Cascais na entrelinha: a rota dos escritores

Vamos procurar o rasto de Herberto Helder, Almeida Garret, Fernando Pessoa, Mircea Eliade…

Foi primeiro o grande Vaz de Camões que visitou a terra de Cascais para dedicar ao senhor que lá mandava uns versos pouco amáveis. Mas não foi aquela primeira passagem de um literato português a última a que esta vila estava destinada, como testemunha o gigantesco número de nomes das nossas letras que encontramos ligados a este lugar.

De Cascais é fácil conhecer, antes de a visitar, as suas famosas paisagens, as douradas praias e o seu amplo catálogo de edifícios e restos históricos: os fortes que até bem avançado o século XIX protegiam Lisboa, as casas senhoriais da nobreza do país e um grande número de ruínas romanas e visigóticas, que atingem tanto vilas quanto necrópoles daquele tempo. Mas, ao preparar um passeio literário que a próprio Câmara municipal programa como um dos grandes ex-líbris da cidade, é que podemos descobrir a profundíssima pegada dos nossos escritores entre os becos e ruas mais recônditos da vila. Pois aqui vieram muitos dos que deixaram o nome gravado em ouro no panteão da literatura nacional, já for por longas estadias, férias ou até exílio.

Se iniciarmos a nossa visita pelo Jardim Visconde da Luz começaremos a seguir os passos de Almeida Garret, a mais destacada figura do romantismo nacional e pessoa mesmo multifacetada: par do reino, ministro, orador… e também, é claro, dramaturgo. O grande precursor da literatura de viagens com Viagens na minha terra veio encontrar aqui um descanso apartado e a paz da “solidão” que envolvia o Estoril. Hoje o lugar é um restaurante afamado, quase insígnia da vila, onde entrar em contacto com a gastronomia real para enfrentar com força o passeio posterior.

Mais cerca do mar, rumoroso acaso por lembrar o eco dos versos do poeta, vamos procurar o rasto de Herberto Helder, o mais importante vate da nossa literatura na segunda metade do século passado. Homem também multifacetado, como costuma passar-se com os artistas, foi Helder bibliotecário, tradutor, locutor radiofónico e jornalista. Era em vida uma pessoa reservada e mesmo misteriosa, inimiga das homenagens públicas e as entrevistas. Residia há muitos anos cá em Cascais, no 383 da Rua Frederico Arouca, e aqui foi publicado postumamente Poemas Canhotos, o seu derradeiro livro. Com o mar na frente, é fácil imaginar neste passeio as caminhadas crepusculares deste gigante das letras.

A rota dos escritores

A terceira paragem no percurso é muito perto, a apenas três minutos a caminho para o sul. Mircea Eliade não era português, mas morou no nosso país durante cinco anos, tempo em que considerou conhecer bem o suficiente os seus vizinhos nativos. Ensaísta e romancista, a Rua da Saudade 13 acolheu a sua estadia lusa, prelúdio da parisiense e da americana, uma vez que fora proibido de voltar ao seu país pelo sistema político instaurado após a II Guerra Mundial. Na altura em que morou cá, em 1941, descreveu “uma ruela pitoresca, possuindo um pequeno terraço sobre os rochedos avançando sobre o oceano”. A rua continua a ser pitoresca hoje, com certeza, porque há coisas que afortunadamente nunca mudam.  

É surpreendente o breve espaço em que tantas letras se juntaram em Cascais: só 97 metros separam este local do número 1 da Rua Fernandes Tomás onde Maria Amália Vaz de Carvalho morou e juntou em longos convívios outros grandes nomes do seu tempo como Eça de Queiroz. A poetisa, primeira mulher integrante da Academia das Ciências de Lisboa, obteve esta Vila de Dom Pedro dos Duques de Palmela graças à sua obra Vida do Duque de Palmelo Dom Pedro de Sousa e Holstein.

Se continuarmos caminhando por mais quatro minutos chegaremos à Alameda dos Combatentes da Grande Guerra, antigamente Rua Oriental do Passeio. Cá morou um nome que todo português conhece: Fernando Pessoa. Já em 1929 tinha manifestado a vontade de se mudar para a vila, onde passou épocas mais ou menos longas. Se calhar foi aqui onde teve o seu secreto e misterioso encontro com Aleister Crowley, famoso mago inglês, que inspiraria uma novela policial. Com esse esplendoroso mar azul que o visitante enxerga no final da avenida alimentou Mensagem, o seu único livro de poesia publicado em vida.

Continuando à beira do mar, deixando atrás a Marina e o Farol de Santa Maria, acabaremos o passeio na Avenida de Humberto II Rei de Itália. O caminho é mais curto pelo interior, mas muito mais gratificante contra o azul toldado da tarde. Na Casa de São Bernardo podemos descobrir a pegada do derradeiro gigante deste passeio, Eça de Queiroz. A casa era propriedade do Conde de Arnoso, amigo dele, e aqui se reuniam os “Vencidos da vida”, um grupo ligado à chamada de Geração dos 70. Imaginando aquelas longas tertúlias com o mar lá na frente, se calhar teremos desvendado o grande mistério que trouxe tantos (e tão bons) literatos até a Cascais.