Mosteiro dos Jerónimos: onde descansam os imortais

Três grandes vultos da nossa literatura, Camões, Pessoa e Herculano, descansam hoje perto uns dos outros, no Mosteiro dos Jerónimos, e nós fomos visitá-los.

Se a força da sua arquitetura e simbolismo históricos não fossem suficientes para que o Mosteiro dos Jerónimos faça parte da lista de visitas que todos os portugueses devem fazer pelo menos uma vez na vida, é ainda lugar de repouso para os restos mortais de três dos mais importantes escritores portugueses. Camões, Pessoa e Herculano são figuras maiores da nossa cultura e representam diferentes facetas da portugalidade, factos que justificam estar sepultados aqui, num dos locais que nos habituámos a associar a alguns dos grandes momentos da História do país. Venha daí passar um tarde em Belém entre os túmulos do Mosteiro dos Jerónimos. É muito mais divertido do que parece!

Declarado em 1983 como “património cultural da humanidade” pela UNESCO, o Mosteiro dos Jerónimos é o mais famoso exemplo do estilo Manuelino, a versão portuguesa do Gótico, e é um fabuloso e inesquecível edifício, com o seu claustro, igrejas, museus adjacentes e os jardins à sua frente. Está aqui desde o século XVI e viu o Tejo recuar, ganhou novos vizinhos com o Centro Cultural de Belém e foi testemunha de tanta História que aqui se desenrolou. Com a passagem dos séculos e o seu uso religioso, foram aqui sepultados reis como D. Manuel e D. João II, mas também figuras que levaram o nome de Portugal ainda mais longe. São esses que iremos visitar de seguida…

Na igreja, um par essencial

Com a forma de cruz latina, a escolha da planta para a Igreja dos Jerónimos condiz perfeitamente com os vultos que aqui vamos encontrar. Nas pequenas capelas que se espalham em redor da nave central, encontramos D. Henrique e D. Sebastião, mas por muito respeito que nos mereçam, estamos à procura de outro par. Foi a chegada de Vasco da Gama da sua viagem à índia que marcou o início da construção do mosteiro e podemos recordar o seu papel nessa fase da História enquanto observamos o seu túmulo, no lado norte. Mas, a sul, repousa também o bardo das suas aventuras, o homem que colocou no papel uma versão tão épica do nosso país que, depois dele, nunca mais fomos o mesmo povo: Luís Vaz de Camões. No seu túmulo, fruto do trabalho de Costa Mota, estão representados alguns elementos decorativos referentes à vida do autor d’Os Lusíadas, enquanto a toda a volta está a magnificência da obra que cantava, os resultados materiais da riqueza que Portugal adquiriu com a Expansão.

A “Mensagem” dos Jerónimos

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Não precisamos de ir tão longe ou regressar ao tempo em que o Bojador era receado como se fosse um monstro mítico para nos reencontramos com Fernando Pessoa. Depois de um passeio pelo claustro, um espaço magnífico recheado da mais diversa iconografia religiosa e náutica, com um estilo Manuelino no piso inferior e uma decoração renascentista no superior, a caminho da Sala do Capítulo através da ala norte deparamo-nos com o túmulo de Fernando Pessoa. O autor de “Mensagem” deixou nessas páginas algumas das mais belas palavras já ditas sobre os Descobrimentos, um verdadeiro marco da nossa literatura e um elemento muito significativo na construção da narrativa dessa época. Sem uma obra desta envergadura, que faz um par óbvio com “Os Lusíadas”, a nossa ideia sobre esse período histórico seria substancialmente diferente. Sem surpresa, Fernando Pessoa era também um visitante assíduo do mosteiro e, sem sombra de dúvida, encontrou aqui inspiração várias vezes. Está aqui sepultado desde 1985 e o poeta dificilmente poderia passar a eternidade em melhor cenário.

jeronimos-monasterio-interior

Um herege entre santos?

Dirigimo-nos de seguida à Sala do Capítulo para um encontro com Alexandre Herculano. Neste espaço, a seguir à missa da manhã, os monges originais reuniam-se para a leitura de textos religiosos e discutir assuntos práticos da sua vida monástica, como tratar as terras ou distribuir tarefas entre eles. Só podemos imaginar como este grupo se relacionaria com o liberal escritor e historiador que está sepultado no centro da sala, mas é matéria que daria para muitas horas de divagação. O autor de “Eurico, o Presbítero” foi um revolucionário à medida da sua época, um maçon que se envolveu no famoso desembarque no Mindelo, chegou a andar fugido no estrangeiro e atacou vigorosamente a Santa Sé. Hoje, sem qualquer polémica, está sepultado neste espaço que, mais do que a função religiosa, é uma verdadeira coleção dos ícones mais significativos da cultura portuguesa. E, nesse campo, Alexandre Herculano está mesmo entre os maiores.

É verdade que, dependendo das horas, o mosteiro pode ser um local infernal, com guias e turistas a percorrerem todos os cantos, a falar alto enquanto voltam a contar os episódios da História que aprendemos na escola desde pequeninos. Mas, entre o claustro, a frescura das suas paredes e as recordações das letras aqui sepultadas, há sempre uma nova perspetiva para se voltar e este velho bloco de pedra magnificamente engalanado.