Páscoa em Portugal: como é que o país quebra o jejum?

Os pratos tradicionais da Páscoa em Portugal variam de região para região mas não disfarçam uma coisa: os portugueses adoram sentar-se à mesa!

Não há Páscoa em Portugal sem uma mesa farta. Depois das agruras do inverno, é altura de abrir as portas da despensa e convidar todo a família para provar enchidos e licores, assar o borrego e deixar para trás o jejum e abstinência da Quaresma. Apesar de a mesa pascal não ter a riqueza da do natal, não é por isso que os portugueses deixam de fazer a festa do Minho ao Algarve. E, se a consoada tem um peixe que é presença prometida em todas as casas, a Páscoa faz o caminho inverso e tem a carne sempre como prato principal. Do borrego à bola, sem esquecer a doçaria da época, a Goodyear leva-o num roteiro pelas tradições gastronómicas da Páscoa em Portugal.

Sempre a carne

Em Soutocico, Sesimbra ou Figueira da Foz a despedida da Quaresma faz-se com o ritual do “Enterro do Bacalhau” no Sábado de Aleluia: o povo está farto de tantas provações e o rei do Natal é deposto para dar lugar a um substituto que, mesmo com variações regionais, é sempre carne. O cabrito e o borrego, o primeiro a norte e o segundo a sul, são as principais presenças, mas não é inusitada a visita da galinha ou do lombo de boi (Porto). No Minho assa-se cabrito, enquanto o Alentejo faz ensopado, o sarapatel e até a mioleira do borrego. Os enchidos mergulham nas bolas transmontanas e minhotas e não há qualquer peixe à vista.

Páscoa em Portugal: como é que o país quebra o jejum?

Doçaria Pascal

Depois da abstinência quaresmal, o povo habituou-se a receber a primavera também com doçaria à altura. O “folar” era a prenda que os padrinhos davam aos afilhados ou os fiéis entregavam ao padre durante a visita pascal, mas acabou por se transformar na designação generalista para os bolos que as diversas regiões colocam na mesa por esta altura. A norte é sinónimo das já referidas bolas, enquanto a sul tornou-se doce e apresenta-se em formas diversas.

Os ovos e as amêndoas, nas suas muitas variantes, sempre foram presença habitual e estão também ligadas ao ritual da renovação, surgindo nos folares ou dando origem a animadas caçadas ao tesouro por crianças. Em Torre de Moncorvo ainda se enrolam amêndoas torradas em calda de açúcar, num processo que dura uma semana, e Alcobaça tem produtores artesanais que usam recheios de fruta.

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Valença: Aqui comem-se fritos de ovos com açúcar, canela e pão ralado a que se dão o nome de Borrachos.

Braga: Senhora de forte tradição e fervor religioso quando chega a Páscoa, Braga tem doçaria conventual, na forma dos fidalguinhos e pederneiras, mas o almoço do Domingo de Páscoa tem que ser feito à roda do cabrito assado.

Bragança: Trás-os-Montes tem o folar de carne, também chamado de bola, que junta diversas carnes, do coelho aos enchidos, dentro de um bolo. Apresenta variações locais, conforme a receita usada para a sua massa e a seleção de recheio.

Felgueiras: O pão-de-ló de Margaride é presença obrigatória nas mesas de Felgueiras, funcionando como contraponto ao excelente vinho verde da região.

Vila do Conde: Também chamado de “Pão Doce”, “Rosca” ou “Broinhas”, o folar de Vila de Conde nasceu nos vários mosteiros da região e é ainda hoje produzido em Labruge, Mindelo, Modivas, Vila Chã ou Vilar.

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Covilhã: Para além do folar, que aqui pode levar canela e erva-doce, na Covilhã produzem-se uns doces parecidos com as azevias, a que os locais dão o nome de “empanadilhas” e recheiam com nozes e amêndoas.

Coimbra: No distrito de Coimbra há várias localidades que ainda terminam a Quaresma com o “Enterro do Bacalhau” e a carne é mesmo parte importante dos pratos desta época. Aqui, em vez do cabrito e do borrego que são servidos um pouco por todo o país, recebe-se também a visita da chanfana e do leitão assado.

Castelo de Vide: O Alentejo dedica-se com esmero ao borrego, apresentando-o num ensopado e aproveitando os miúdos para o sarapatel. Em Castelo de Vide ainda se conserva a tradição de comprar o borrego diretamente aos pastores no Sábado de Aleluia, depois de benzidos pelo padre local.

Elvas: Bem a propósito de um momento que celebra também a primavera, os folares de Elvas são feitos em forma de animais e as queijadas e bolos fintos tradicionais da região são acompanhados à mesa por bolos em forma de lagartos, pintainhos e ferraduras.

Olhão: Com canela, açúcar amarelo, limão e manteiga, o “folar de folhas” de Olhão é humedecido com uma espécie de calda caramelizada que o torna delicioso.