Roteiro gastronómico por Leiria: os sabores do Lis

Fomos até Leiria conhecer uma das mais extensas e completas ofertas gastronómicas do país e, do peixe da Nazaré ao Leitão da Boa Vista, ficámos fãs de tudo!

Com um território que nos leva de Pedrógão Grande a Peniche, passando por Alcobaça, Nazaré ou Caldas da Rainha, o distrito de Leiria é casa para uma gastronomia muito diversa e original. Tem os frutos do mar a aparecerem à mesa na forma de uma das melhores caldeiradas do país, mas tem também cabrito assado, morcela, belíssima fruta e os curiosos chícharos de Alvaiázere. Para terminar a refeição com uma injeção de doçura não há nada como as Brisas do Lis, mas se vier até Leiria só para comer não lhe vão faltar argumentos para perder a linha e a cabeça. Fique a conhecer os nossos destaques para uma visita gastronómica à região.

A cidade de Leiria está suficientemente perto do mar para receber as boas influências da Nazaré e Peniche, por isso tem arte q.b. quando toca a servir-nos sopa de marisco, feijoada de chocos, grelhados e caldeirada de peixe. Por outro lado, as serranias circundantes são local de eleição para criar os animais que servem de matéria prima para a chanfana, friginada, leitão à moda da Boa Vista ou o guisado de carneiro. A acompanhar, os vinhos do Vale do Lis e Encostas de Aire, são os néctares obrigatórios para ajudar a empurrar.

Caldeirada de Leiria

Um museu gastronómico interativo?

Com tantas opções no cardápio não surpreende que uma das mais famosas capelinhas da gastronomia nacional tenha nascido exatamente nesta região. O Tromba Rija já teve direito a variados prémios e nomeações, mas é preciso ir até Marrazes para percebermos qual é afinal o seu segredo. Depois de tantas recomendações que já tínhamos recebido sobre este espaço, logo desde a primeira vez que aqui estivemos que o incluímos dentro da categoria dos “míticos”, um daqueles locais que que só através do paladar pode ser entendido. O espaço funciona em regime de buffet, com menus de degustação muito extensos que trazem muitos dos ex-libris do país e ainda algumas surpresas. Para além dos enchidos regionais, que incluem a morcela de arroz e chouriços caseiros, há uma mesa de queijos e doces onde pontifica o Rabaçal em competição com os Papos de Anjo e a charcada. Haja estômago para isto tudo! Como prato principal, a nossa recomendação é a Feijoada à Tromba Rija ou a perdiz estufada com lombarda. Para ajudar a empurrar, a carta de vinhos é igualmente completa mas a nossa recomendação vai, naturalmente, para os Vinhos das Terras de Sicó produzidos na região desde o tempo dos romanos.

À vista do Castelo de Leiria

Do alto de uma elevação com vista para a encosta do Castelo de Leiria, o Matilde Noca é o sucessor da Taberna do Ti Noca, com outro tipo de apresentação e cuidado com o cliente, num espaço mais moderno e amplo. Já desde 1991 que está aqui, mas foi em 2004 que se remodelou e adquiriu o aspeto que tem hoje. Logo a partir do momento em que são servidas as entradas que temos que dizer adeus às preocupações com a linha: chegam as saladas de ovas, de feijão-frade, de polvo, de orelha, de legumes com maionese, croquetes, rissóis, moelas e azeitonas, e quase que perdemos a cabeça antes do prato principal. Aqui, e para manter a opção pelos pratos da região, escolhemos o cabrito assado típico do norte do distrito, mas não ficaríamos mal servidos com o bacalhau com batatas a murro ou a cabidela de galo. A mãe Matilde já deixou a gestão do espaço para os seus dois filhos, a oferta e o serviço modernizaram-se, mas é ainda um dos melhores restaurantes de Leiria.

Comer como um rei (ou um marquês!)

À entrada de Pombal basta chegar ao parque de estacionamento do Manjar do Marquês para perceber que se prepara aqui algo de especial, tal é a afluência e quantidade carros parados. Não é normal que tanta gente possa estar errada. E não está! Há quem faça muitos quilómetros só para vir comer os filetes com arroz de tomate, o famoso “malandrinho”, os rojões com migas ou a morcela de arroz. Come-se ainda o Borrego à moda de Pombal, cabrito e leitão assados, arroz de entrecosto com grelos, favinhas saloias e arroz de carnes aldeão, tudo pratos típicos da região, feitos com mestria e carinho. Apesar do tamanho e de ter sempre gente a entrar e a sair, consegue o feito de dar um sabor caseiro a tudo o que chega à mesa e essa já é uma magia rara hoje em dia.

Terminamos a nossa visita gastronómica a Leiria no Casinha Velha, novamente em Marrazes, um espaço mais pequeno do que os anteriores mas, sem desprimor para nenhum deles, talvez mais genuíno e acolhedor por isso. Na Casinha Velha a origem caseira é uma característica dominante. Começando pelo pão, que inclui diferentes tipos, até às compotas e aos enchidos. O pato com que é feito o arroz é mudo, o galo assado no forno é capão. O bacalhau, este fora do circuito caseiro, é de cura amarela. Recomendam-se os excelentes cabrito e galo assados, o ensopado de robalo ou a fritada com açorda, e é preciso ter “cuidado” com a morcela de arroz e folhado de queijo com que nos presenteiam nas entradas. O fim da refeição faz-se na companhia de conventuais como o pão de rala ou o papão de anjo.

Depois de tudo isto, se ainda houver espaço e estamina, visite a pastelaria LuziClara para provar as Brisas do Lis, exemplo da doçaria conventual nascido no convento de Santana já demolido. De seguida, desça até ao rio que deu o nome à bomba calórica que acabou de ingerir e faça como os locais, a “desmoer” ao longo das margens unidas por pequenas pontes, à sombra das árvores deste jardim. Além de nos alimentar muito bem, Leiria ainda nos oferece uma paisagem perfeita para a digestão. O que mais se pode pedir?