Montemor-o-Novo? É sempre em frente, é já ali

Na Goodyear nunca nos cansamos de andar às voltas no Alentejo e, desta vez, fomos a Montemor-o-Novo e Arraiolos para apreciar a paisagem da planície.

Entre Montemor-o-Novo e Arraiolos, as estradas não poderiam ser mais alentejanas. Quase sempre a direito, sem nenhuma curva, só com suaves inclinações, é exactamente o tipo de sítio onde poderíamos perguntar sobre qualquer destino a um transeunte e ele iria responder-nos o clássico “É sempre em frente, é já ali”. Fizemos mais de 80 quilómetros de um Alentejo em toda a sua plenitude, dolente e pacífico como só ele sabe ser, que nos enchem os sentidos de calma. A Goodyear foi relaxar para a planície e voltámos com Quilómetros para vos Contar.

Desta vez não vamos fazer só uma estrada como já é habitual, e optámos por um percurso circular com princípio e fim em Montemor-o-Novo e vértice em Arraiolos. Vai ser um dia inteiro ao volante, com muitas e boas paragens, que terminará na N4 com o Sol a baixar sobre a planície.

    À sombra do Castelo de Montemor-o-Novo

    Como a nossa rota de hoje não é particularmente exigente, começámos em ritmo de passeio, a pé, com tempo para admirar a curiosa vila de Montemor-o-Novo a partir das ruínas do castelo. A sul da povoação, deixámos o carro perto da rotunda da Chave e subimos pelo caminho que passa pela Ermida de São Pedro da Ribeira e vai dar às muralhas. Já cá em cima, o panorama que se abre é uma adequada apresentação aos quilómetros que iremos fazer de seguida. Conseguimos ver o caminho de ferro que segue até à Torre da Gadanha, a cicatriz verde deixada pelo Almansor que corre lá em baixo e, nas nossas costas, os restos que ainda se mantém da Torre do Anjo e da Torre da Má Hora.

    Castelo de Montemor-o-Novo

    Um pequeno desvio…

    Iremos regressar a Montemor ainda hoje, e para não fazermos a N4 duas vezes (para lá e para cá), aproveitamos o passeio para dar um salto até mais a sul pela N2, a mítica estrada que vem desde Chaves e só acaba em São Brás de Alportel. Escoural surge logo no início da planície que se segue à zona montanhosa que vem desde Montemor entre os sobreiros. As gentes da terra dizem que a povoação já foi, outrora, bastante mais animada, mas o restaurante de Manuel Azieirinha, ainda é um excelente motivo para a visita e degustação de umas belíssimas empadas e de uns secretos de porco excepcionais.

    Alentejo subterrâneo

    De regresso à estrada, a nossa próxima paragem é na Gruta do Escoural, a primeira do nosso país a ser descoberta ainda com pinturas rupestres. Tem cerca de três de dezenas de galerias onde foram encontradas várias pinturas e gravuras mais ou menos perceptíveis. Representações naturalistas, semiesquemáticas e até abstractas, agrupam-se em 14 pinturas principais e algumas manchas e traços indefinidos.

    Há 5.000 anos

    Prosseguindo na direcção de São Brissos temos vários monumentos megalíticos que poderemos visitar, a Anta local, o Dolmen do Zambugeiro e, depois de um desvio da estrada em Nossa Senhora de Guadalupe e de uma centena de metros feitos a pé, o Cromeleque dos Almendres. Este último, que já tivemos oportunidade de visitar algumas vezes, é uma estrutura muito curiosa, com uma série de pormenores que apaixonarão qualquer interessado por História.

    O espelho de água que nasce na planície

    Seguimos para Igrejinha por uma estrada municipal e cruzamo-nos com a Barragem do Divor que nasce à nossa esquerda e enche de fertilidade os campos circundantes. A outrora minúscula aldeia, cresceu com a riqueza oferecida por estas águas e criou-se aqui uma indústria de conservas de frutos e legumes. Apesar de não ter o património monumental ou arquitectura que a salientem quando a comparamos com as vizinhas Évoramonte ou Arraiolos, regista-se como uma típica localidade alentejana e nós já sabemos o que isso quer dizer. Na zona da barragem ou aqui na vila, não deixe de fazer uma pausa na condução e respirar o aroma da planície.

    Finalmente, Arraiolos e a N4Com a bênção de Nossa Senhora

    A estrada que segue de Igrejinha para norte prossegue quase em paralelo à N4 e leva-nos até ao Vimieiro, ao encontro das aparições da Virgem. No local onde se ergue agora uma capela terá aparecido uma imagem de Nossa Senhora do Soveral, no meio de muitos vimes. A toda volta cresceu mais tarde a população a que se deu o adequado nome de Vimieiro. Tal como Igrejinha, é uma típica terra alentejana, com a arquitectura habitual da zona, mas onde encontramos também sinais de uma ruralidade mais rica, de antigos senhores proprietários de significativas posses. O Palácio dos Condes do Vimieiro é um dos mais famosos exemplos dessa classe, mas a vila tem uma série de outros, alguns em infeliz estado de degradação.

    Finalmente, Arraiolos e a N4

    Saindo do Vimieiro no sentido poente, os próximos 20 quilómetros são feitos em total descanso. A maior parte do caminho é cumprido na companhia dos chaparros até que começamos a ver o cabeço de Arraiolos a espreitar no horizonte. Lá em cima aguarda-nos o seu castelo medieval, o Paço dos Alcaides, dentro do qual conseguimos ver a mancha branca debroada a azul da Igreja do Salvador.

    Entramos pela Porta da Vila, de onde vemos a Torre do Relógio manuelina e, no lado oposto, os sinais ainda em pé da fortaleza. Havia aqui cinco torres, das quais já só sobrevivem três. A oeste, a passagem faz-se pela gótica Porta de Santarém e pelas suas duas torres, mas seja qual for a forma que entremos no recinto, aqui de cima voltamos a ter os panoramas sobre o Alentejo que só estas pequenas terras fortificadas podem guardar.

    De novo na N4, a estrada irá agora levar-nos de regresso a Montemor-o-Novo. E até parece que nos leva nos braços… Estamos no meio de um Alentejo “puro e duro”, com um belíssimo tapete de asfalto a permitir um assinalável conforto na condução. Se todas as estradas nacionais fossem assim, ninguém nos convenceria a meter os pneus numa auto-estrada…

    E ainda…

    Em Arraiolos será imperdoável não visitar uma das fábricas e lojas dos tapetes locais, uma tradição que já foi cumprida à porta das casas dos próprios habitantes, mas que é agora uma séria actividade com clientes por todo o país e pelo mundo. Um outro percurso que em nada fica a dever a este que acabamos de vos relatar, passa pela alternativa de, uma vez chegados ao Vimieiro, prosseguir para oriente para fazer a estrada entre Estremoz e o Redondo. E, já que andamos pelo terroir do vinho Alentejano, em toda esta região há excelentes destinos gastronómicos e alguns dos melhores produtores nacionais.