O importante é o caminho: o assalto à Torre

Da Covilhã à Torre ficam 20 quilómetros que merecem ser contados: venha na companhia da Goodyear até ao alto da Serra, por entre a rocha e as flores.

Subir à Torre, no alto da Serra da Estrela, é um daqueles casos em que o que importa realmente é o caminho. Claro que os 2000 metros que marcam o ponto mais alto de Portugal continental estão num local que tem que ser visitado pelo menos uma vez na vida, mas é a estrada que nos leva até lá, sempre a subir, a cortar a encosta entre pedregulhos e lagoas, que deixa a mais forte memória. Aproveitámos o verão para sorrir com as flores silvestres e fizemos o percurso entre a Covilhã e a Torre. Há aqui 20 quilómetros que merecem ser contados.

Vamos fazer-nos ao caminho a partir do largo da Câmara Municipal da Covilhã, de onde começamos já a subir na companhia das casas que nos seguem até ao limite da cidade, na zona do Complexo Desportivo da Mata. A partir daqui, do ponto exacto onde o verde começa a substituir o casario, faltam 19 quilómetros para a Torre, feitos sempre ao longo da N339.

Adeus à Covilhã

O caminho nestes primeiros quilómetros é suave mas inexoravelmente a subir por isso prepare a máquina fotográfica. Depois de passarmos uma curva mais arborizada, à nossa direita vai surgir o primeiro miradouro onde aconselhamos a paragem. Virado a Sul/Sudeste, permite-nos termos noção do que já subimos e, do lado esquerdo, um último vislumbre sobre a Covilhã que se despede.

Até ao Camping do Pião, cerca de três quilómetros depois, o muro à nossa direita ganha tamanho e vegetação, é o lado onde “cresce” a Serra e por onde sobem corta-fogos e caminhos florestais. Já ultrapassámos os mil metros de altitude, mas a estrada ainda não se “abriu” o suficiente para nos convencer da altura a que estamos. A condução, contudo, tem uma sucessão de curvas deliciosas (perigosas na altura do inverno) até que, subitamente, primeiro à direita e depois à esquerda, temos os primeiros e reais vislumbres do “mundo cá em baixo”.

Terras de Viriato

Faça uma paragem à beira da estrada no “Montes Hermínios” para um café, desentorpecer as pernas e recordar porque é que esta zona tinha esse nome na antiguidade: os romanos dedicavam a serra ao deus Hermes, divindade dos pastores, e terá sido aqui que nasceu Viriato. De volta ao caminho e com o espírito histórico reavivado, é impossível não olharmos para a paisagem que nos acompanha daqui em diante sem imaginarmaos ancestrais povos a viver por estes montes, cada vez mais esparsos em vegetação e rudes, ou o cenário para uma série ou filme de fantasia medieval.

A partir de agora o caminho é quase sempre a direito e não há muitas hipóteses de nos enganarmos. A serra encarregou-se de deixar bem claro por onde permite a passagem ao Homem: gigantescos maciços rochosos deixam pouco espaço para mais do que a vegetação rasteira e os sulcos que a água deixa na altura do degelo. Estamos a menos de uma dezena de quilómetros da Covilhã mas a natureza não demorou muito a surpreender-nos.

Torre, na Serra da Estrela

A Torre ao longe

Nas Penhas da Saúde é aconselhável uma nova paragem. É a partir daqui que se aventuram os esquiadores que visitam a serra por altura da neve e a aldeia adquiriu também parte dessa personalidade. Se nas encostas em redor ainda subsistem as habitações serranas tradicionais, aqui o casario é muito mais parecido com o de uma estância europeia. Mas, a 1500 metros de altitude e com uma vista deslumbrante para o vale, as Penhas da Saúde não precisam dos meses de inverno para merecer a visita.

Se vier com tempo, dê também um salto aos viveiros de trutas perto da saída da aldeia, antes de chegar ao Lago Viriato. Este espelho de água não é tão impressionante como a Lagoa Comprida que recebe quem chega à serra pela encosta ocidental, mas tem um espectador especial: ao longe já vemos a Torre e parece estender-nos a recepção num tapete engalanado com flores silvestres amarelas e violeta.

    Serpentear pela encosta

    A seguir ao lago fazemos uma pequena descida na direcção de um vale que faz as delícias de muitas famílias por altura do Inverno, com a companhia da Nave de Santo António do lado direito, um planalto geologicamente muito relevante. A estrada encontra-se aqui com o caminho que vai até ao Covão da Metade, mas deixamos essa aventura para outra oportunidade.

    A partir daqui a estrada tem dificuldade em decidir se prefere visitar o distrito da Guarda ou de Castelo Branco, serpenteando sem respeito pela política de ordenamento do território, mas sabe muito bem que a ideia é subir, com uma inclinação média de 10%. O caminho dobra-se sobre si mesmo algumas vezes, permitindo-nos admirar o sítio onde acabámos de passar há poucos minutos, e alarga-se outras tantas para aproveitarmos um dos vários miradouros que vamos encontrar.

    A Serra da Estrela, domada

    Por volta dos 1700 metros vamos ter que atravessar a rocha, num dos túneis que atravessam a serra, chegamos ao Covão do Boi e a escarpa que cresce do nosso direito volta a avolumar-se até alcançarmos o santuário da Senhora da Boa Estrela. Este é um singular monumento a céu aberto, com um baixo relevo da Virgem esculpido na rocha e acedido através de uma escadaria, mesmo ao lado da estrada. Se não parar aqui, faça uma pequena pausa no final desta recta, no miradouro que fica sobre o vale que se estende para norte. O inverno compõe-se aqui com um magnífico manto branco, mas nesta altura são, novamente, as rochas e as flores silvestres que enfeitam este chão.

    Não falta muito para o nosso destino e já andamos pelo espigão da Serra há alguns quilómetros, mas faltam-nos ainda mais uns metros para chegar ao topo. Viramos à esquerda no cruzamento de Seia, passamos pelo reservatório e não há que enganar: chegámos ao topo de Portugal continental. Não é segredo para ninguém que a Torre em si não guarda grandes segredos: apesar da sua altura, não é daqui que se tem a melhor vista sobre a cordilheira em volta e vamos ter que andar um pouco a pé. Mas o caminho até aqui chegarmos não é menos do que de sonho, vinte quilómetros que merecem ser contados e recontados.