Leiria é jovem mas ninguém lhe conhece a idade

Não se sabe quando nasceu e tem marcas de muitos séculos, mas Leiria é uma cidade cheia de gente jovem, ideal para um city break neste inverno.

Leiria é uma cidade muito curiosa: “entalada” entre o Norte e o Sul, não está bem no centro do país. Em vez disso, definiu para si própria o que queria do futuro e não se deixou só influenciar pela condição geográfica. As raízes de Leiria podem perder-se no tempo e essa herança é ainda bem presente, mas é hoje uma cidade plena de gente jovem, com uma movida dinâmica, bares e restaurantes sofisticados e um ritmo que, apesar de acelerado, é distante o suficiente daquilo que encontramos no Porto ou em Lisboa para nos convidar a uma agradável fuga de fim de semana. A Goodyear partiu à procura desse passado, presente e futuro tão vibrantes, e conta-vos o que descobriu.

A pouco mais de hora e meia tanto do Porto como Lisboa, Leiria fica quase na metade exacta em que se divide o percurso entre as duas cidades. Apesar disso, não é, com toda a certeza, apenas um local de passagem. A sua origem já está esquecida e foi região de combates entre Mouros e Cristãos até que, em 1135, D. Afonso Henriques manda erguer o castelo. A situação na zona ainda demoraria quase um século até ficar estabilizada mas, desde então que a terra foi crescendo encostada ao monte.

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Não se conhece o nascimento de Leiria

Muito ligada à religião desde que se tornou diocese, os vários bispos que ao longo da História passaram por aqui, foram os primeiros a encarregar-se de engalanar a cidade e transformá-la num importante repositório do património monumental português. Como é nosso hábito quando assaltamos terras com esta presença na paisagem, o nosso primeiro destino é o Castelo de Leira e é lá do alto que vamos mergulhar nas ruas da cidade deitada a seus pés. Não é muito elevado, mas a sua posição sobranceira é alta o suficiente para nos permitir ver a mescla em que a cidade se transformou ao longo dos séculos.

No mesmo enquadramento, vemos a antiga Torre Sineira que, apesar de encostada ao morro, faz parte da Sé que se encontra logo do outro lado da estrada. Aqui do alto percebemos que a evolução da cidade fez-se a vários tempos, sempre com o Castelo no epicentro, e tendo o rio Lis como ponto de atração. Na outra margem, a construção é claramente mais moderna e heterogénea, sinal disso mesmo. O bilhete para o castelo pode incluir uma visita ao Museu Imagem e MOvimento, experiência que recomendamos a todos os fã da fotografia e do cinema que queiram conhecer um pouco sobre o seu passado.

Terra de judeus e cristãos

A Sé de Leiria e a Igreja de São Pedro são digníssimo exemplos das construções religiosas da cidade e, depois de alguns minutos a apreciar as suas fachadas, decidimos seguir no sentido oposto e ir à procura do pulsar original de Leiria. Arrancamos à descoberta e seguimos no sentido da Praça Rodrigues Lobo, o que nos “obriga” a passar pelo núcleo mais antigo, encostado ao monte, onde ainda sobrevivem pequenos edifícios construídos mais em altura do que largura e ruelas estreitas e tortuosas. Era aqui o antigo bairro judeu, uma memória que se tornou quase invisível depois da construção da Igreja da Misericórdia no Séc. XVIII.

Regista-se que Eça de Queiroz viveu na cidade, foi administrador do concelho e passou aqui seis meses a captar o ambiente que depois versaria nas páginas de “O Crime do Padre Amaro”. Já fizemos esse percurso, com a rota literária que a Câmara Municipal promove para nos aproximar do escritor, mas desta vez somos nós os boémios que só estão aqui para viver e observar, por isso deixamo-nos perder até encontrar, ao fim de uma pequena escadaria, a histórica Praça Rodrigues Lobo. Pensada originalmente para servir de centro comercial e social da localidade, hoje em dia é um local mais tranquilo, que nos recebe com agradáveis esplanadas e convida ao descanso relaxado.

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Gastronomia feita de mar e serra

A manhã aproxima-se do fim e é altura de falarmos na gastronomia regional antes de escolher local para o almoço. A cidade está suficientemente perto do mar para receber as boas influências da Nazaré e Peniche, por isso tem arte q.b. quando toca a servir-nos sopa de marisco, feijoada de chocos, grelhados e caldeirada de peixe. Por outro lado, as serranias circundantes são local de eleição para criar os animais que servem de matéria prima para a chanfana, friginada, leitão à moda da Boa Vista ou o guisado de carneiro. A acompanhar, os vinhos do Vale do Lis e Encostas de Aire, são os néctares obrigatórios para ajudar a empurrar. Casinha Velha, Luna e Tromba Rija são, em nenhuma ordem particular, as nossas capelinhas quando visitamos a cidade mas aceitamos sugestões. Se as vossas recomendações forem tão boas como qualquer um destes três restaurantes, que venham elas!

Depois da refeição, se ainda houver espaço, visite a pastelaria LuziClara para provar as Brisas do Lis, exemplo da doçaria conventual nascido no convento de Santana já demolido. De seguida, desça até ao rio que deu o nome à bomba calórica que acabou de ingerir e faça como os locais, a “desmoer” ao longo das margens unidas por pequenas pontes, à sombra das árvores deste jardim.

E ainda…

Em volta de Leiria não faltam pontos de interesse para pegar no carro e conhecer a região. A Batalha, Ourém e Fátima são os mais conhecidos mas há muito mais que pode ver. Na Serra de Aire, são as grutas que convidam os forasteiros, Óbidos é a “vila de luz” que nunca enjoa em mais uma visita, e as Caldas da Rainha são outra cidade dinâmica que arranjou forma de se manter jovem. Encostados ao mar, da Figueira da Foz a Peniche, passamos por uma sucessão de pequenas localidades, enseadas e praias que convidam ao descanso em qualquer altura do ano.