Lisboa num patio

28 Outubro | 2015 | Goodyear

Quando “Pátio das Cantigas” estreou, vivia-se ainda a Segunda Grande Guerra, Lisboa estava na sua pequena bolha de neutralidade e os mais de 900 pátios alfacinhas eram o melhor exemplo disso mesmo: comunidades distraídas do que se passava lá fora por uma vivência culturalmente rica, que ia desde o fado às antigas profissões típicas da cidade. Era uma cidade onde ainda se vendia água nas ruas, mulheres passavam com panelas de fava rica à cabeça e o relógio era acertado com a cadência das visitas do petrolino. Já pouco existe destas personagens da Lisboa antiga, mas os  pátios ainda cá estão e serão sempre motivo para mais um passeio pela capital.

 

À procura do “Pátio das Cantigas”

 Em 2015, ano em que temos a oportunidade de ver nas salas a remake de Leonel Vieira, com Miguel Guilherme, César Mourão, Sara Matos e Rui Unas, a cidade ainda recorda bem o filme original. O orgulho de fazer parte de uma das mais icónicas memórias do cinema nacional tem motivado muitos bairros a defender que o verdadeiro Pátio do Evaristo, o original, era seu. Poderia ter sido filmado em Alfama, na Estrela ou no Bairro Alto, como muitos defendem. Perto do Príncipe Real há inclusivé o Arco do Evaristo que poderia ter sido a porta de entrada para aquele que procuramos. Na Graça, as vilas operárias ainda lá estão e serviriam bem de cenário à trama do filme.

 

 

O passado ainda vive

 O segredo da localização do mais famoso pátio lisboeta, tal como acontece com um bom truque de magia, é bem menos sedutor do que a imaginação: o Pátio do Evaristo só existiu em cenário, criado nos estúdios da TOBIS do Lumiar. Afinal, o local onde se disse “Ó Evaristo, tens cá disto?” nunca existiu. Mas aquela Lisboa existe e ainda hoje respira, os pátios tradicionais estão na memória viva da cidade e, enquanto muitos estão abandonados e degradados, outros mantém-se dinâmicos  e reconstroiem-se para um novo público.

 

À sombra do Castelo

 Já antes da conquista de Lisboa aos árabes, a população tinha hábitos comunitários que motivavam a edificação em torno de um espaço aberto comum. É dessa tradição que nascem os pátios de Alfama e Castelo, transformados em hortas comunitárias no princípio da presença cristã. O Pátio da Cruz (Rua da Galé) é um bom exemplo dessa época: de traça muito simples, enquadra-se na perfeição com os becos e ruelas de Alfama. Muitos turistas passam por ali quase sem reconhecer a singularidade do local, mas este bairro é mesmo assim e premeia quem se aventura a espreitar por todos os cantos.

Atreva-se, faça o mesmo, e irá encontrar o Pátio do Carrasco (Largo do Limoeiro). Antigas cavalariças de um conde, são o que mais popular podemos encontrar em Alfama: portas escancaradas, senhoras de idade descansam à sombra enquanto uma criança persegue um gato de rua.

Com a corte instalada no Terreiro do Paço, a nobreza desceu as colinas e deixou palácios e edifícios circundantes para outros usos. É o caso do Pátio do Curvo (Rua do Paraíso), que era uma dependência do palácio da família Curvo Semedo, e é hoje em dia um precioso recanto repleto de vestígios quinhentistas.

Dentro do castelo, o “aristocrata” Pátio das Cozinhas (Rua das cozinhas) é o digno representante do período pombalino, com a sua decoração de azulejos e o edifício do antigo palácio, hoje transformado em unidade hoteleira. Apesar de bem cuidado e extremamente agradável, contudo não tem o “toque popular” do Pátio do Evaristo. Vamos ter que continuar a procurar…

Patio lisboeta - Quilometrosquecontam

 

Lisboa é tudo isto

O “pátio das cantigas” que procuramos é um pouco diferente: mais espaçoso e diverso. Tem que ser grande q.b. para albergar um Evaristo (António Silva) e um Narciso (Vasco Santana), um “remediado” e um comerciante de sucesso. Em pleno século XXI, é na Graça que iremos encontrar os exemplos mais próximos. Inaugurada em 1900, a Vila Sousa (Largo da Graça), nasce nas traseiras de um antigo palácio e, isolada do mundo pelo seu portão de ferro, parece ser uma verdadeira ilha de tranquilidade a pouca distância da Baixa. As plantas nas janelas mostram o orgulho dos seus habitantes, enquanto o “Botequim” (café da falecida Natália Correia) se abre para a geração de jovens que frequenta agora o bairro.

Classificada como imóvel de interesse público em 1996, o Estrela de Ouro (Rua da Senhora do Monte) é uma das mais presentes memórias da Graça como bairro operário. Foi construído para albergar os trabalhadores de uma fábrica de bolos e bolachas cujo proprietário era maçon, facto bem claro na quantidade de estrelas de cinco pontas que ainda decoram a vila. Em meados do século passado tinha tudo: uma escola, uma igreja e até o cinema que exibiu o primeiro filme sonoro em Portugal.

Temos que nos render à evidência: o Pátio do Evaristo pode nunca ter existido, mas é uma presença bem real no coração dos locais. Se nenhum bairro pode clamar para si a exclusividade, a verdade é que o Evaristo está em todos os lisboetas e aquele pátio são todas as ruas de Lisboa.

 

Good Year Kilometros que cuentan