Em português, a plenos pulmões!

Um top 10 para manter a boa disposição e humor, só com clássicos da pop e rock portuguesa

Quantas vezes já não fomos apanhados parados no semáforo a cantar (ou mesmo a gritar…) aquele refrão que nos caiu no goto recentemente? Se o leitor for como nós já conta com bastantes audições no estúdio (vulgo: ao volante do seu carro) e tem com certeza a sua lista de refrões mais viciantes. O quê? Nunca pensou nisso? Quando chegar ao fim desta playlist terá com certeza pistas mais do que suficientes para criar o seu próprio top ten dos refrões mais marcantes da música portuguesa.

 

Refrões que viciam

Há dias assim: acordamos bem dispostos, queremos contagiar todos à nossa volta e quem sabe não encontramos num verso a mensagem que queremos oferecer ao mundo? É nesses dias que procuramos o elixir nos clássicos do rock português. Que não se ofendam os  anglófilos, mas quando queremos combater a neura no trânsito é em português que gostamos de espantar os males. E, porque fomos ao báu dos clássicos, a nossa playlist de refrões viciantes divide-se em Lado A e Lado B,  uma homenagem às cassetes nas quais ouvimos estes temas pela primeira vez.

 

Lado A

 1. Portugal na CEE – GNR. Era um tempo diferente e quase parece ingénuo cantar agora que “queremos ver Portugal na CEE”, mas esta linha de baixo podia ser a própria definição de “viciante”. No princípio dos 80, a Europa era um sonho optimista e esperançoso e os GNR eram um grupo jovem e aguerrido com vontade de romper. Muito mudou desde então, mas desafiamos o leitor a ouvir esta canção sem berrar na altura do refrão. Vai ver que não consegue.

2. Elevador da Glória – Rádio Macau. “Ele” ainda lá está. O elevador da Glória continua a levar turistas dos Restauradores até ao Bairo Alto, “duma existência banal até às luzes da ribalta”. Era esse o trajecto quando os Rádio Macau gravaram o álbum com o mesmo nome: de onde os lisboetas se cruzavam, no caminho para o trabalho, até à boémia noctívaga. Foi o álbum mais pop da banda e guarda ainda mais umas quantas pérolas da arte de bem compor refrões, como “Anzol” ou “Cidade Fantasma”.

3. Remar, Remar – Xutos & Pontapés. Fazer uma lista dos refrões mais “orelhudos” das últimas décadas da música portuguesa sem incluir pelo menos uma canção de Tim+Zé Pedro+João Cabeleira+Kalú seria quase um crime de “lesa majestade”. Escolhemos “Remar, Remar” porque soa a hino, a um manifesto de combate contra as vagas que nos empurram, e é o mantra perfeito para nos dar energia para mais um dia de trabalho: “remar remar… forçar a corrente”.

4. Rua do Carmo – UHF. Se há pouco subimos até ao Bairro Alto com os Rádio Macau, agora descemos o Chiado com António Manuel Ribeiro, para um retrato bem pitoresco de Lisboa nos anos 80. Ainda não tinha sucedido a catástrofe do incêndio dos Armazéns e ainda não se tinha iniciado a sua nova vida, mas a descrição dos UHF parece ter sido escrita ontem.

5. Rapariguinha do Shopping – Rui Veloso. Hoje em dia as rapariguinhas do shopping já não fazem “tricot no banco do autocarro” e não abanam a anca ao som dos Bee Gees, mas continuam a existir nos centros comerciais de todo o país e a irem ao “sábado à noite à boite” (mesmo que agora lhe chamem “club” ou só se fiquem pelas ruas do Cais do Sodré). Sim, “you should be dancin´, yeah”.

Lista spotify - Quilometrosquecontam

 Lado B

 6. É p´ra Amanhã – António Variações. Viramos o disco e largamos um pouco as guitarras. Também na pop, a música portuguesa é pródiga em grandes refrões e poucos deixaram obra como António Variações. A sua perspicácia e amor quando o tema é o “povo”, tiveram como resultado canções com as quais todos nos conseguimos identificar. Haverá coisa mais portuguesa do que deixar para amanhã o que poderíamos fazer hoje?

 

7. Foram Cardos, Foram Prosas – Manuela Moura Guedes. Foi uma aventura fugaz, mas Moura Guedes estava acompanhada de gente como Miguel Esteves Cardoso, Ricardo Camacho (Sétima Legião), Vitor Rua e Rui Reininho (GNR), o que resultou em, pelo menos, uma grande canção. O álbum estava claramente à frente do seu tempo e o seu tema mais conhecido era afinal um lado B do single de promoção, mas o refrão de “Foram Cardos” fica para história da música em português como um dos seus momentos de ouro.

 

8. Amor (Parte I) – Heróis do mar. “Amor” foi o primeiro ensaio da banda de Pregal da Cunha a aterrar nas pistas e, numa altura em que a dança ainda ia contra o espírito punk da época, teve muitos detractores. Mas não foram precisos muitos anos para que se tornasse um clássico. O tom lascivo da letra ajudava à mescla dos corpos de qualquer boite em meados dos anos 80 e, ainda hoje, faz parte de muitas juras de amor. Trinta anos depois, “ainda não nos mataram o desejo”.

 

9. Sete Mares – Sétima Legião. No seu tema mais conhecido, os Sétima conseguiram sintetizar uma geração. Com uma letra que nos leva de regresso ao passado, mas com a vontade de partir para novas paragens, eram os mesmos jovens que cresciam com Joy Division e com orgulho na História de um país. Quem não sonha entregar-se ao vento que o leve para sul?…

 

10. Dança Nua – Essa Entente. Acabamos em tom delico-doce, mas com o “refrão para matar todos os refrões”. Os Essa Entente tiveram vida mais curta do que o seu talento parecia indicar, mas mais de 20 anos depois, a simplicidade infecciosa com que o coro final cresce  e obriga o ouvinte a juntar-se e a entoar bem alto “venham mais duas”, justifica a sua presença em qualquer lista dos grandes momentos da pop portuguesa.