Aldeias do Xisto: rota pelas cores e cheiros do outono

Entre serras brutas e águas que correm livres, as Aldeias do Xisto levam-nos à (re)descoberta do turismo rural. Foi tarefa complicada escolher apenas 10!

Apesar do ar rude da pedra e dos tons da terra, as Aldeias do Xisto são pérolas escondidas. Preservam memórias, tradições e saberes antigos nas encostas escarpadas e vales profundos do Centro e estão à sua espera. Numa zona que se estende entre os distritos de Coimbra e Castelo Branco há uma identidade muito própria. Há hábitos serranos, alguns saltos para o outro lado da fronteira e uma história ancestral que importa preservar. Venha connosco conhecer 10 Aldeias do Xisto que tem mesmo que conhecer.

    As 27 aldeias da rede ganharam o nome devido ao material de construção usado, abundante nas encostas destas serras. Muitas destas povoações estão ou estiveram em risco de ruína e abandono, recebendo agora nova vida. A rede das Aldeias do Xisto estabeleceu-se no terreno, traz visitantes à região e tem sido importante fator na recuperação destas localidades. Mas, muito mais do que uma proposta turística, é um passeio por um outro tipo de História de Portugal. Aqui não há grandes monumentos ou locais de batalhas históricas. Em vez disso, nestas aldeias fazemos um percurso por tradições que ninguém consegue datar, por um país que nunca deixou de existir. Ao mesmo tempo, a paisagem natural, os rios e praias, as encostas e fragas, é única e apela ao turismo activo. Passeios de bicicleta, canoagem, escalada, rappel ou slide são algumas das opções para os desportistas.

     

    Aldeia das Dez

    O percurso até ao alto do Colcurinho é para ser feito com cuidado e atenção. É verdade que a estrada exige olho atento na condução, mas é a paisagem que nos distrai. A região é um miradouro por excelência e a partir da Aldeia das Dez parece ter ainda mais brilho. A localidade em si é um pouco diferente das que vimos até agora. Construída em granito, tem um ar mais “senhorial” do que os edifícios utilitários que encontramos antes. Para provar os pratos locais, recomendamos o Plano 5, que oferece uma vista deslumbrante para acompanhar a refeição. Visite ainda o miradouro da Saudade para avistar o Alvôco e o Alva a encontrarem-se na Ponte das Três Entradas.

    Cerdeira

    Serra da Lousã

    Depois de passarmos a ponte vemos a forma desordenada como as casa se agrupam na Cerdeira. É um cenário romântico onde a natureza impõe a sua própria organização. Apesar de tranquila, há nesta aldeia um pulsar bem forte. Tal como outros exemplos desta lista, está a ser redescoberta por uma geração mais jovem, alguns artistas e criadores que vieram aqui inspirar-se. Organizam-se residências artísticas internacionais, workshops criativos e até um festival. A Casa das Artes, os ateliers, a Biblioteca, a Galeria, o Forno comunitário e o Café da Videira fazem parte desta nova vida da aldeia.

    Pena

    No fundo de um vale abrigado pelos penedos de Góis, a Aldeia de Pena parece desafiar a gravidade. As águas cristalinas da ribeira, a sombra destas rochas e os castanheiros que nos rodeiam marcam a paisagem. Faça em seguida o percurso até ao alto do Trevim, que o levará pela estrada que atravessa Aigra Velha, Aigra Nova e Camareira, outras três aldeias desta rede.

    Talasnal

    Com a serra a emprestar o cenário, a vista do Talasnal é digna de postal ilustrado. Bem recuperada e cuidada, a aldeia tem apenas um habitante durante a semana mas é regularmente visitada. Recomenda-se o percurso a pé entre o Castelo da Lousã e o Talasnal, passando por Casal Novo, com a ribeira de São João por companhia. Se chegar com apetite, visite a Ti’ Lena para provar os Talasnicos e o tradicional cabrito. Devido à reduzida presença humana, avistar javalis, raposas e corças é uma ocorrência comum nas estradas em redor.

    Casal de São Simão

    O ponto mais alto da Serra da Lousã é o Alto do Trevim, de onde podemos ter uma das melhores vistas sobre a região. Aqui moram veados, corças e javalis e, aqui e ali, o ocasional ser humano. Casal de São Simão é um desses exemplos. Fica sobre um vale e, depois de ter tido mais de 100 habitantes no passado, está agora a ganhar novos ocupantes. Moradores mais jovens começaram a comprar e a recuperar as casas e a aldeia recuperou o seu charme. Apesar disso, não tem muito mais do que uma rua, uma fonte e uma capela, pois não precisa de mais. Visite também as Fragas de São Simão, uma grande escarpa junto à qual encontramos uma bonita praia fluvial.

    Fajão

    Em Fajão, no adro da igreja, a Fonte Velha recorda-nos que esta é uma terra marcada pela frescura das águas do Ceira. Apesar de fria, a corrente que aqui passa é tão límpida que é quase pecado não mergulhar. Em redor há penedos e outros desafios para quem faz escalada, a Mata da Margaraça é o último reduto da vegetação original da região e Fraga da Pena é uma bela cascata de cerca de 70 metros. Recomenda-se O Juiz para provar os sabores locais e o Museu Nunes Pereira para conhecer a história da aldeia.

    Janeiro de Cima

    Fraga da Pena

    Janeiro de Cima e de Baixo eram ligados por barcas que diminuíam o afastamento provocado pelo Zêzere. Hoje em dia é possível ver uma réplica destas embarcações na praia fluvial, mas o percurso é já feito de carro. O centro é um emaranhado de ruas onde encontramos pitorescos recantos e edifícios recuperados com pedras retiradas do leito do. rio Na casa das tecedeiras trabalha-se o linho segundo métodos tradicionais e é possível assistir ao trabalho das artesãs locais e comprar peças originais. Nas margens do Zêzere encontramos lontras e águias pesqueiras e o rio é local de prática de canoagem.

    Pedrógão Pequeno

    Branca, devido à construção em granito e aos rebocos, Pedrógão Pequeno é uma localidade singular. Teve um período de crescimento quando recebeu os trabalhadores da Barragem do Cabril mas recebe agora diferentes visitantes. Faça a estrada que o leva até ao Zêzere para descobrir a ponte Filipina e espreite a vista do alto da Senhora da Confiança. Visite a capela de Nossa Senhora das Águas Feras, a ermida ou a igreja matriz para conhecer o património monumental. No fim do passeio, o Rainha do Zêzere está à sua espera com uma malga de sopa de peixe.

    Figueira

    Aldeia verdadeiramente de espírito rural e tradição comunitária, Figueira é rodeada de olivais, a produção tradicional da localidade. O povoado é um pequeno labirinto de ruelas empedradas, quebradas pelos quintais e pequenos terrenos agrícolas. O forno comunitário ainda está em operação mas ao longo da ribeira os moinhos já estão inativos. Na loja Aldeias de Xisto, à entrada da aldeia, poderá abastecer-se do pão acabado de fazer ou descansar na esplanada. No mesmo edifício fica ainda Casa Ti’Augusta, restaurante típico onde se come guisado de cabra ou plangaio, um enchido regional.

    Sarzedas

    A partir da torre sineira de Sarzedas podemos espreitar a aldeia e perceber a sua singularidade. Casas rebocadas a esconder a pedra e de dimensões mais generosas, mostram que aqui havia uma população mais rica. O passado nobre vê-se ainda no seu património de igrejas e capelas, mas o presente chega através de um novo fôlego. Os espaços comunitários e vários edifícios foram recuperados e é um prazer fazer aqui uma pequena pausa. As ruínas de um antigo castelo medieval atestam que o Homem tenta dominar estas paragens desde há muito tempo.