Mértola, a vila moura da fronteira com o Alentejo

Um fim de semana em Mértola é um reencontro com a tradição moura, a gastronomia alentejana e uma paisagem que a Goodyear nunca se cansa de recomendar.

Entalada entre Espanha e os rios, Mértola é um dos “último redutos” mouros no nosso território, local ainda sobram os símbolos de um passado que nos aproximou do Norte de África e nos deixou uma herança cultural tão rica. Erigida sobre um monte, a reluzir com o seu alvo casario ao sol, é um ponto privilegiado para espreitar um Alentejo menos plano do que aquele que se prolonga até ao mar, e local de paz para uma agradável escapadela no interior do país.

O nosso fim de semana em Mértola, gozado em Setembro do ano passado, começou o seu trajecto a sul, na costa algarvia, onde arrancámos de Castro Marim na companhia do Guadiana até Alcoutim, numa estrada que é uma das nossas preferidas para a condução paisagística. Pode chegar a Mértola também via Beja, mas a nossa recomendação será sempre a viagem pelo sul.

À conquista de Serra de Mértola

Deixamos a estrada que segue ao lado do rio em Alcoutim e seguimos pela IC27 até ao nosso destino. Entramos agora no Parque Natural do Vale do Guadiana e a paisagem muda claramente de figura. A serra é a tónica dominante da região: dá-lhe um identidade paisagística muito forte e oferece-lhe uma riqueza de fauna que inclui javalis, raposas e perdizes. Contudo, torna estes solos muito duros e difíceis de trabalhar, conduzindo a população para o gado e para o mel, as atividades tradicionais da zona. É no meio deste ambiente que vamos encontrar a vila de Mértola, uma das mais curiosas pistas que, em outros tempos, esta era uma das zonas mais movimentadas da Península.

Nos vales escavados pelo Chança e pelo Guadiana, os rios eram a forma tradicional destas povoações comunicarem com o mundo. Antes dos árabes eram os romanos, antes deles os fenícios e os cartagineses, gente que aproveitava o rio para comprar e vender. O processo da reconquista foi moroso e haveria de durar toda a idade média, período durante o qual Ibéria e Magreb se miscigenaram e deixaram sinais que ainda podemos encontrar. Vamos em busca dessas pistas…

Mértola: Minas de São Domingos\

Mancha branca na paisagem

Logo à chegada, a receber-nos mal passamos a ponte sobre o Chança, o Castelo de Mértola engana-nos com seu ar grave e sério. É quando passamos para a zona da vila que ladeia o Guadiana que percebemos o efeito de leveza e a frescura que estas casas tão brancas produzem na paisagem. Retiremos o azul e vem à memória Sidi Bou Said, a famosa localidade tunisina.

Muito convenientemente, o nosso fim de semana em Mértola foi passado na Casa da Tia Amália, uma Guest House situada do outro lado do rio, o que nos deu uma vista muito agradável e curiosa sobre a povoação. É um espaço muito agradável e familiar, com uma decoração com os obrigatórios traços mouriscos que viemos à procura. A repetir, sem sombra de dúvida.

A aproveitar o mesmo enquadramento, a esplanada do “Casa Amarela” serviu-nos umas agradáveis “tapas”, com os queijos e enchidos da zona. Quando o apetite pediu algo mais substancial fomos até ao “Alengarve” experimentar a recomendação da sopa de peixe de rio e ensopado de borrego que tanto nos tinham falado. Aprovado.

Do castelo ao Guadiana

Depois de descansar e reunir energia para conquistar o monte, partimos à descoberta da vila. Estacionámos perto da muralha e prosseguimos a pé, porque a terra é pequena e estas ruas estreitas, a galgar a encosta, não convidam a grandes passeios de carro. Desenhadas por quem sabe o que é o calor destas paragens, são também ruelas cheias de sombra e recantos onde podemos descansar.

A Igreja Matriz é um dos mais curiosos e significativos edifícios da povoação e ergue-se aqui desde o séc. XII. Era originalmente uma mesquita e foi transformada em templo cristão durante a reconquista, sendo assim que sobrevive até hoje o único exemplar de arquitetura religiosa islâmica que resta no país. Repare nas portas, tipicamente magrebinas, que convivem com pináculos góticos e um portal renascentista, e vai entender os sinais desta mistura que dura há mais de 900 anos.

Deixe-se perder (se é que isso é possível) e visite também os núcleos de tecelagem e metalúrgica, a Forja do Guerreiro ou a Torre do Relógio. Abra bem os olhos porque, aqui e ali, vai ver o que ficou de herança dos povos que aqui viveram e até do seu passado mais recente.

Praias e cascatas

Em Mértola ainda se sente a influência das Minas de São Domingos e o impacto que a região sofreu depois do seu abandono. Agarrámos no carro e dirigimo-nos à antiga povoação que albergava os mineiros, onde existe hoje um núcleo museológico e um moderno hotel. Muito perto daqui, a praia da Tapada Grande é um agradável recanto que é um verdadeiro oásis no pino do verão alentejano.

Na zona norte do parque, a visita é obrigatória à cascata do Pulo do Lobo, um troço em que o rio se estrangula numa passagem de não mais de 3 metros. O caminho até lá foi fácil, via Amendoeira da Serra, mas aproveitámos para fazer um pequeno percurso a pé, pela margem, com muita atenção às escarpas rochosas, para apreciar a forma como o rio se estreita e corre furioso nesta zona. Até Mértola, o Guadiana parece sempre uma cicatriz na paisagem, a correr no meio de um vale rochoso e rude.

A visita à raia é sempre um reencontro com um tipo de Portugal que raras vezes sentimos em Lisboa ou no Porto: aquele que é feito de muitas tradições diferentes, que alternadamente invadiram e deixaram-se invadir pelos seus vizinhos, seja Espanha e a tradição Andaluza ou o Magreb e os sábios mouros. E, nesse campo, Mértola tem uma tradição cosmopolita maior do que muitas grandes cidades.