Ponte de Lima, um filme de romanos

Qual é o mistério que encerra Ponte de Lima, onde tantas civilizações semearam um rasto indelével?

As terras que rodeiam o rio Lima foram solar de romanos e longas guerras contra os seus primeiros moradores. Adivinha-se um passado rico em aventuras em toda a parte, com um património pré-romano e romano muito forte e ainda vivo que salpica toda a região e mantém acesa a chama de uma história milenar.

O Rio Lima nasce do outro lado da fronteira, na terra de Xinzo (Ourense), e entra no nosso país atravessando o Parque Nacional da Peneda-Gerês, deixando nas suas beiras umas vilas de beleza arrebatadora e silêncio melancólico, de Ponte de Lima a Lindoso, como se as mãos que lhes deram forma repousassem num descanso merecido e secular.

A nossa rota começa em Paredes de Coura, entre encostas sinuosas e extraordinariamente verdes. Aqui e acolá surgem aldeias tranquilas entre a paisagem florestal, como se quisessem saudar-nos desde um tempo distante e misterioso. Paredes alça-se no centro mesmo daquela velha via romana que antigamente ligava Tui, na Espanha, com Braga, importantíssima cidade nos tempos posteriores à queda do Império Romano. A Igreja românica de São Pedro de Rubiães merece uma visita, declarada já de modo centenário monumento nacional. A Casa Grande de Romarigães, lembrada pelo literato Aquilino Ribeiro, é outro lugar para visitar na mesma freguesia, uma casa oitocentista e nobre de taciturno rosto sob o céu toldado. Toda Paredes é uma povoação medieval que com lástima temos de abandonar para pegar a estrada 306 que nos conduz até o miradouro de Rendufe. Não podemos perdoar aqui uma paragem obrigatória para desfrutar das vistas sobre as colinas e regatos que cobrem todo o horizonte à volta.

Ponte - Quilometrosquecontam

Encaminhamo-nos a Brandara seguindo os velhos caminhos romanos muito apartados da autoestrada. Pela A3 apreçamos melhor as paisagens que um dia longínquo aqueles homens também contemplaram. Na saída 11 continuamos pela EN 202 até chegarmos, agora sim, a Ponte de Lima. Tem fama de ser a vila mais antiga de Portugal, e guardiã perene durante grande parte da sua história da única ponte segura da região. Foi esta característica que transformou a imagem da vila com o passo dos séculos, obrigando a construir uma muralha defensiva que criou um burgo medieval do qual ainda restam duas torres (de nove) e ruínas das estruturas defensivas desta povoação historicamente situada num tormentoso ponto onde chocavam os interesses dos reinos medievais da altura.

Em Ponte da Lima podemos começar a visita por uma dessas torres sobreviventes, a Torre da Cadeia, e continuar pela Praça de Camões. A ponte, por onde passou um dia a via romana, tem 27 arcos e observa como flui, se calhar com saudades, este rio que vai morrer a Viana de Castelo como quiçá tantos guerreiros da antiguidade que já viu passar.

>Subimos agora o percurso do próprio rio até Ponte da Barca, onde encontramos mais uma ponte a sulcar o Lima. Continuamos pela N 101 até Arcos de Valdevez, antigamente um cruzamento de caminhos de especial importância que testemunha o seu conjunto de pontes medievais. A 202 leva-nos logo a seguir a Soajo, uma aldeia típica da região que conserva ainda um monte de espigueiros para o milho que parecem ter detido o tempo com a sua força ancestral e popular. Muito perto, seguindo uma das duas estradas que saem da vila, chegamos a Lindoso, onde outra coleção de espigueiros rivaliza com esta. Se colhermos a outra estrada chegaremos, atravessando uma serra como dentes de gigantes, a uma região repleta de monumentos megalíticos de especial interesse histórico.

Há ainda uma terceira escolha em Lindoso, para nós a melhor: o caminho rural de 10 km de comprimento que cruza a serra e sobe até ao topo de Amarela, com 1.359 metros de altitude. Deixe cair, então, o olhar sobre o rio Lima e sinta, no vento, as vozes de tantas gentes e tantos povos que modelaram a alma de uma das regiões mais misteriosas do país.