Montesinho: onde não há fronteiras

O que fazer em Trás-os-Montes, durante uma visita ao Parque Natural de Montesinho

Ao contrário do Gerês, Montesinho é uma das zonas do interior desconhecido pela maioria dos portugueses. Entre Bragança e Puebla de Sanabria, com o místico Rio D´Onor no meio, há uma região quase intocada, onde ainda se recordam os ancestrais rituais de trabalho na terra e as casas guardam sempre aroma de fumeiro. No Parque Natural de Montesinho encontramos Trás-os-montes tão genuíno como pode ser, um dos destinos de fim de semana mais mágicos de Portugal.

 

Dois dias em Trás-os-Montes

Estamos já longe do tempo em que “de Lisboa a Bragança são nove horas de distância”, e a cidade é agora bem servida pela A4. Contudo, mais próxima de Espanha do que qualquer outra cidade portuguesa, ganhou carácter e “personalidade” muito próprias, o que nunca a impediu de ser acolhedora e receber bem os forasteiros. Temos aqui muitos motivos de interesse para uma tarde de passeio pelas suas ruas e Castelo, em busca de sinais de D. Fernando, ou em visita aos produtores locais, com a missão de encontrar as típicas alheiras.

 

“O lado selvagem”

Numa visita ao Parque Natural de Montesinho, as hipóteses de locais para ficar são variadas e para todo o tipo de bolsas e interesses. Poderá optar por ficar em Bragança, que funciona como porta de entrada privilegiada para o parque, ou em pleno “verde” numa das muitas ofertas de turismo rural aqui disponíveis. Esta segunda opção é mais cómoda se pretende realizar passeios equestres ou pedestres, BTT ou canoagem e permite-lhe conhecer os rituais rurais de aldeias como Gimonde, França ou Gondosende. A A.Montesinho e a Turismo de Natureza são dois operadores locais com uma série de casas rurais, bungallows e até um parque de campismo para que possa escolher o melhor para si.

Montesinho - Quilometrosquecontam

Em volta dos Montes

Miguel Torga, sobre Trás-os Montes: “Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo.” Seja de carro pelo parque ou num dos muitos passeios a pé que aqui podemos fazer, Montesinho convence-nos dessa magia e maravilha. Aqui a paisagem transmontana parece mais genuína e singular, os sobreiros e as amendoeiras mostram com orgulho a sua vivacidade e a vida animal continua bem presente. Aqui ainda podemos ver aves como a Garça, o Abutre do Egipto, a Águia-real, a Cegonha negra, o corço, o veado, o javali, a raposa e o lobo.

 

E o Homem não é indiferente a nada disto: ainda hoje o calendário é marcado pelos rituais da terra, memórias de usos e costumes ancestrais que, lado a lado com as novas tecnologias do trabalho rural, ainda subsistem. São assim as “Festas dos Rapazes” da Lombada por altura do Natal e dos Reis, ou os Caretos que também aqui se passeiam no Carnaval.

 

É só uma linha

Se atravessarmos todo o parque pela N308, chegamos a uma pequena rotunda onde vemos dois grupos de idosas a conversar. Uma placa anuncia que de um lado estamos em Portugal e do outro em Espanha. As vestes negras, os gestos e as caras são quase os mesmos, mas de um lado diz-se “Rio de Onor” e do outro “Rihonor”.

O sinal maior do singular “país” que se esconde nestes vales está bem à vista aqui, nesta pequena localidade mesmo em cima da linha de fronteira. A memória (e as gentes) começa a desaparecer, mas aqui ainda se praticam hábitos de trabalho comunitário: o forno é partilhado por toda a aldeia, o terreno de cultivo é gerido por todos e o tratamento do rebanho é alternado. Estudada por antropólogos e etnógrafos é, apesar disso, um dos locais mais remotos do país e, também por isso, de visita obrigatória.

 

 

Para lá da fronteira

Como vizinho, o parque natural de Montesinho tem o seu homólogo espanhol de Sanabria que é igualmente merecedor de atenção. Se decidir passar a fronteira, deixamos-lhe duas recomendações imperdíveis: Puebla de Sanabria, a cidade mais próxima, é um delicioso recanto cheio de traços medievais que guardam registo desde o séc. VI. Um pouco mais a norte, o lago de Sanabria é o maior dos glaciais da península e apresenta uma vista magnífica para quem o vê a partir do mosteiro de San Martin de Castaneda.

Vivemos num país pequeno que, apesar disso, continua a guardar regiões despovoadas e agrestes que pouco mudam ao longo dos anos, onde a vida parece ficar para sempre suspensa nas manhãs de nevoeiro que caracterizam Montesinho nesta altura do ano. Até o cheiro da terra parece diferente no nordeste transmontano…