O espírito do Carnaval nos sambas mais clássicos

O Carnaval é para ser cumprido ao ritmo do samba e a Goodyear deixa-vos aqui uma playlist com 10 dos mais clássicos exemplos do género.

É a semana do Carnaval e a alegria pode ser realmente contagiante, mesmo para quem só tem dois pés esquerdos. Dança-se um pouco por todo o país, e cada vila e cidade portuguesa tem os seus próprios rituais e tradições, alguns com origem bem antiga, mas todos pensados para alguns dias de folia e malandrice. Contudo, a primeira coisa que vem à cabeça quando pensamos no Entrudo é a versão carioca: é festa rija que se celebra nos mais diversos sítios do mundo, mas é no Rio de Janeiro que mais brilha e mais é levado a sério. E a banda sonora só pode ser uma: Samba! Mesmo com o crescimento do axê e do funk, o carnaval do Rio desce à Marquês de Sapucaí há tantos anos em ritmo de samba que é impossível imaginá-lo com outras roupas. E, com uma história tão longa, é tarefa fácil procurar e encontrar alguns dos mais bonitos e ritmados exemplos do género. Venha daí com a Goodyear conhecer alguns dos clássicos sambas brasileiros.

“Quem não gosta de samba bom sujeito não é, ou é ruim da cabeça ou doente do pé”
Dorival Caymmi, em “Samba da minha terra”.

Para além dos Sambas-Enredo que são a companhia das escolas que desfilam pela avenida, há vários outros sub-géneros que foram evoluindo de acordo com diferentes regiões do Brasil e épocas desde os anos 30. Enquanto alguns são verdadeiramente festivos, outros são emocionais e melancólicos, mas em todos há um ritmo que os atravessa e não é menos do que viciante, um convite permanente a afastar as mágoas como quem chocalha as ancas.

Alegria, Cartola

Angenor de Oliveira, vulgo “Cartola” é um dos maiores nomes do samba e tornou-se famoso para o mundo a partir da Estação Primeira de Mangueira, bloco de samba que formou naquela favela durante o princípio dos anos 30. “Alegria” é um doce convite para começar a festa de forma delicada porque, se é isso que se procura no Carnaval, “eu já encontrei”.

Agoniza mas não morre, Nelson Sargento

Outro nome que vem de Mangueira, Nelson Mattos tornou-se o “Sargento” do samba a partir dos anos 50 e foi sempre um exímio criador de toadas melancólicas que, quando cantadas a plenos pulmões, parecem partilhar o que vai na alma com todo o morro. Das mãos do compositor nasceram mais de 400 sambas dos quais é complicado escolher só um.

Foi um rio que passou em minha vida, Paulinho da Viola

Mudamos de escola e vamos agora até à Portela, com esta explosão de alegria de Paulinho da Viola. A voz terna do sambista e a forma como organiza as harmonias é viciante e parece trazer todo o espírito solarengo do Rio de Janeiro nos seus versos: “não posso definir aquele azul, não era do céu, nem era do mar, foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar.”

A flor e o espinho, Nelson Cavaquinho

De regresso a uma toada melancólica, pois alguém vai “passar com minha dor”, Nelson Cavaquinho leva-nos para um Carnaval mais sombrio, que custa a passar e que se cumpre nos tascos de esquina, com a cachaça a afogar a mágoa. Com toda a distância que os separa, há aqui o mesmo espírito que faz nascer o fado português, agora em versão para abanar o corpo.

Samba da minha terra, João Gilberto

Nascido na Baía, Dorival Caymmi trouxe uma cor diferente ao samba, não menos rica, simplesmente diferente, como podemos ver neste “Samba da Minha Terra”. Considerado um dos maiores nomes da música popular brasileira, foi o compositor do mega sucesso que tornaria famosa a muito portuguesa Carmen Miranda, de Marco de Canavezes, “O que é que a baiana tem?”

O Carnaval é para ser cumprido ao ritmo do samba

Deixa a vida me levar, Zeca Pagodinho

Escrita pelo fluminense Sergio Meriti, “sou feliz e agradeço” é uma recepção apoteótica ao carnaval. Tudo corre bem, levantamos as mãos para o céu, “Se a coisa não sai do jeito que eu quero, também não me desespero, o negócio é deixar rolar…”

Sonho meu, Dona Ivone Lara

E porque o Carnaval é para ser apreciado com quem nos deixa contentes e divertidos, Dona Ivone Lara quer ter a seu lado “quem mora longe”. O ritmo desce o número de batidas por minuto e é a viola, mais do que os batuques, a marcar o compasso. Gravada tantas vezes e por tantos nomes diferentes, esta versão que escolhemos tem a “nossa” Carminho a fazer a ponte transatlântica.

O que é, o que é, Gonzaguinha

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz!”, cantado como se fizéssemos parte de uma escola que desfila na Sapucaí, é um verdadeiro hino que transpira Carnaval por todos os poros. Depois do baião do pai Gonzaga, o filho Gonzaguinha teve igual mestria quando se debruçou sobre o samba mas gostava era de “cantar a beleza de ser um eterno aprendiz.”

O bêbado e a equilibrista, João Bosco

Nascido durante a ditadura, este samba recorda Charlie Chaplin ao mesmo tempo que evoca os exilados pelo regime. Foi usado em 1979 numa campanha para amnistiar Herbert de Souza, o Betinho, que estava na altura a viver no México, mas foi revisitada recentemente depois da deposição de Dilma Rousseff.

Aquele Abraço, Gilberto Gil

É, talvez, a mais famosa música brasileira, apesar de ser menos conhecido o contexto em que nasceu. Quando a compôs em 1969, Gilberto Gil tinha a intenção de criar uma espécie de despedida musicada ao país que abandonaria em breve, rumo ao exílio em Londres. Mas hoje pode ser ouvida de outra forma, como um caloroso convite à folia do Rio de Janeiro que “continua lindo e continua sendo…”