Marginal, costa de exploradores, pescadores e espiões

A marginal que une Lisboa e Cascais é uma bela estrada ainda cheia de recantos por explorar. A Goodyear fez-se ao caminho e foi (re)descobrir estes 20Km.

Há quem compare a Marginal Lisboa-Cascais a um passeio na Riviera Francesa, mas é também uma das vias mais concorridas de acesso à capital, trajecto que com o passar dos anos já tomamos como banal e desinteressante. Mas a Nacional 6 é tudo menos desinteressante: primeiro na companhia do Tejo e depois do mar, ao longo de uma linha de costa plena de pontos de interesse, há aqui histórias de navegadores, pescadores e espiões. Aproveitámos o final de um dos dias de Agosto para ver o Sol laranja a deitar-se no Oceano e fizemos os 20 quilómetros da Marginal.

Se habitualmente falamos aqui de estradas com menos tráfego, normalmente na Serra ou com paisagens rurais e bucólicas, também temos que guardar espaço para um ou outro exemplo de percursos muito mais familiares. Tão familiares até que quem os percorre todos os dias se esquece da dádiva que lhe tocou em sorte. Um clássico dessa estirpe é a Avenida Marginal: a cidade cresceu para além dos seus antigos limites, mas ainda guarda respeito e preserva a beleza destes quilómetros de costa.

    A marginal antes de ser marginal

    Historicamente o percurso tinha início em Moscavide e chamava-se Estrada da Circunvalação de Lisboa. Hoje em dia responde à denominação muito mais prosaica de “marginal” e vamos fazê-la a partir da 24 de Julho (que já faz parte do percurso da N6), no cruzamento com a Infante Santo.

    Esta primeira parte do percurso depara-nos com a nossa herança marítima, mas ainda não é a “estrada panorâmica” que viemos visitar: docas modernas, com diversos restaurantes e esplanadas ao longo da margem recebem os alfacinhas que descem ao rio, mas precisamos de sair do carro para apreciar este passeio que segue ao lado da Av. da Índia.

    Já a chegar a Belém começamos a cruzar-nos com algum do mais importante edificado português. Abrandamos a velocidade e temos em rápida sucessão a Central Tejo e o moderno Museu dos Coches, em lados opostos da estrada a exibirem engenharia com muito orgulho. Atrás dos jardins que aparecem à direita, podemos ver uma “nesga” do Palácio de Belém, residência oficial do Presidente da República, mas logo de seguida ficam os majestosos Mosteiro dos Jerónimos e Centro Cultural de Belém, com o Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém do lado do Tejo. Neste quilómetro há mais História gravada na pedra do que tempo para conhecer tudo. Voltaremos aqui noutra oportunidade, porque hoje o que nos interessa é a estrada.

    Marginal, Belém

    Terras do mar

    Ao passarmos Algés e a zona baixa do Dafundo, temos por companhia alguns palacetes, mas apercebemo-nos que algo começa a mudar. Lisboa acaba aqui oficialmente e esta zona era também região de pescadores e gente ligada à construção naval. Depois dos históricos navegadores evocados pelos Jerónimos, continuamos na companhia do mar, mesmo que à nossa esquerda só agora o rio se desvaneça.

    Por altura da Cruz Quebrada, depois da subida para o cruzamento do Estádio Nacional, faz-se luz. O motivo da nossa viagem está aqui e o Sol está à altura certa para exibir o seu tom laranja-fogo e mostrar o real motivo pelo qual as pessoas da Linha são umas privilegiadas. Daqui até Cascais a presença mais forte é mesmo o astro-rei que se deita sobre a água e a linha de costa abre espaço para termos a melhor vista. A controlar o acesso no meio do rio conseguimos ver o Forte do Bugio, mas uma série de pequenas fortificações espalham-se até à Cidadela de Cascais, surgindo ocasionalmente entre as rochas ou no topo de uma escarpa.

    Na companhia do Sol

    A estrada prossegue por cima da linha do comboio e, agora sim, torna-se verdadeiramente “marginal”, quando passa a ser a via mais próxima do mar. Ainda não são as famosas praias da linha do Estoril, mas já nos começamos a cruzar com uma série de areais que, à custa de algum trabalho de recuperação da sanidade, têm voltado a ter frequentadores nos últimos anos. A esta hora já estão quase vazias e apenas umas poucas cabeças mergulham à luz do pôr-do-sol. Se não estivéssemos a conduzir, não nos importaríamos de fazer o mesmo.

    Perdidos nestes pensamentos, percorremos o extenso areal de Carcavelos onde alguns surfistas ainda insistem que o dia tem que continuar. Ainda há poucas horas esta estrada estava intransitável, mas num fim de tarde de Agosto em que metade do país rumou para sul, parece que estamos no paraíso. Logo de seguida, em rápida sucessão passamos pela Parede e São Pedro, pequenas mas clássicas terras deste percurso, que conseguem ainda hoje manter um misto do seu antigo traço de quintas e casas burguesas ao lado dos modernos edifícios e condomínios que as assaltaram nas duas últimas décadas.

    Marginal, Tamariz

    Licença para conduzir

    Com uma marcação para jantar só às 10h da noite e tempo para gastar, decidimos sentar-nos numa das esplanadas da praia a apreciar um cocktail fresco (e pouco alcoólico porque ainda temos que conduzir) e fazemos paragem em São João do Estoril, ao pé do Forte de Santo António da Barra. Aqui ao lado, mas invisível a partir da estrada, fica a Azarujinha, uma pequena baía engalanada pelas casas apalaçadas construídas no topo de altas paredes de rocha.

    Daqui para a frente chegamos ao Estoril “James Bond”. Se calhar foi o Gin que bebemos, mas quando a estrada passa entre o Tamariz e os jardins do Casino, com a presença aqui tão perto do luxuoso e histórico Hotel Palácio, não nos ocorre outra coisa que não esse espírito bon vivant de quem anda num descapotável a espiar para sua majestade. Resistimos a flirtar com a rapariga estrangeira de ar misterioso que parou no semáforo ao nosso lado e deixámos uma visita ao Casino do Estoril para a volta, mas entendemos bem por que é que a vila era um chamariz para espiões na altura da guerra ou porque é que vários membros de casas reais em fuga vieram para aqui. Respira-se aqui um ar de tranquilidade cool que ainda hoje se mantém bem vivo.

    A “baía dos Delfins”

    A partir da marginal quase que poderíamos passar pelo Monte sem dar por ele, mas é ainda hoje uma povoação muito discreta, entalada entre Cascais e Estoril, cheia de vivendas centenárias, algumas em infeliz estado de degradação, mas que é um verdadeiro oásis de calma no meio da Linha do Estoril.

    O último ponto da nossa viagem é a chegada a Cascais e temos uma boa vista logo a partir da curva do alto do Monte, antes de começarmos a descer para o Estoril Sol e o Parque Palmela. A avenida vai terminar já dentro da vila, no cruzamento que depois segue para o Guincho, mas nós largamos o percurso aqui. Esta era uma das zonas mais nobres de Cascais, enquanto o centro era reservado para os pescadores, e fica aqui o Palácio dos Duques de Palmela.

    Ao longo dos anos tem vindo a perder importância, transformando-se apenas num ponto nevrálgico de transportes mas continua a ter uma companhia muito importante: arrumámos o carro mesmo ao lado da praia da Duquesa e fizemos a pé os poucos metros que nos separam da areia. Inspirámos profundamente o ar marítimo e ainda vimos o momento em que o Sol desapareceu definitivamente sobre a água, com uma secreta ponta de inveja de quem faz a marginal todos os dias…