Ainda há lampreia!

Apaixonados pelo seu sabor ou detratores eternos: a lampreia só desperta duas paixões. Se você está entre os primeiros, saiba onde desfruta-la neste mês de abril.

O seu nome tem uma sonoridade tão infrequente como o seu sabor. Aquele é fonte ainda de discussões amargas à volta das boas mesas do país: falamos de uma deliciosa iguaria ou de uma brincadeira culinária de mau gosto? A lampreia não deixa ninguém indiferente: acorda amores inquebrantáveis ou ódios duradouros.

A época está prestes a encerrar, pois é coisa sabida que apenas os primeiros meses do ano até a primavera chegar são propícios para os apaixonados pela carne “forte” deste peixe. Mas são os amores serôdios que costumam deixar a pegada mais forte, e talvez sejam este derradeiro tempo de lampreia o momento idóneo para dar uma oportunidade a este manjar aderente de qualquer boa mesa.

A tradição situava três tipos de lampreia nos rios do nosso país: a lampreia-marinha, a lampreia-de-rio e a lampreia-de-riacho. Não foi até 2012 que uma investigação biológica de Lisboa e Évora desvendou ainda mais três espécies nas águas fluviais portuguesas (para grande terror das pessoas que temem esses rodopios de colmilhos): a lampreia-da-costa-da-prata, a lampreia-de-sado e a lampreia-do-nabão.

Natureza - Quilometrosquecontam

Conhecedores da importância da lampreia no conjunto do nosso turismo gastronómico, os Comboios de Portugal disponibilizam entre os meses de janeiro e abril uma viagem que visa dar a conhecer os sabores mais tradicionais das beiras do Tejo. Pela região de Belver (partida feita da Covilhã) e Ródão (partida feita de Lisboa) aparece uma mancheia de recantos onde saborear uma estupenda receita de lampreia. Com a proposta dos comboios ganha a comodidade de uma viagem organizada, mas com certeza que perde o prazer de uma descoberta própria e mais “aventureira”. Entre os restaurantes aderentes à promoção estão o Restaurante Almourol em Tancos, o Restaurante A Lena na barragem de Belver e, já em Ródão, o Restaurante Estalagem Portas de Ródão. A visita não tem apenas um cariz gastronómico: o comensal pode ainda deleitar-se conhecendo o Museu Lagar de Azeite e realizando um passeio de barco pelo rio Tejo que inclui o Monumento Natura das Portas de Ródão, uma das paisagens mais impressionantes do nosso país: o estreitamento do vale do Tejo entre duas paredes escarpadas de quartzo que num longínquo passado marcavam uma cascata hoje desaparecida pela erosão.

Porto,  Santo Graal da lampreia

Fora da rota proposta pelos CP, na cidade do Porto podemos começar a nossa procura do Santo Graal da lampreia na Casa Nanda, um local bem conhecido por aqueles que estão à procura sempre da cozinha típica do país. No 394 da Rua da Alegria pode experimentar uma lampreia minhota à bordalesa ou em arroz. Há quem diga que a melhor forma é a primeira, com essas fatias de pão torrado no molho (para quem tiver curiosidade na origem do molho nesta receita tradicional, é melhor perguntar depois do almoço).

No concelho de Mação, distrito de Santarém, ainda já terminado o festival da lampreia, de forte tradição, continua a estar disponível o prato para os estômagos mais corajosos em restaurantes como no restaurante Casa Velha. Situado no Largo do Matadouro, trata-se de um espaço de ar rústico e muito acolhedor onde a lampreia convive na ementa com outras iguarias da cozinha dos nossos avós.

Mas, sem dúvida, é no Vale do Minho que se vive a tradição da lampreia com especial força em Portugal. A Adega Sabino de Melgaço é um dos grandes expoentes nestas terras, herdeira de uma tradicional tasca que cá operava durante os anos 40. A lampreia sazonal tem um importante protagonismo na ementa, não menor do que o atribuído ao salmão ou ao sável do Minho. Ainda, o arroz de cabidela é um prato a ter em conta. A indiscutível vantagem da Adega Sabino está na sua seleção de vinhos para acompanhar a lampreia, uma oportunidade de ouro para conjugar o peixe com um excelente com um excelente Alvarinho, ainda que há quem diga que a lampreia é um peixe para tinto.