração da Serra de Sintra, percurso que Crowley poderia ter feito para desaparecer. Sem surpresa, tal como a polícia já adivinhava, o Mago Negro foi descoberto, bem vivo, na Alemanha pouco tempo depois.

Tudo tinha sido afinal uma encenação na qual Fernando Pessoa era parte activa e interessada. Crowley tinha dívidas e outros motivos para desaparecer, mas fez de toda história do seu desaparecimento um verdadeiro ritual místico, cheio de referências esotéricas que ainda hoje os iniciados estudam. O objectivo final era a escrita de um romance policial cujos direitos reverteriam para os dois, uma intenção que acabou por nunca ser concretizada e ficou-se pelas poucas dezenas de páginas.

E ainda…

Se vier até à Boca do Inferno para beber as palavras do autor de “Mensagem”, recomendamos que vá até Cascais através da Marginal, o clássico trajecto que é por vezes comparado à Riviera Francesa. Para lá da Boca do Inferno, se quiser ir até Colares vai encontrar uma das mais bonitas estradas portuguesas. E sabia Fernando Pessoa é “apenas” um dos muitos autores que escolheram Cascais para viver?