São Mamede, a última fronteira do Portugal tradicional

Um Parque Natural espargido por quatro concelhos que encerra várias das maiores riquezas do nosso património artístico, histórico e natural. Uma viagem que não pode perder…

É sorte que ainda existam espaços como o Parque Natural de São Mamede. 56.000 hectáres dedicadas à preservação de uma paisagem, um habitat e um modo de vida entre 4 concelhos. Uma imagem através de uma janela que nos mostra como era o país tradicionalmente, enfeitado com as suas casas brancas e os seus compridos bosques atlânticos e mediterrâneos. Portalegre, Marvão, Castelo de Vide… são algumas das vilas que podemos conhecer enquanto vamos à descoberta deste paraíso de fim-de-semana.

Estamos a falar de um santuário natural que alberga espécies típicas de flora como o carvalho-negral e o sobreiro, e uma fauna representada por mais de 150 espécies de aves migratórias que situam este ponto como paragem obrigada na sua rota anual. Além disso, se nos aproximarmos da antiga mina de chumbo da Cova da Moura, iremos descobrir o maior ninho de morcegos da Europa: a maior colónia, junto a outra situada na Bulgária, reside sob o chão que estamos a pisar. Entre 15.000 e 20.000 indivíduos que são responsáveis pela confortável ausência de mosquitos na região. Mesmo que a fama deles não seja a melhor…

Marvao castelo

Se quisermos conhecer as povoações da zona, podemos começar a nossa visita por Portalegre, linda vila barroca e medieval onde refulge a cor branca das casas. Histórico ponto de defesa frointeiriça nas tormentosas relações históricas com Castela e Espanha, a cidade viveu uma época de gloria à volta da indústria têxtil entre os séculos XVII e XVIII. No Museu das Tapeçarias da Manufatura podemos aproximar-nos desta rica tradição, e contemplar as peças feitas com uma técnica única que imita perfeitamente pinturas e desenhos.

A vila é uma sucessão de palácios barrocos e monumentos de todo o tipo, como um rasto visível por qualquer um de uma época esplendorosa passada. O Castelo e a Sé completam uma visita sossegada e necessariamente tranquila, que permita os nossos olhos deter-se em cada recanto.

Perto da vila iremos encontrar a barragem do Caia, um espaço artificial perfeito para a observação de aves e a prática de desportos náuticos. E, não muito longe de Portalegre, podemos conhecer a Capela dos Ossos de Campo Maior, a segunda maior deste tipo no nosso país. Trata-se de um espaço lúgubre e misterioso, construído graças aos restos das 1500 vítimas mortais de uma terrível explosão no paiol do castelo de Portalegre acontecida em 1732.

Rota: Marvão e Castelo de Vide

Marvão, muito alto na serra de São Mamede, é mais uma vila histórica envolta pelas muralhas medievais que guardam o seu dédalo de casas e ruas brancas. Importante bastião defensivo tal como Portalegre, o seu nome é referência ao líder guerreiro mouro que fundou a vila durante a Idade Média. Subir ao topo da torre mais alta do Castelo é uma experiência embriagante, que oferece uma panorâmica da serra e as suas paisagens que quase nenhuma câmara consegue captar com suficiente justiça.

Lá por perto encontra-se a cidade romana de Ammaia, um conjunto escavado de 3000 m2 de antiga povoação que poderia ser, segundo os arqueólogos, na realidade muito mais grande, até atingir 20 hectares ou mais.

Castelo de Vide, a terceira paragem da rota, tem a honra de conservar uma das judiarias mais completas do território nacional. Pensadas como guetos medievais onde os judeus eram obrigados a morar por leis do reino, a judiaria de Castelo de Vide estende-se pela encosta a nascente, uma das mais íngremes da vila. Nos edifícios da zona podemos contemplar ainda as marcas judias que indicavam a sua fé na porta das moradas. A expulsão obrigatória da Espanha que os Reis Católicos impuseram em finais do século XV ajudaram o bairro a crescer definitivamente. Ainda podemos visitar hoje a sinagoga, situada na Rua da Judiaria ou Rua da Fonte, num edifício que conserva o ar original e pode ser visitado no interior.

Não deixe, em Castelo de Vide, de experimentar uma parte da rica gastronomia local: migas com entrecosto, pezinhos de Coentrada, sarapatel ou alhada de cação. As broas de mel ou as boleimas com gosto de maçã são, para acompanhar, a melhor sobremesa.