Judiarias Portuguesas: o rasto judaico em Portugal

Durante a Idade Média as comunidades judias moraram em Portugal em paz instável com os cristãos. Aquela convivência deixou pegadas por todo o país que podemos descobrir hoje em dia em uma rota com encanto pelo passado judeu de Portugal

A pegada histórica do judaísmo em Portugal é uma realidade que começa a ser conhecida e que já faz parte, progressivamente, dos circuitos turísticos organizados no país. Esta minoria religiosa que já residia no território do que veio a ser Portugal em tempo do Império Romano, deixou um rasto que às vezes não conseguimos distinguir correctamente, outorgando-lhe a importância merecida. Já o governo de Afonso Henriques integrou judeus, que sempre tiveram postos de importância notável no poder político nacional até a expulsão decretada aquando o reinado de D. Manuel por influência dos Reis Católicos da Espanha.

Nem aquele acontecimento histórico conseguiu apagá-los do nosso país. A presença judaica espalha-se por toda a parte sob as formas mais variadas: velhos bairros ou judiarias, símbolos nas casas, sinagogas com culto ainda na actualidade… Fazem todas elas partes de uma cultura rica, viva e que vale a pena ser conhecida. É por isso que preparamos uma pequena recompilação de locais onde ir conhecer esta passagem hebraica portuguesa.

    Norte: Judiaria de Lamego

    Numa cidade que guarda a lembrança de um dos episódios mais importantes da história de Portugal, a aclamação de D. Afonso Henriques como rei, encontramos uma presença maciça e contemporânea  de profissionais judeus que explica a importância como centro artesanal da povoação na altura. Lamego acolheu duas judiarias simultâneas, das quais hoje resta apenas o nome e, para o espectador atento, mais alguma coisa.

    A Judiaria Nova estendia-se antigamente entre a Rua Nova, a Travessa da Fonte Velha, a Rua da Seara e a Rua da Cruz, bem como uma parte da Rua do Almacave. Ainda é possível distinguir hoje na Rua Nova um velho portal ogival, tradicional nas construções hebraicas, feito em granito e modificado posteriormente com inscrição cristã. Há quem pense que é neste local que esteve sediada a antiga sinagoga.

    Sinagoga do Porto

    Este edifício religioso, sede do culto judeu actual no Porto, tem uma história recente mais marca de forma clara a presença judia em Portugal. Nascida graças ao esforço do capitão militar converso Barros Basto em 1938, é hoje a maior sinagoga da Península Ibérica e está entre as maiores da Europa. Para lá da função religiosa, recebe os visitantes de portas abertas para dar a conhecer fragmentos da história do seu credo, especialmente das perseguições sofridas em Portugal.

    O visitante que chega à Sinagoga do Porto pode contemplar um interessante edifício Art Deco que opera como um centro de difusão da cultura judia. Um interior austero que guarda a arca sagrada põe-nos em contacto com as tradições tão próximas e à vez tão estranhas de um culto que teve uma importância enorme e hoje desconhecida em Portugal. É esta comunidade de perto de 50 famílias que mantém viva esta chama religiosa, mas também etnográfica e cultural.

    Torah

    Belmonte, a ligação com a história

    A comunidade hebraica de Belmonte pode ser considerada um autêntico fóssil-vivente do ponto de vista histórico em Portugal: quando todas as outras comunidades históricas desapareceram, esta conseguiu continuar a existir e constitui-se como herdeira directa da velha presença sefardita. Sobreviveu à Inquisição mantendo em segredo os seus ritos, orações e formas de relacionamento, rodeados por uma sociedade católica.

    Desde 1989 que funcionam com reconhecimento oficial. Em 1996 foi inaugurada a Beit Eliahu, a sinagoga “Filho de Elias” na antiga judiaria. Conta com um cemitério judaico e o mais interessante do ponto de vista turístico: um completo Museu Judaico, único no seu género dentro das nossas fronteiras. O intuito deste museu é retratar a história do povo judeu em Portugal, lembrando as peripécias à volta da sua integração social e o contributo impagável que deixaram para a nossa cultura, a nossa literatura, arte e comércio.

    A Sinagoga de Tomar

    Uma das mais importantes mostras de culto religioso judeu que ainda resta em Portugal encontra-se em Tomar: a sinagoga. Curiosamente, mesmo que a sua vida como tal em começos da Idade Moderna foi efémera, a sua sorte foi bem melhor do que a doutros templos do país.

    Construída no século XV perante a importância demográfica da população judia, que chegou a atingir uma percentagem de 30-40% do total, foi erguido este edifício que depressa, com a conversão forçada de judeus ao cristianismo que D. Manuel I decreta. O culto nesta judiaria foi abolido e durante os séculos que se seguiram foi utilizada para usos diversos (como prisão durante o S .XVI), até que na década de 20 consegue ser declarado Monumento Nacional e, adquirido pelo Dr. Samuel Schwarz, um médico polaco e judeu que concentrou os seus esforços na investigação da sua cultura ancestral, suportou a limpeza e desaterro e doou o edifício em 1939 ao Estado.

    É graças a esta concorrência de fortuna e boas intenções que hoje podemos desfrutar do único templo judaico proto-renascença que existe em Portugal. Um espaço de planta quadrada dividido em três naves, tectos em abóbada de tijolo e colunas com capitéis vegetalistas. O olhar atento conseguirá captar as mísulas que se embebem nas paredes: doze no total, como doze eram as tribos de Israel. As quatro colunas representam as quatro matriarcas do povo judeu: sendo duas delas irmãs, essas duas colunas têm capitéis idênticos, mas distintas dos das outras duas. Ainda que a entrada do templo estava situada virada para nascente, em arco quebrado e lanceolado de fora, a entrada actual é uma porta modesta e rectangular que olha para o norte.

    O Museu ainda aqui sediado inclui livros e objectos de todo o tipo ligados ao culto judeu e às suas tradições, como lápides chegadas de todo o país, tanto originais como reproduções. De especial importância é a lápide de 1308 que indica a fundação da segunda sinagoga em Lisboa.

    Évora

    Évora, o coração do Portugal judeu

    Évora era, durante a Idade Média, a segunda cidade mais importante do país e um local frequente de reunião das Cortes. É por isso que, em conformidade, a judiaria aqui presente era uma das mais grandes em Portugal. Daquela presença deixou o tempo muito pouca coisa, mas ainda hoje é possível descobrir pegadas daquela vila medieval.

    Um grande grupo de portais ogivais góticos situados perto da Praça do Giraldo testemunham a passagem dos judeus por esta cidade, durante muito tempo. De facto, em Évora chegaram a existir duas sinagogas distintas e um vasto leque de serviços direccionados para as necessidades de uma comunidade hebraica: hospital, local de banhos rituais, escola e até uma leprosaria. Também funcionava aqui uma ouvidoria jurídica, um tribunal judaico.

    Uma visita à procura da pegada judaica não pode esquecer a Biblioteca pública, que guarda vestígios daquela importante presença: o famoso Almanach Perpetuum, obra de Abraham Zacuto (1496) e o Guia Náutico de Évora de 1516. Livros de grande importância para a ciência portuguesa, na altura um referente europeu.

    Esta Évora hebraica não sumiu por acaso: a Inquisição esteve aqui sediada e foi a mais implacável do país: 9500 processos contra pessoas acusadas de praticarem a religião judaica. O Tribunal e o Palácio do Inquisidor, que numa visita à herança judaica não podem ser obviados. Situados em frente ao museu de Évora, ainda conseguimos ver nas suas portas o brasão de armas daquela organização.  

    Algarve: as esvaecidas pegadas de Faro e Tomar

    A presença judaica no Algarve foi também importante, mesmo que não restem vestígios tão importantes como noutras zonas. Faro acolheu uma judiaria que foi berço da imprensa portuguesa: em 1487 foi lá editado o Pentateuco em hebraico, pela mão de Samuel Gacon. Após a expulsão dos judeus em 1496, a comunidade ainda voltaria a renascer no século XIX com a chegada de judeus de Gibraltar e Marrocos, que ajudaram o comércio local e construíram duas sinagogas que não chegaram até hoje e um cemitério com 107 túmulos. Este cemitério foi restaurado na década de 90 e desde 2003 que funciona como Centro Histórico Judaico de Faro. No lado oeste guarda um acervo histórico para visitadas, alinhado com os 18 ciprestes plantados em honra ao Dr. Aristides de Sousa Mendes, humanitário português da II Guerra Mundial. No Centro conserva-se mobiliário das 60 famílias que fizeram parte da comunidade, com reprodução de uma sinagoga onde se realiza um casamento e um Bar Mitzvah.  Um outro exemplo da presença judaica em Faro é o edifício onde hoje existe o Colégio Algarve a Rua Filipe Alistão.

    Em Tavira, se visitar a Igreja de Nossa Senhora da Graça, estará a visitar uma velha sinagoga. Os outros vestígios da importante judiaria da cerca do Convento da Graça foram desaparecendo devagar.
    E, se ainda ficar com vontade de saber mais coisas sobre a presença judaica em Portugal e outros recantos onde conhecer aquele rasto que não se apaga por completo, dê uma vista de olhos nas propostas da Rede de Judiarias de Portugal, uma organização responsável pela preservação deste legado que nos faz mais diversos.