A poesia escondida à vista de todos na Graça

Natália Correia, Angelina Vidal, Sophia de Mello Breyner e Florbela Espanca. Que magia tem a Graça para atrair tais talentos? A Goodyear foi investigar.

A Graça tem um segredo escondido. Ainda não descobrimos qual é, mas não duvidamos que ele existe e que tem alguma magia literária. Claro que neste antigo bairro operário nascido num dos pontos mais elevados da cidade, há uma forma altaneira de se olhar sobre Lisboa, mas algo mais aqui deve haver para trazer tanto brilho literário às suas gentes. Natália Correia, Angelina Vidal, Sophia de Mello Breyner e Florbela Espanca andaram por aqui e ainda hoje a Graça as respeita e recorda com carinho e orgulho. Venha com a Goodyear num passeio pelo típico bairro lisboeta, à procura da poesia que aqui vive.

A Graça não é nenhuma desconhecida para nós: os seus bairros operários são velhos favoritos e os miradouros são a nossa recomendação para o pôr do sol, mas é uma vizinhança que se descobre às camadas e parece haver sempre mais um segredo a revelar-se a cada esquina. O número de escritoras, mulheres pioneiras e arrojadas, que andou por aqui é surpreendente, assim como o é também o tributo que as gentes do bairro continuam a prestar-lhes. Deixámos o carro no Largo da Graça e fomos à descoberta dos seus sinais.

Sophia de Mello Breyner

A Graça de Sophia e Florbela

Sophia de Mello Breyner é a mais recente das poetisas que o bairro celebra. Falecida em 2004, é um nome maior da nossa literatura que o facto de ter sido a primeira mulher a receber o Prémio Camões ajuda a esclarecer. É a partir do miradouro que hoje em dia tem o seu nome que começamos este passeio pela Graça, naquele que é um dos mais famosos pontos de vista sobre a cidade. A escritora conhecia bem esta paisagem que se estende do rio até ao alto, passando a vista pelo Castelo, a Mouraria lá em baixo, a linha da Almirante Reis e o Martim Moniz, com o Bairro Alto a espreitar no horizonte. A esplanada aqui instalada costuma encher a partir do meio da tarde, mas a nossa recomendação vai para que a visite ainda durante a manhã: o ar fresco, o som dos pássaros do jardim ao lado e os sinos a marcar a hora na Igreja da Graça, transformam esta paisagem urbana em algo mais onírico que, com toda a certeza, Sophia conhecia e apreciava.

Para encontrar a próxima pista de Sophia, seguimos ao longo da principal rua do Bairro (Rua da Graça, claro), passamos a entrada para o Bairro Estrela de Ouro, e descobrimos, perto um do outro, dois murais que comemoram a literatura e a figura da poetisa. Mas tudo se mistura neste percurso e, na rua Josefa de Óbidos número 24, encontramos a casa onde Florbela Espanca vivia em 1922.

São Vicente

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
Florbela Espanca

O mais famoso poema de Florbela é recordado num mural pintado na esquina da Damasceno Monteiro e Travessa da Senhora do Monte, com a companhia de uma Natália Correia de cigarro na boca, imagem que lhe ficou associada, mas sabemos que ambas irão perdoar-nos: o mais importante fica do outro lado da rua, mesmo em frente. Num pequeno miradouro que se debruça sobre o Jardim da Cerca da Graça, assistimos a uma deliciosa vista sobre Lisboa que só não é tão conhecida porque temos aqui ao lado o miradouro da igreja e da Senhora do Monte, mais exuberantes. Sente-se nos bancos à sombra da árvore que aqui se ergue e aproveite para ler durante uns instantes, enquanto os habitantes locais trabalham nas hortas urbanas em frente.

A Graça boémia, do lusco-fusco

Como já falámos do por do sol da Graça e porque parece impossível dar dois passos no bairro sem nos cruzarmos com uma alguma vista excepcional sobre a cidade, vamos subir mais um pouco até ao monte mais elevado de Lisboa e, pelo caminho, cruzamo-nos com a casa de uma mulher também excepcional. Angelina Vidal foi professora e poetisa mas, acima de tudo, uma inteligente e determinada figura do humanismo, defensora dos operários que eram os principais habitantes do bairro e combatente dos direitos da mulher. Lisboa tinha em Angelina uma das suas figuras mais progressistas do princípio do séc. XX mas a monarquia não lhe guardava qualquer respeito e considerava-a uma “inimiga das instituições”. Morreu na miséria em 1917, nesta casa de esquina da Rua de São Gens, um dia depois de o governo republicano lhe restituir a pensão de sobrevivência que o antigo regime lhe tinha retirado.

Escolhemos a noite para rumar de regresso ao largo da Graça e, mesmo ao lado da Villa Souza, ter como último destino o Botequim. Este bar foi o local de tertúlias de Natália Correia, foi transformado em livraria depois da sua morte, mas voltou à sua ocupação boémia há cerca de oito anos. O espaço ainda está repleto de sinais da escritora e guarda uma decoração “retro” que, sem ser forçada, nos remete para um passado não muito longínquo, mas misterioso o suficiente. Felizmente, o Bairro da Graça começou a firmar-se na lista de destinos da noite lisboeta e o Botequim tem hoje os serões repletos de gente jovem, com ocasionais noites de música ao vivo e poesia, num local onde Natália não desdenharia passar um sábado à noite se ainda fosse viva. Já que aqui está, aproveite para jantar, porque os folhados recheados são muito recomendáveis.

A Graça está cada vez mais na moda, recebendo agora ainda mais visitantes, que já não se ficam só pela zona baixa da cidade. A verdade é que a sua mistura de população operária com boémios, estrangeiros e estudantes, não é uma novidade e aqui houve sempre uma movimentação muito própria, um coração de poetas e libertários que há muito que agita as artérias do bairro.