A Serra do Buçaco: descobrindo a mata encantada

4 Abril | 2016 | Goodyear

A Serra do Buçaco, na região da Bairrada, é um dos espaços naturais mais conhecidos de Portugal graças aos lendários monges que aqui levaram a cabo uma das primeiras políticas “ecologistas” de que há registo no nosso país: a plantação da mata homónima que de por si já justifica uma visita por estas terras. Mas não só: à volta do lendário bosque e dos montes existe uma miríade de vilas, aldeias e pontos de interesse que obrigam a meter na mala, além da roupa, um bocadinho de sossego e uma vontade descobridora digna de um aventureiro.

Enquanto o bom tempo leva as pessoas a encher as praias e procurar as primeiras carícias do sol, nós achamos mais adequado aproar o carro para o interior e procurar essa fresquidão à sombra das árvores da mata, envolta no aroma das primeiras flores e a erva que sacode a lembrança ainda próxima de mais do frio inverno.

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    A nossa viagem arranca na capital do concelho onde passaremos a maior parte do nosso percurso, na Mealhada. É conveniente começar a visita à hora do almoço: existem 4 Maravilhas da Mesa da Mealhada, e todas podem experimentar-se aqui: o leitão assado à Bairrada, a água do Luso (engarrafada para todo o país), o vinho da Bairrada e o pão. O leitão, temperado com pasta de sal e pimenta e espetado durante duas horas em forno de lenha, é uma iguaria cuja origem é disputada entre praticamente todos os concelhos da região. É sabido que as suas primeiras referências são do século XVIII mas não existe qualquer indicação certa sobre a sua origem. E não faz mal um bocadinho de mistério…

     

    Anadia, o coração da Bairrada

    Esta cidade produtora de inconfundíveis espumantes é paragem obrigada para quem quer mergulhar nesta tradição vinícola. Aqui é produzido mais do 50% do vinho nacional desta variedade há 125 anos. O Museu da Bairrada percorre esta longa história nas suas salas desde 2003, com um rico espólio do último quartel do século XIX e a primeira metade do século XX.

    Outros locais a conhecer em Anadia cidade são o Museu Etnográfico da Pedralva que mostra ao visitante a intra-história sociocultural da região, com destaque do modo de vida tradicional do rural,  e a outra atração para além do vinho pela qual é conhecida Anadia: as termas.

    A 5 quilómetros da vila encontramos a “Aquarae Curiva” romana, que evolui para o atual topónimo da Curia. Esquecidas durante séculos, hoje constituem uma moderna estância de saúde e um inovador complexo termal especializado. Na zona foi filmada a espanhola “Belle Epoque”, Oscar de 1992, graças ao seu encantador ar de época que ofereceu um espetacular pano de fundo. Ainda, no lago artificial podemos experimentar um passeio de gaivota sob o sol meridiano.

    Serra do Buçaco - Quiloemtrosquecontam

    Luso, a pátria da água

     A N235 durante 12 quilómetros é um percurso curto e fácil, e ao final aparece perante nós a vila de Luso. Já estamos no sopé da Serra, e num dos destinos turísticos mais importantes da zona. As termas, inseridas na paisagem nemorosa do Buçaco, oferecem serviços termais e de spa, bem como médicos e de reabilitação.

    A nascente do Luso, um centenar de metros acima da nascente termal, é quase o brasão fundacional da cidade. Um gole das suas águas não só permite experimentar um dos mananciais nacionais mais afamados, mas também limpar a alma e o ânimo de impurezas.

     

    A mata do Buçaco, o bosque encantado

     É quase um mistério para o visitante que cá chega sem conhecer a história local o que faz este lugar verde e silencioso ornado de capelas e viacrúcis entre as árvores. O Buçaco foi local de refúgio para os primeiros cristãos e já um mosteiro beneditino existia no século VI. No século XVII os Carmelitas Descalços fundaram um mosteiro e cercaram a mata com um muro aberto apenas em três portas: a da Rainha, Sula e Coimbra. Durante os anos que se seguiram semearam o bosque com espécies nacionais e exóticas. No mesmo século XVII foi protegido por decreto papal, sendo reforçada a sua condição de local isolado e retirado do mundo. Era prevista pena de excomunhão para quem cortar árvores do bosque, disposição ainda vigorante.

     Neste espaço de 950 metros de comprimento contornado por um muro de quase seis quilómetros, juntam-se nove ermidas (chegaram a ser onze) e um viacrúcis de três quilómetros com 20 pequenas capelas.

     Também aqui encontramos o sumptuoso Palace Hotel Buçaco. De estilo neo-manuelino, o edifício foi construido após derrubar parte do velho mosteiro no século XX para a família real. Originalmente projetado como pavilhão de caça, depressa virou um palácio sob comando do arquiteto italiano Luigi Manini. Porém, a sua pertença à família real foi curta: já na década de 1920 funcionava como hotel, um destino na moda em toda a Europa.  Do velho convento ainda hoje subsistem para serem visitados os claustros e várias das celas.

     

    A Cruz Alta: um dos topos panorâmicos de Portugal

    Se pegarmos mais uma vez a estrada N235 chegaremos após muitas curvas a um local que faz com que toda a visita anterior valha a pena. Não é muita a altitude do Miradouro da Cruz Alta, apenas 549 metros. Mas de este miradouro é possível abranger num único olhar o mar no oeste, para lá de Anadia e a Mealhada, e no nordeste as longínquas serras do Caramulo e a Estrela, e para o sudoeste a de Lousã. Abaixo, na nossa frente, a densa mata tenta ocultar as siluetas do Palace e das ruínas do convento. Quase podemos imaginar o tempo em que esta região estava isolada e abençoada com uma paz que ainda parece perdurar.

    Esta foi a calma que rompeu a guerra contra os franceses nesta terra. Em 1810 a batalha de Buçaco enfrentou a coligação anglo-portuguesa sob comando do duque de Wellington contra as tropas napoleónicas governadas pelo marechal Massena. O obelisco que lembra o facto está por cima do miradouro e pode subir-se até lá a pé, rememorando os sangrentos acontecimentos daquele 27 de setembro.

    Esperamos que esta curta viagem pela Bairrada e o Buçaco tenha sido inspiradora e lhe permita aproximar-se de uma região que merece ser conhecida e tem a capacidade de despertar, sempre que se abandona, uma saudade profunda e uma vontade persistente de voltar.

    Good Year Kilometros que cuentan