Serra do Caldeirão, depois do barrocal, Algarve genuíno

Fomos passar um fim de semana na Serra do Caldeirão, a descobrir um Algarve bem diferente e queremos contar-vos todos os pontos que vocês não devem perder.

Na Serra do Caldeirão há um Algarve quase desconhecido para tantos que só visitam a região para ficar nas imediações da linha de água. Se há regiões do Algarve Interior ou da Serra de Monchique que começam a ser redescobertos por todos aqueles que continuam a gostar da região mas já não toleram o excesso de turistas, no centro e no sotavento há ainda mais segredos por descobrir. Ao chegarmos à Serra do Caldeirão muda a cor, os cheiros, a vegetação e até as tradições. Venha com a Goodyear conhecer uma nova/velha face do Algarve.

Seguindo pela Estrada Nacional 2 a seguir a São Brás de Alportel, vamos encontrar um casario um pouco diferente daquele que se perfila frente ao litoral. O branco e as chaminés algarvias continuam a ser a tónica dominante, mas aparecem novos pormenores que mostram que na Serra vive-se de outra forma e que os rituais e os ritmos são outros.

Ao lado da estrada encontramos os ocasionais pomares de laranjeiras, alfarrobas e amendoeiras, criando um belíssimo cenário ao longo dos meses da primavera. E, indiferentes às estações mas não ao passar dos anos, vemos moinhos de vento abandonados, noras e velhos fornos comunitários que, já sem uso, recordam o tempo em que a labuta da terra era essencial para a sobrevivência de aldeias inteiras. Depois dos campos cultivados com o trigo e com a cevada, vamos encontrar as encostas repletas de rosmaninho e, ainda bastante longe do Alentejo, percebemos que o Algarve ficou lá atrás.

Às portas da Serra do Caldeirão

Às portas da Serra do Caldeirão

Quando antigamente se fazia o caminho para Lisboa ou Beja pela Serra do Caldeirão, tinha-se que passar obrigatoriamente por Barranco do Velho. Do alto do seu morro, a velha igreja local continua a ser um primeiro ponto de vista para a serra que se perfila. Se os carros já não passam por aqui como há 3 ou mais décadas atrás, a verdade é que o perfil de visitantes que chegam são bem diferentes. As famílias que atravessavam a serra, apenas como uma etapa das férias nos litoral, são agora substituídas por viajantes à procura de um Algarve mais genuíno e afastado dos turistas no pino do verão.

Ainda em Barranco, na Casa da Serra, pequena loja de artesanato local, aproveite para provar o medronho, poção mágica que torna os “serrenhos” irredutíveis. Mas tenha cuidado, é substância que nos pode tornar incapazes de conduzir durante um par de horas. Se, mesmo assim, decidir-se à aventura, cure o excesso alcoólico com um passeio pedestre pelos vários trilhos que começam aqui na aldeia ou pelo parque da Serra do Caldeirão, onde é possível encontrar um moinho, uma casa do forno e um alambique requalificados.

Vida serrana no Cachopo

Como estava fora da principal via que atravessa a serra, agora já do lado da Serra do Malhão, Cachopo ressentiu-se menos do reajustar do trânsito para outras paragens. Sempre foi e continua a ser um centro de relevância para a produção agrícola em volta. Aqui produz-se aguardente regional, licores, enchidos, mel e inclusive tecelagem, mas a atenção do visitante vai imediatamente para as casas em xisto caiado de piso térreo, tão características. Se tiver tempo e vagar, como também se diz por aqui, visite o polo museológico local, subordinado ao tema Vida na Serra, ou a Quinta do Cachopo, para entender um pouco melhor como se vive aqui, longe da beira-mar.

Dizem-nos que em redor existem mais de 50 montes, no meio dos quais vamos encontrar pequenas aglomerados onde mora cada vez menos gente e mais envelhecida. Para recordar um passado que tem cada vez menos testemunhas, em Casas Baixas, Feiteira e Mealha foram reocupadas três antigas escolas primárias, agora transformadas em centros expositivos para a descoberta do mundo rural, sob gestão do Ecomuseu Rural da Serra do Caldeirão. A sua recuperação não se fica por aqui e, já com quartos, cozinhas e salas de convívio, estão agora também de portas abertas para alojar visitantes de passagem pela serra nas mais diversas atividades.

Em Mealha ainda sobrevivem velhos palheiros circulares que, como as Antas das Pedras Altas e da Masmorra, não muito longe, servem de testemunhas de tradições de um passado pré-histórico. No Miradouro de Água dos Fusos há um pequeno parque de merendas que convida ao descanso e a um piquenique na companhia da paisagem, as montanhas e o mar.

No regresso ao Barrocal

No regresso ao Barrocal

Apesar de nunca nos aproximarmos do mar nesta escapadela, está na altura de darmos um mergulho nas águas que escorrem pelas encostas da Serra do Caldeirão. Santa Catarina da Fonte do Bispo faz a fronteira com a região do barrocal e voltam-se a ver as amendoeiras e alfarrobeiras que enfeitam estes campos. O Medronho tem aqui também papel importante na vida das gentes da terra, assim como o azeite e a aguardente da Várzea do Vinagre, todos a aproveitar a fertilidade que chega da Ribeira da Asseca.

Seguindo o rumo da ribeira, sempre com a Serra a espreitar do nosso lado esquerdo, chegamos a Santo Estevão, onde as águas se precipitam do alto de 5 metros. A cascata do Pego do Inferno é tudo menos infernal e, apesar de muito concorrida por altura do verão, é um dos sítios do Algarve mais bonitos e convidativos a um mergulho na pequena lagoa que aqui se forma. Lá de cima, do miradouro, é possível assistir a todo este belo cenário mas o desafio de meter o pé na água é irresistível. A zona foi desfigurada por um incêndio florestal recente, mas espera-se a sua recuperação a qualquer momento.

E ainda…

Se chegar à Serra do Caldeirão (ou regressar) por Almodôvar, a passagem por Mértola pode ser um interessante desvio, com direito também a uma visita a Mina de São Domingos e à zona do Guadiana. Se, em vez disso, prosseguir depois para a costa, o Algarve ainda guarda muitos segredos à sua espera, enquanto o regresso a Lisboa pode ser feito à maneira antiga, pela estrada nacional no mítico IC1.