Subida à Senhora da Graça: etapa e estrada histórica

8 Agosto | 2016 | Goodyear

Já acabou a 78ª Volta a Portugal em Bicicleta e a sua etapa mais clássica e exigente voltou a ser a subida ao alto da Senhora da Graça, um percurso que consagra sempre os mais resistentes ciclistas. Para além do desafio para as duas rodas, esta é uma estrada de rara beleza e prazer de condução que merece ser feita de carro pelo menos uma vez na vida. Se já aqui esteve quando passa a Volta sabe bem a festa que aqui ocorre, mas se for a primeira vez que aqui vem, vai presenciar uma paisagem que bem justifica o esforço da subida à Senhora da Graça

O Monte Farinha é uma orgulhosa elevação de quase 950 metros no coração das antigas Terras de Basto. Lá em cima, o Santuário de Nossa Senhora da Graça ergue-se desafiante enquanto, cá em baixo, Mondim de Basto descansa no sopé. Concorridas romarias sempre ligaram estes dois pontos e fazem parte dos rituais anuais destas terras, mas no nosso imaginário que, no verão contava sempre com a presença da “Volta”, esta estrada é a síntese entre o esforço heróico de quem se aventura a subir 30 quilómetros no pino do verão e da recompensa de uma paisagem extasiante.

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    Assalto à Senhora da Graça

    Vamos começar o “assalto” à Senhora da Graça via Mondim de Basto e, logo à saída da vila, temos um aperitivo do que se prepara para o restante percurso. Vamos ter ainda que passar por Pedra Vedra e Sobreira antes de atacarmos o monte propriamente dito, mas o caminho inexoravelmente a subir e a promessa que o “pior” ainda está por chegar, faz-nos invejar a resistência dos atletas que conseguem fazer isto de bicicleta.

    Apesar de clássico das duas, o prazer da condução sobre as quatro rodas não é em nada beliscado aqui, como exemplifica a prova automobilística de Rampas que aqui ocorre. A estrada não é ampla e obriga a bastante atenção, mas a parte final tem desafio que baste para os amantes de rally e outras disciplinas. Mas não nos adiantemos: lá em cima a capela ainda nos desafia e, quando chegamos ao sopé, ganhamos acrescido respeito pelos “reis da montanha”. Seguimos pela esquerda ao sairmos da N312 e começa o carrossel.

    Aos Zig-Zagues pela encosta

    No alcatrão, os sinais da “prova maior do ciclismo” ficam de ano para ano e acumulam-se uns em cima dos outros. “Força Rui Sousa!” “Edgar-Edgar-Edgar” e outros slogans de incitamento são pintados no asfalto pelos entusiastas que enchem estas encostas em Agosto. E é impossível passar por aqui sem recordarmos essa hostes: no dia da volta, estas curvas em torno do monte estão cheias de povo que se acotovela para celebrar com febras grelhadas e piqueniques na berma. Não se sabe se ainda é o ciclismo que aqui os traz todos os anos mas, qualquer que seja o motivo, é coisa séria e justifica que se montem máquinas de imperiais, tendas e televisões.

    Aos zig-zagues pela encosta, por volta dos 500 metros de altitude, a paisagem ganha espaço e grandiosidade. Começamos a ver as Serras do Marão, Alvão, Gerês ou Cabreira, e ganhamos noção de onde estamos, da singularidade desta mistura entre Trás-os-Montes e Minho. A estrada serpenteia e dobra-se sobre si própria para conseguir entregar-nos os seus últimos quilómetros. Por vezes dá a volta completa ao monte, como se orgulhosamente nos quisesse dar a conhecer tudo, mesmo tudo, que cresce aqui em volta.

    Senhora da Graça: Encosta do Monte Farinha

    Até onde a vista alcança

    Cá de cima, em dias limpos, a paisagem chega longe e este monte consegue ser visto do mar, da zona de Póvoa de Varzim. Não espere tanto, mas deixe a sua atenção perder-se nos pinhais cá em baixo, pelos desenhos que as nuvens fazem no horizonte ou a identificar os maciços que nos fazem companhia. Descanse agora à sombra do santuário e ouça o silêncio só interrompido pela brisa que passa.

    Todo o esforço tem uma recompensa mas podemos chegar à Senhora da Graça sem o martírio a que se sujeitam os ciclistas todos os anos. Aqui do alto, contudo, não podemos deixar de lhes guardar uma pontinha de inveja: se esta paisagem nos preenche, superar o épico desafio desta subida só com as nossas pernas, é uma sensação que não nos atrevemos a imaginar. É uma epopeia digna de um herói.

    Good Year Kilometros que cuentan