Outono nas aldeias do Norte

1 Outubro | 2019 | Goodyear

Há mais de um Portugal se falarmos em paisagem. As vontades do clima, a orografia e o tempo foram afeiçoando um rosto diverso: verde no norte e dourado no sul. As povoações mudam também conforme o horizonte, e são muito diferentes as casas de cal e argila e as de granito, as aldeias do norte e as do sul.

Quando chega o outono e tinge de laranja os campos e e despe devagar os bosques, o Norte vira num paraíso com ecos de um passado longínquo que vale a pena (e muito) ser conhecido. É difícil fazer uma escolha justa de quais locais é que merecem ser conhecidos, porque em toda escolha há sempre uma perda, e são os nossos sentidos (vista pela paisagem, gosto pela gastronomia, ouvido pelo nortão nas ramadas dos pinhais, olfato pelo cheiro das castanhas no forno) que perdem! Todavia é preciso fazer uma seleção para disponibilizar para o visitante uma aproximação aos imperdíveis do Norte, e é por isso que, com muita mágoa pelo necessariamente breve do olhar, fizemos este percurso por uma série de aldeias nortenhas que bem pode ser um aperiente para uma visita posterior, se calhar umas longas férias não cingidas a uma breve escapadela de fim de semana. Eis a nossa lista!

Lugar da Passagem (Viana do Castelo)

Encontramos esta aldeia histórica encostada à beira do rio Lima, na freguesia de Moreira de Geraz. Foi, de facto, local de travessia entre aquela e Lanheses, e sulcavam o rio diariamente pessoas, mercadorias e animais num trânsito por séculos inalterado até à chegada da modernidade e as comunicações atuais. Sobrevive, porém, um interesse por promover as embarcações e a travessia tradicional, um modo de honrar o passado histórico do núcleo rural.

O que visitar aqui? Não perca um conjunto patrimonial de interesse evidente: a Igreja Paroquial, o Cruzeiro da Prelada, o Marco da Passagem e o ancoradouro onde antigamente bulia a vida económica da zona. Na beira do Lima, a pé ou de bicicleta, pode encontrar a Ecovia do Rio Lima- Percurso das Veigas, que liga Viana do Castelo a Ponte de Lima e atravessa estas terras alaranjadas pelo outono, que podem ser contempladas no miradouro da Capela da Senhora do Crasto. A aldeia é um ponto inescusável para importantes caminhos: os itinerários do Românico e da Ribeira de Lima e o Caminho de Santiago.

Sistelo (Viana do Castelo)

Situada no concelho de Arcos de Valdevez, em pleno Parque Natural da Peneda-Gerês, a aldeia de Sistelo anda por estes dias na moda graças ao passadiço com o mesmo nome, inserido na Ecovia do Vez. Eleita como uma das 7 Maravilhas de Portugal na categoria de aldeias rurais, a aldeia já mereceu o epíteto de Pequeno Tibete Português, graças aos socalcos que, em 2017, foram declarados como Monumento Nacional, a primeira paisagem natural a merecer a distinção, até então concedida apenas a património edificado. É nos socalcos que assenta a economia local, já que são ali plantadas culturas como milho, feijão e batata.

Entre os locais a visitar nesta verdadeira maravilha paisagística o destaque vai para o Castelo de Sistelo, um palácio erguido no final do século XIX e que era a casa do visconde de Sistelo. Andando pelas ruas da aldeia, vale a pena visitar a igreja paroquial, a ponte romana e o moinho, sendo que um passeio pelo Sistelo não pode terminar sem a subida ao miradouro do Chão da Armada para uma panorâmica exemplar sobre a que é, sem dúvida, uma das mais belas aldeias de Portugal.

Rio de Onor (Bragança)

Mais uma das 7 aldeias Maravilha de Portugal, Rio de Onor faz parte do Parque Natural de Montesinho, tendo a particularidade de ser atravessada pela fronteira com Espanha: do lado castelhano, chama-se Rihonor de Castilla. Aldeia comunitária feita de casas de xisto com varandas alpendradas, Rio de Onor é também atravessada pelo rio que dá nome à localidade e cuja praia fluvial convida senão a um mergulho já que o outono chegou, pelo menos a um momento de repouso para apreciar a paisagem.

Entre os sítios que vale a pena visitar, destaque para a Ponte Romana e para a Igreja Matriz, sem esquecer os moinhos comunitários. E se ouvir uma língua que lhe pareça estranha, é porque é mesmo assim: dada a sua situação fronteiriça, o rionorês, dialeto que mistura o português e o castelhano, é ainda falado na aldeia.  

Gondomar (Vila Verde)

Pela A27 e IC28 chegamos até a Gondomar após um percurso de 45 minutos. Aqui mergulhamos na história: é só pousar a vista em volta. Situada na encosta de Mixões da Serra, no concelho de Vila Verde, a localidade está cheia de vestígios arqueológicos que evidenciam moradores muito antigos. Na pré-história destacou-se como especialmente populosa, restando a mamoa no Monte do Barrete como rasto daquele tempo ido. Também existe uma interessante sepultura medieval cristã no lugar da Igreja.

Na própria aldeia, chamam a atenção depressa o Cruzeiro, o Coreto e a igreja da Nossa Senhora da Assunção. É um conjunto de casas rurais que constituem o núcleo de uma aldeia minhota típica, com os seus espigueiros e a casa da eira. Envolto o lugar pela paisagem de socalcos, carvalhais e giesta, é um vestígio único de como era o Norte noutro tempo. Aproximar-se da aldeia de carro com o vento a assobiar no vidro e a paisagem a desvendar-se vagarosamente é uma experiência que faz com que o fim de semana pague a pena.

Não deixe Gondomar sem conhecer o Fojo do Lobo, monumento de interesse do Concelho e autêntico ex-líbris aqui. É um dos fojos do lobo mais bem conservados de Portugal e também um dos maiores da península ibérica. Os fojos serviam para capturar o perigoso depredador que com os seus ataques ao gado durante o inverno trazia consigo a fome às casas dos camponeses, que em toda a parte se prepararam para enfrentar a besta num duelo atávico e primordial entre o homem e a natureza.

Santo António de Mixões da Serra (Vila Verde)

A EM1221 leva-nos a seguir até  a esta aldeia da freguesia de Valdreu, no mesmo concelho que Gondomar. Nesta localidade encontramos um casario tipicamente minhoto, construido em granito e dotado com elementos ligados às atividades tradicionais e agrícolas da zona, alvo de um claro restauro. Perto estão os pelourinhos e os espigueiros que antigamente eram utilizados para secar e armazenar os cereais, elemento imprescindível da economia aqui.

Admire-se com a Igreja de Santo António e prepara-se para uma grata surpresa. A longa escadaria irá levá-lo a um incrível miradouro para contemplar os campos verdes em volta da aldeia, onde os animais pastoreiam e até mesmo pode avistar cavalos selvagens que pastam livres pelos montes.

Se vier com tempo não esqueça a Rota de Mixões da Serra, um percurso pensado para BTT de cerca de 26 quilómetros por caminhos maioritariamente florestais. Uma delícia para os mais aventureiros!

Germil (Ponte da Barca)

Conduziremos depois 20 minutos pela CM1149 para chegarmos até a Germil, no coração da serra Amarela. Situada no concelho de Ponte da Barca, a aldeia é um exemplo típico de povoação montanhesa do Parque Nacional Peneda-Gerês. Nesta classe de locais tinha grande importância a vivência comunitária para enfrentar o rude clima e os desafios quotidianos para as gentes de outros tempos, e esta organização social deixou um rasto evidente que continua até aos nossos dias.

A aldeia está concentrada em dois aglomerados de casas típicas de granito, sendo as portas e janelas de castanho avermelhado. As suas ruas estreitas, cobertas por vinhas e recobertas por calçada de pedra e água a jorrar dos cantos, constituem uma viagem para outro tempo ou se calhar outro mundo. Sem dúvida, uma paragem inescusável no caminho!

A velha azenha da aldeia traz-nos à memória o trabalho duro das gentes de antigamente, quando era preciso moer o cereal de maneira artesanal para trazer o pão às mesas. A igreja é de 1880 e conservam-se também, ainda, espigueiros de granito, existindo num deles um relógio de sol.

Muito próximo da aldeia está mais um Fojo de Lobo, um que se estende ao longo de 1400 metros na margem oeste do vale do Germil. Mostra também do duro combate contra as bestas selvagens são as silhas próximas, construções circulares em pedra que serviam para proteger as colmeias contra os ataques dos ursos na procura do mel.

Germil é um ponto ideal para terminar um longo dia com um descanso merecido. Pode ficar alojado numa das suas  unidades de turismo rural e prolongar até à manhã seguinte a sua visita, delongada, por esta aldeia montesinha. Não perca a oportunidade de deliciar-se com as iguarias locais: chanfana de cabra à moda de Germil, queijo e mel.

 

Good Year Kilometros que cuentan