Tavira e o Sotavento Algarvio, Rota dos pescadores

Tavira é o coração palpitante do Sotavento algarvio e nós fomos à procura onde comer e o que ver nas vilas, aldeias e cidades de pescadores da região.

Andámos pelo Sotavento Algarvio, com um pé na Ria Formosa, cheiro a maresia e polvo à mesa, a descobrir uma região com menos turismo e mais genuína. De Tavira partimos para uma visita às povoações de pescadores, como Cabanas ou a Fuseta, onde experientes mestres da faina operam a grelha e o carvão como ninguém. Venha daí com a Goodyear para um passeio ribeirinho, com um ou dois saltos ao limite do barrocal e uma vista fantástica que se estende até Espanha.

“Barlavento” e “sotavento” são dois termos náuticos que significam, respetivamente, o lado do barco que recebe e aquele que solta o vento. Assim, quando chegamos ao Algarve, a tradição pescadora divide a região em duas, e a zona ocidental, de Sagres a Albufeira, é aquele que mais fortemente recebe também os “ventos” do turismo e da pressão imobiliária. Assim, de Olhão a Vila Real de Santo António, resta uma área bastante menos explorada mas que está também debaixo do olho dos investidores. No centro de uma série de novos projetos hoteleiros de nível superior, para o mercado de luxo, está Tavira, cidade histórica com uma fachada de rio e cheiro a maresia, com um centro ainda pitoresco e popular e tudo o que é mais essencial no Algarve à distância de uma curta viagem de carro.

    Tavira

    Dizem-nos que a cidade tem 37 igrejas e, sem nos darmos ao trabalho de as contar, acreditamos piamente pois, mesmo que algumas sejam bastante discretas, são facilmente encontradas em qualquer breve passeio pelas calçadas tavirenses. Para além dessa religiosidade, que tem a maior visibilidade por altura da Semana Santa, veem-se também os sinais da relação com o mar, velhos estaleiros e armazéns de pesca, homens com a face queimada pelo sol e os barcos ancorados na foz do Rio Gilão. Ao contrário de outras a ocidente, a cidade não precisa de esperar pelo verão para ter uma animação muito própria e não é a comum cidade de província durante o resto do ano. Aqui ainda se respeita uma verdadeira tradição multi-cultural desde os tempos em que mouros e judeus aqui moraram e são comuns os negócios e as famílias de “ex-pats” das mais variadas proveniências europeias.

    Cabanas

    Se a pressão dos aldeamentos turísticos que a rodeiam mudou algum do seu carisma nas últimas décadas, Cabanas de Tavira tem ainda uma zona marginal com um toque típico, que o passadiço entretanto criado não prejudicou. Seja qual for a altura do ano em que andar por aqui, aproveite para esperar pelo pôr do sol, com enquadramento para os tradicionais barcos de pesca ancorados, as casas de aprestos e as artes que se amontoam em sítios estratégicos. Depois de acabado o espetáculo ou, quem sabe, para o acompanhar, os inúmeros restaurantes ao longo desta extensa marginal apresentam os frutos dos viveiros locais de amêijoas e ostras e o polvo pescado para lá das ilhas que limitam a Ria.

    Santa Luzia

    Os locais referem-se à sua terra como a “Capital do Polvo” e o motivo do orgulho vem da mestria com que aprenderam a lidar com alcatruzes e covos. Para capturar o animal, lançam-se potes de barro que servem como armadilha e o momento alto acontece logo de manhã, pois a faina do polvo é noturna, quando os coloridos barcos chegam ao porto e os curiosos e donos dos restaurantes locais observam a azáfama gerada no mercado. Do lado mar fica a Praia do Barril, uma das mais agradáveis de toda a região, a que se pode chegar através do comboio que podemos apanhar em Pedras de El-Rei. Aí perto, uma zona de dunas funciona como um cemitério de âncoras, um “monumento” mais imponente do que qualquer outra ideia talhada em pedra que aqui fosse colocada.

    Fuzeta

    A veterania desta terra na pesca já levou os seus homens até à Terra Nova e à Gronelândia e, mesmo que esses tempos históricos já tenham passado há muito, é terra para se provar algum do melhor pescado algarvio. Na zona ribeirinha, pelo porto de pesca e a observar o trabalho dos pescadores ao longo da marginal, basta estar atento ao cheiro do carvão pela hora de almoço, para se usar o faro e chegar a um restaurante regional, com um mestre pescador a tratar da grelha. Atenção: torna-se um local muito concorrido à medida que o verão se aproxima, mas há sempre hipótese de fugir à confusão num dos barcos de turismo que saem para a Ria Formosa a partir do cais.

    Ria Formosa

    Olhão

    A Nobre Vila de Olhão da Restauração é agora uma das mais importantes cidades algarvias mas tem ainda várias memórias do seu historial na indústria conserveira, para lá da Avenida da República, nos edifícios de finais do séc. XIX que ainda vamos encontrando quando nos aproximamos do porto. Aparecem também as antigas casas dos pescadores, hoje em dia mudados um pouco mais para norte, mas o emaranhado de ruelas termina subitamente em frente à Av. 5 de Outubro onde se recebe o mar. Modernizada e airosa, a zona em frente à marina de recreio, convida ao passeio nos seus jardins ou pelo mercado com produtos locais muito frescos pela manhã, marisco, fruta ou artesanato, ou uma passagem pelas tasquinhas que o rodeiam.

    Moncarapacho

    Típica vila do barrocal algarvio, tem uma bela igreja matriz do séc. XV e o típico casario branco e rasteiro da região, mas os campos em volta dão-lhe ainda mais destaque. Suba ao cerro de São Miguel (pela saída norte, tomando a direção de São Brás e apanhando o desvio para a capela de São Miguel em Caliços), já usado como ponto de vigia deste a Antiguidade Clássica, para ter uma verdadeira lição sobre a geografia da região: a apenas 400 metros de altura vemos o litoral de Albufeira até Espanha e, do lado oposto, a Serra do Caldeirão a nascer.

    algarve-moncarapacho-igreja

    Santo Estevão

    Há muito que a localidade tem a fama (e o proveito) da qualidade das suas alfarrobeiras, amendoeiras e laranjais, e manteve-se à parte do turismo algarvio durante mais algum tempo que as suas vizinhas. Encostada à serra, a caça e a pecuária começam também a tornar-se muito mais predominantes e a gastronomia ganha também tem a companhia de lebres e enchidos. Aqui perto, a Cascata do Pego do Inferno foi bastante prejudicada por um incêndio florestal há alguns anos e, na última vez que a visitámos apresentava menos caudal, enquanto a zona circundante estava mais despida e desprovida de indicações para se lá chegar. Aguarda-se a sua recuperação para breve, pois já foi um dos locais mais bonitos do Algarve. A estar atento!

    E ainda…

    Não podemos deixar de aproveitar este passeio pelo Sotavento sem ir um pouco mais para norte, passar o barrocal e conhecer as antigas estradas que atravessam a Serra do Caldeirão Para além disso, o viajante interessado em propostas um pouco diferentes conta também com belíssimas oportunidades para conhecer os vinhos da região, assistir a peças de teatro, música e bailados, ou, para gente aventureira e resistente, atravessar o Algarve de Lés a Lés de bicicleta.