Para lá do Gerês, onde se esconde o Inverno

Sistelo, Monção e Castro Laboreiro. O que fazer e visitar num fim de semana no Alto Minho

Esqueça a Serra da Estrela. É no triângulo com vértices no Sistelo, Monção e Castro Laboreiro que o Inverno Português se sente com toda a sua força. Fomos passar um fim de semana pela terra dos Castros, experimentámos o frio que desce o Gerês e encontrámos um local único, cheio de lendas e tradições e onde a neve se mistura com o verde de forma primorosa.

 

Escapadela no Alto Minho

Chegados a Monção pela A3 e pela Nacional 101, via Valença, foi o Rio Minho que nos recebeu e deu o tom aos dias seguintes. É uma das nossas paisagens preferidas em Portugal, mas nunca nos tínhamos aventurado a subir o rio para lá de Valença. E, devemos confessar, se nunca é tarde para se conhecerem sítios especiais, já cá deveríamos ter vindo há mais tempo.

Em Monção ficámos no Convento dos Capuchos, hotel que recupera o mosteiro original do séc. XVIII e está convenientemente localizado ao pé do rio e da vila, com piscina, ginásio e restaurante. Contudo, como o nosso calendário era bastante preenchido, não tivemos tempo para mais do que apreciar o conforto das três noites em que lá dormimos. Ficou prometido o regresso para outra altura.

Encostada ao rio e com Salvaterra de Miño como vizinha, Monção foi palco de guerras, tratados de paz e juras apaixonadas. Hoje é uma vila pacata, onde o Alvarinho se tornou o ex-libris e abundam razões para se comer bem. É este vinho verde, exclusivamente produzido nas encostas graníticas circundantes, que melhor acompanha o cabrito assado no forno com arroz de açafrão ou o saboroso chouriço que aqui se produz. Aqui perto, em Ponte do Mouro, experimentámos o Casa do Rio, esplanada com agradável vista sobre o rio, onde o menu mistura refeições ligeiras com alguns clássicos da região. No Sete a Sete, a poucos minutos a pé do nosso hotel, tivemos a sorte de experimentar um divinal leite creme e no Cabral, perto da Câmara Municipal, o cabrito frito e o naco de vitela foram dignos postais da gastronomia local.

A História da vila continua perfeitamente visível não só em “retratos de época” como a Igreja Matriz em estilo românico, na fortaleza militar ou nas casas senhoriais como o Palácio da Brejoeira, mas também na forma tradicional como aqui ainda se vive. Como esta nossa passagem pelo Minho calhou num fim de semana “longo”, tivemos oportunidade de passar pela feira municipal, dentro do fosso sul da muralha, e assitir a galegos e minhotos na azáfama da compra e venda dos produtos agrícolas e artesanato locais. Não há como as feiras regionais para nos colocarmos em contacto com quem ali mora…

Natureza - Quilometrosquecontam

O “Tibete Português”

Os socalcos do Sistelo estiveram recentemente nas páginas dos jornais, ameaçados pela construção de uma central eléctrica, caso que teve a feliz conclusão de iniciar um processo para estabelecer-se aqui uma área protegida. Já há muito que nos chegavam aos ouvidos histórias sobre a beleza da zona e foi o nosso primeiro destino quando saímos de Monção.

A aldeia fica nas margens do Vez, já no Conselho de Arcos de Valdevez e, de tão pequena, poderia continuar quase anónima, não fosse o cenário que a envolve de forma majestosa e mágica.

Chegamos pela estrada nacional e, quando começamos a descer para o rio, o arvoredo clareia e temos a primeira visão do que aqui viemos visitar: degrau a degrau, os socalcos afirmam a forte convição dos humanos que aqui se estabeleceram. Pelas levadas e nos terrenos de cultivo vemos os aldeões atarefados na jornada da terra. Se esta “escadaria” apaixona o visitante, a verdade é que a vida aqui é dura e resultado de muito esforço. Os carros de bois deram lugar aos tractores, mas subir e descer estes íngremes caminhos continua a ser tarefa muito árdua.

Não encontramos muitos jovens por aqui. Apesar do crescente interesse turístico e da promessa de construção de diversas unidades hoteleiras na zona, continua ser uma área remota e com pouco atractivos para além do trabalho na terra. Mas, enquanto a aldeia não é redescoberta por um público maior, fenómeno que irá inevitavelmente ocorrer nos próximos anos, é agora a altura ideal para a conhecermos na sua forma mais original e pura.

Sistelo está relativamente bem preservado e impõe-se um passeio pelas suas ruas, a pisar o granito e a sentir os cheiros do campo. Fomos até ao castelo, curiosa construção do séc XIX, passamos por diversas capelas, mas foi a partir do miradouro do Chão da Armada que melhor apreciámos este vale magnífico. Não saia daqui sem levar consigo um par de meias ou um avental, já que o artesanato local dedica-se especialmente à lã.

 

 

Brandas e Inverneiras

No “triângulo” que desenhámos no mapa para este fim de semana, é para lá do maciço da Peneda que vamos encontrar Castro Laboreiro. Toda a zona evoca-nos o passado dos castros e, num eixo que entra para dentro de território espanhol, há uma série de construções megalíticas que testemunham a presença humana desde há milénios. Isolado, Castro Laboreiro criou os seus próprios costumes e tradições, formas de trabalho comunitário que, num cenário de rara beleza, contribuiram para o carácter singular dos seus habitantes.

Em volta de Castro Laboreiro, no alto dos penhascos ou no fundo dos vales, encontramos uma série de pequenas povoações que parecem abandonadas. Estas “aldeias fantasma” são comuns pela zona e são um sinal da dureza do Inverno que aqui se sente: muitas populações possuem aqui dois tipos de “casa”: as Brandas, onde residem de Abril a Dezembro, e as Inverneiras, mais abaixo, que ocupam no pico do Inverno.

Não se sabe bem quem construiu o castelo local, atribuído ora a romanos, ora a mouros e provavelmente com mais de 1000 anos, mas é uma forte marca na paisagem, virado para a Galiza na sua dormente vigilância. Chegava-se aqui pela Via que, da Portela do Homem, passava pela ponte romana que ainda podemos ver hoje em dia.

Os moinhos de água que ainda se erguem ao longo do rio Laboreiro, assim como os fornos, eram de uso comunitário e podemos conhecer mais sobre esses costumes no Núcleo Museológico local. Neste espaço, visitámos uma casa castreja do século passado, cuidadosamente preservada, uma visita obrigatória para entendermos melhor este povo.