Serra de Lousã: entre o xisto e as serras

O mundo rural aparece em todo o seu esplendor nesta viagem de fim de semana que nos reconcilia com o Portugal mais rural

Às vezes é necessário deixar atrás o rumor monótono das cidades. Olhar para o Portugal rural onde redimir-nos mesmo que só seja durante um fim-de-semana.

A Lousã, no coração de Coimbra, é uma dessas vilas serranas que ganham encanto não apenas pelo seu património histórico e cultural, mas pela beleza indómita do património natural que envolve o conjunto. A Serra da Lousã, um dos espaços naturais mais lindos de Portugal, contorna a vila e guarda para o viajante que se deixa levar pela curiosidade mil lugares escondidos onde enxergar autênticas joias que não alberga qualquer museu.

Os rios Ceira e Arouce banham os limites da vila, que se debruça nas encostas como uma rés à procura de um gole fresco. São terras ocidentais da serra homónima, lar desde antigamente de todos os povos que pisaram Portugal. A dominação romana marca, quase como um mito, o começo de uma longa linha que chega até hoje e deixou pegada em cada época. A lenda da princesa Peralta, refugiada no castelo juntamente com o seu pai, assinala o nascimento na tradição da vila, em volta do castelo de Arouce. Como dado histórico comprovável, foi D. Afonso Henriques o primeiro a conceder título foral à vila durante o século XII.

Criança na Serra da Lousa - Quilometrosquecontam

Esse vestígio medieval pode conhecer-se hoje no castelo da Lenda, o Castelo da Lousã, a dois quilómetros da vila. A serra, íngreme aqui, oculta este baluarte próximo do rio Arouce, por cujo nome às vezes é referido. Trata-se de um castelo pequeno, com evidentes influências românicas e gôticas, defendido por muralhas de xisto e uma torre de menagem ameada. Durante a primavera, quando as giestas começam a florescer e arrancar clarões do céu, o castelo é um local excecional para mergulhar na sossegada mas exuberante beleza serrana.

O Ecomuseu da Serra da Lousã, dentro da vila, é uma segunda paragem obrigatória na rota. No interior é possível conhecer uma série de exposições permanentes que revelam o passado agrícola -e não só- da freguesia: carros, arados, linho, cerâmica, pão… são alguns dos pedaços de história local dos quais poderemos aproximar-nos graças a esta perspetiva histórica que apresenta o museu e que situa a vila e a sua evolução no contexto necessário.

Na Serra da Louçã encontramos, aliás, algumas das mais belas aldeias do xisto do nosso país. É o caso de Talasnal, protegida pela sombra do Trevim. Esta aldeia de conservação excelente alberga dois lagares de azeite tradicionais movidos graças à água, e foi terra de neveiros: aqueles viajantes que carregados com neve substituíam os ainda inexistentes refrigeradores, muito antes da revolução industrial. A aldeia de Cerdeira, atravessada pela ribeira homónima, é acessível apenas por um único ponto. Após cruzar a pequena ponte que nos permite entrar, como nos contos dos miúdos, podemos ir até à parte superior da aldeia: lá, uma vista arrebatadora da serra convida à solidão sossegada e reflexão interior. Um lugar perfeito para uma pessoa que quiser encontrar-se a si própria. Ainda, às vezes funciona um atelier de escultura na zona. Em Vaqueirinho, aldeia serrana, podemos aproximar-nos do lado mais selvagem da serra: é uma aldeia apartada da estrada e rodeada por bosques de castanheiros, cereijeiras e um autêntico exército de borboletas durante a primavera.

É precisamente esta estação, pessoalmente, a mais adequada para a visita à serra: percursos pedestres, canoagem, caça ao tesouro e muitas outras atividades são oferecidas por empresas de animação turística que proporcionam o bocadinho de ação necessário para usufruir umas pequenas férias memoráveis entre os cantos da serra da Lousã.