O eco das velhas salas

22 Setembro | 2016 | Goodyear

A luz incidia sobre o ecrã e este devolvia imagens sem cor. Os atores do cinema clássico povoavam aquelas horas. Ninguém conhecia os significados das palavras televisão ou DVD, e ver um filme era sinónimo de sair de casa e estabelecer uma relação social com outras pessoas. Na bilheteira conversava-se, no bar desfrutava-se de um refrigerante entre sessões e ninguém sonhava com filmes no computador. De facto, ninguém sonhava ainda com computadores. Era o tempo dos primeiros cinemas em Portugal.

Uma época acabada e esquecida. Muitas daquelas salas clássicas desapareceram, mudaram a sua função ou diretamente foram demolidas e substituídas por construções modernas. A maior parte da memória dos nossos primeiros cinemas está perdida, soterrada sob a inclemente passagem do tempo e as mudanças nas cidades. Quase nenhuma sala antiga dispõe de um simples monumento, uma lembrança do que lá existiu um dia.

projetor de cinema

Felizmente, há ainda formas, para os apaixonados pelo cinema, de se aproximar daqueles espaços e conhecer os locais onde o nosso país se abriu ao grande ecrã. Os cinemas dos nossos avôs, onde muitos dos grandes filmes da história foram exibidos, estão muito perto de nós. Iniciativas como o “Salão Piolho” da Fundação Inatel trouxeram neste verão o cinema de volta para os velhos locais de exibição em Lisboa, em pé ou não, reconciliando o passado com o presente.

Convento das Bernardas e Palácio da Regaleira

Um exemplo disto foi a projeção no Convento das Bernardas, edifício de 1653 reconstruído em 1758 apos o terramoto de Lisboa e onde em 1924 foi inaugurado o Cine Esperança. Neste velho espaço cinematográfico está hoje sediado o Museu da Marioneta, num espaço dinâmico e de múltiplas funções onde também existe a coletividade do bairro e um restaurante. Ir conhecer os espetáculos de marionetas atualmente supõe também a oportunidade de conhecer um pedaço aparentemente perdido da história de Lisboa, onde os primeiros filmes de figuras como Manoel de Oliveira foram exibidos na sua estreia. No verão, cá voltou “Aniki Bobó”, a ópera prima do diretor, de 1942, filmada oito anos antes do encerramento do cinema.

 

No atual Consulado Geral do Brasil encontramos outro dos locais que serviram para o ato social que o cinema era naquela altura. O ano era 1929, começava a grande Depressão nos Estados Unidos e, em Lisboa, abria as suas portas o Max Cine. Uma sala de sóbria decoração que podia acolher até 700 pessoas, que funcionou até 1968 como cinema de reprise.

No Palácio da Regaleira, onde hoje é sediado o salão nobre da Ordem dos Advogados, existiu um muito antigo cinema de breve funcionamento, o Rocio Palace (1910-1914). Era um salão de espetáculos variados que, para lá de cinema, albergava teatro e variedades. Visitar a Quinta da Regaleira, como já temos feito em mais ocasiões neste blogue, é uma oportunidade única para, para lá da magia do cinema, conhecer a que impregna o local no seu bosque, o patamar dos deuses ou o misterioso poço iniciático maçónico.

Também no Porto

Ainda que foi Lisboa a mais numerosa em cinemas, no Porto existiram uma série de salas de projeções que criaram adeptos e introduziram o cinema no Norte. As Galerias Lumiére funcionaram como cinema durante a década de 80, entre as ruas das Oliveiras e José Falcão. Reabertas recentemente, hoje reutilizam-se como espaço de lojas e gastronomia variada e sofisticada. Aproximar-se desta velha sala de exibição é uma oportunidade para aproveitar a mesma utilização que os cinemas daquela altura: espaço social. Gelados, cupcakes, livros, roupa, decoração… qualquer escusa vale para percorrer em companhia as galerias.

Good Year Kilometros que cuentan