Espreitando o Gerês na procura dos cogumelos

No Gerês, nas Terras do Bouro, são frequentes grupos de caminhantes que, quando chega o fim-de-semana, percorrem os caminhos na procura de cogumelos

Quando chega o Outono surge no paladar uma necessidade de mudar os sabores do verão por outros mais adequados para a época. O frescor das iguarias do estio deixa lugar a uma fome nova pelos pratos quentes que antecipam o Inverno e transformam os nossos almoços.

Essa fome literal acompanha-se de uma outra mais literária, distinta: a de deixar para atrás o turismo de beira-mar e aproximar-se de paisagens diferentes e cheias de beleza no interior. Não é o outono a época certa para redescobrir o campo e os trilhos a pé em longuíssimas caminhadas de fim-de-semana?

As paisagens de Portugal mudam de norte a sul conforme climas diversos moldam escalas antagónicas de formas e cores. No Gerês, terra arraiana, encontramos umas montanhas protegidas nas duas bandas da fronteira sob a consideração de Parque Nacional. Para além da segunda maior altura do Portugal continental, achamos à sombra dos seus densos castanhedos e pinhais um tesouro de grande valor e fama crescente: os cogumelos.

É uma tradição que ganha ano após ano novos adeptos, espargindo-se pelo país em grupos de caminhantes que, quando chega o fim-de-semana, percorrem os caminhos na procura de um butim apreçado. No Gerês, nas Terras do Bouro, são frequentes os trilhos organizados que visam aproximar do visitante um acervo cultural e gastronómico que está no alvo de um novo modo de entender o turismo. Por aqui discorrem vereias excepcionais como o Trilho dos Moinhos de Santa Isabel do Monte, que se sustenta sobre a crua formosura.

Quase dezanove quilómetros de percuso com começo e finalização no mesmo ponto, classificado como fácil graças a uma sinalização em bom estado. Com altitude máxima de 850 metros e mínima de 554, é uma senda atraente e não excessivamente desafiante para quem quiser enfrentar pela primeira vez a caça do cogumelo por locais que são dos que tiram o alento.

Rota cogomelos - Quilometrosquecontam

Com início na aldeia de Campos Abades, próxima do moinho “Ponte do Moinho”, o trilho pode melhorar-se passando pela Escola do Monte (Centro Interpretativo de Santa Isabel), que permite obter material do percurso e até mesmo um Guia que permitindo o acesso aos moinhos oferece informações narrativas da rota. A caminhada prolonga-se entre as aldeias de Campos Abades, Rebordochão, Seara, Ventozelo e Alecrimes. No total são 29 moinhos que fazem parte desta rota pelas chãs e ribeiros da zona, que vão descobrindo o charme único das aldeias de montanha: os socalcos, as eiras, o sistema de rega, os espigueiros e as sequeiras… Lembre-se sempre de tirar fotografias (recordação única da sua visita) e respeitar os caminhos sinalizados, ademais de não abandonar lixo. O calçado e roupa têm de ser os adequados para esta pequena aventura pelo coração do país.

E os cogumelos? Pois sempre à espera do olho atento! Espreite ao pé dos carvalhais e os bosque que se remoinham em volta de si. O Gerês é lar de muitas espécies –tanto comestíveis quanto não, -e preciso saber-. A primeira espécie que podemos encontrar é um clássico da cultura popular e é chamada de um modo suficientemente gráfico: mata-bois, a amanita muscaria. Apesar deste nome desencorajador, há quem defenda que a sua ingestão não é perigosa desde que for praticada uma desintoxicação do produto. Contudo, costuma-se desaconselhar o seu consumo e lembre que, na micologia, sempre cumpre escutar o conselho dos que mais sabem.

Entre a camada superficial de folhas do bosque podem cintilar os reflexos dourados das cristas de galos, a Cantharellus Cibarius, um cogumelo comestível. O seu local parecido para surgir são as sombras de pinheiros, azinheiras e carvalhos: fique atento!

Antigamente, os cogumelos eram chamados de “carne dos pobres” pelo seu aspeto e sabor. Facilmente encontráveis, constituíam uma parte muito importante da dieta das gentes mais humildes. É fácil compreender por que razão: espécies como a língua-de-boi, de cor avermelhada, são muito parecidas com um bife cru. Junto de carvalhos e castanheiros têm o seu habitat. Outros cogumelos comuns na zona são míscaros (Boletus edulis) e míscaros amarelos (Tricholoma equestre), as sanchas (Lactarius deliciosus), os absós (Amanita caesarea) e os gasalhos (Macrolepiota procera).

Cogumelos - Quilometrosquecontam

Lembre-se de

Quando enfrentar pela primeira vez a tarefa de apanhar cogumelos, faça-se acompanhar por uma pessoa experiente e nunca tente experimentar você próprio aqueles que não consiga identificar, mesmo que cheirem bem. Nunca apanhe cogumelos velhos ou pequenos, nem aqueles que tenham sido mordidos ou arrancados por animais. E a melhor forma para comê-los é no mesmo dia e devidamente cozinhados. Os cogumelos crus são uma experiência desagradável ao paladar!

 

Alojamento

Um trilho de vinte quilómetros é libertador mas decerto que também maçador. Com os pés cansados e as energias gastas, irá seguramente querer dormir nas proximidades para aproveitar o domingo noutra senda –como o Trilho do Castelo- ou, se chegar na tarde do sábado, para dedicar o dia seguinte ao trilho dos moinhos e o dia da chegada à visita dos museus.

O Alojamento Local da Costa da Banga é uma escolha ótima fora das Terras do Bouro, perto da Vila do Gerês. Trata-se de um local de confraternização com outros viajantes, com ambiente acolhedor e familiar e onde poder organizar geo-caching, outros trilhos para as caminhadas e procurar informação sobre a comarca.

Mais próxima de Terras do Bouro, a Encostas da Torre oferece um marco incomparável do Minho e vistas panorâmicas das montanhas. Aliás, conta com campos de desporto e pode trazer, com pedido, o seu animal de estimação.

Para quem procurar um entorno mais clássico, a Quinta da Balança oferece uma casa de pedra do século XVI a 20 minutos do Parque Nacional. Com uma área ajardinada e vistas para o vale e a montanha, decerto que irá sentir-se transportado muito para atrás no tempo.

 

Um rico passado

O outono é a estação dos cogumelos, mas não só. Antigamente, no rural, a significação desta época estava ligada ao trabalho e à suor mais férteis. Era o tempo em que a batata, a cebola, a fava, o tomate ou o feijão eram semeados pelas mãos dos nossos avôs, que ainda encontravam tempo para cortarem os cereais e tosquiarem as ovelhas. Ademais, as cerejas já cintilavam nas árvores chamando pelo apetite. Este mundo se calhar já esquecido ainda surge perante os olhos do turista curioso em espaços como o Museu Etnográfico de Vilarinho das Furnas. Anegada a povoação original por uma barragem em 1972, o centro recolhe o legado daquela aldeia onde o tempo, infelizmente, não se deteve.

Nas salas do museu pode visitar a exposição fixa sobre a velha Vilarinho, que mostra a vivência do povo, incluindo reproduções do seu habitat e utensílio de vida. Aliás, também pode conhecer as Pegadinhas na Cultura do Linho, uma exposição temporária que visa transmitir de forma lúdica uma herança cultural sobre o trabalho e a indústria do linho, que antanho alimentou muitas famílias do concelho.

Concurso - Quilometrosquecontam

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