Tejo, Zezere, Vila de Rei: o umbigo de um país

Conheça com a Goodyear o que deve visitar durante uma breve passagem por Vila de Rei, Praia do Ribatejo, Abrantes e Constância, numa visita ao centro geodésico de Portugal

O centro de Portugal é bem mais do que uma questão de geografia ou administração do território. Fomos até Vila de Rei à procura do Picoto da Melriça e acabámos por perceber que essa ideia do “meio do país” tem muito que se lhe diga. Afinal, sem vislumbre de extremos, entre a beleza do pinhal que aqui é o tom dominante, a paz de recantos misteriosos do Zêzere e velhos signos da nacionalidade, passar um fim de semana por estas paragens é como marcar dois dias para um reencontro connosco próprios, com aquilo que faz de nós portugueses.

Fim de semana entre Tejo e Zêzere

O Tejo e o Zêzere são “espinha dorsal” das regiões por onde passam, mas é aqui na zona em que se abraçam, em que se abandonam aos seus lentos devaneios e floreados, que a imaginação parece perder para a natureza. Comecemos no Tejo, em Praia do Ribatejo, pelo Castelo de Almourol e percebemos logo que, afinal, Hollywood não precisa de inventar nada: os cenários dignos de um filme estão bem à vista de todos os que andarem por aqui de olhos e coração abertos.

Castelo Almourol - Quilometrosquecontam

Em cima da pequena ilha rochosa plantada no curso do Tejo, o Castelo de Almourol parece saído de um romance de Tolkien ou RR Martin, mas é afinal uma forte evocação da memória da Ordem dos Templários que, a partir da reconquista da Península, foram os responsáveis pela defesa destes territórios. Passou por fases de decadência, foi recuperado pelo Estado Novo no século passado e é hoje em dia ponto de visita obrigatória.

Já por várias vezes fizemos o percurso de barco de Constância até Almourol e é a nossa forma preferida de aqui chegar, mas desta vez vamos em sentido contrário e chegamos a Constância de carro, porque não vale a pena lutar contra a corrente, através da Nacional 3. Esta é “só” uma das mais bonitas e delicadas vilas portuguesas e é mesmo ao nosso gosto: Tejo ou Zêzere? Não nos obriguem a escolher, pois aqui podemos viver os dois.

Para o estômago e para o espírito

Antes de voltar à estrada, decidimos retemperar as forças com uma visita ao “D. José Pinhão”, célebre instituição gastronómica da zona. No primeiro andar de um edifício insuspeito fomos à procura de peixe e calharam-nos enguias e uma sopa de cação memoráveis. O resto de estômago que ainda tínhamos acabou preenchido com um divinal leite creme e vimo-nos obrigados a passear a pé pelas ruas da vila durante algum tempo para ajudar a “desmoer”. Fosse Verão e teríamos com certeza aproveitado para uma sesta numa das margens dos rios.

Zezere - Quilometrosquecontam

Prosseguindo caminho o mais próximo possível do Tejo, escolhendo a N3 sempre que possível, os campos de cultivo estendem-se a toda linha do nosso lado direito, aproveitando a riqueza deste rio. À nossa frente surge Abrantes, um dos pólos mais ativos da região, mas que mantém ainda o charme típico destas povoações da zona do Médio Tejo. Guarda ainda importantes vestígios do passado, um património monumental bem preservado, como as Igreja de Santa Maria do Castelo, São João Baptista e São Vicente, e um artesanato particularmente rico.

Fomos encontrar a alma e o pulsar das gentes através de um passeio pela zona histórica da cidade, no triângulo mercado-castelo-São Vicente. Sentimos bem a forma como este povo se adaptou ao acidentado terreno e escolheu decorar-se com canteiros e empenas floridas, pisando calçadas revestidas por seixos rolados do Tejo. Do alto da torre do Castelo de Abrantes abrange-se um horizonte de 80km de raio, o que lhe conferiu uma importância militar histórica, mas que hoje é um colírio para os nossos olhos.

“Formoso Tejo meu…”

Optando agora pela Nacional 2, seguimos para norte e, pasmem-se, descobrimos o Alentejo… O Sardoal parece bem uma vila alentejana, com um sotaque muito característico das suas gentes e casas brancas com barras azuis ou amarelas. Aglomerada sobre uma colina, a povoação vigia os campos que a rodeiam até perder de vista, enquanto a estrada continua serpenteante por entre a massa de pinheiros verdes. Não nos detemos aqui muito tempo porque ainda temos que chegar a Vila de Rei, mas marcámos novo encontro para futura ocasião.

Descansados e bem preparados para o nosso segundo dia no meio do pinhal, já não falta muito para o nosso destino final. Saindo de Vila de Rei em direção à Sertã, 1.8 km depois, encontramos devidamente assinalado o desvio para o Picoto da Melriça e, 900m depois, já estamos no Centro Geodésico de Portugal, o que significa estar no centro do país. Este foi um dos primeiros marcos geodésicos nacionais (1802) e serviu de referência para a cartografia do continente.

Com uma altitude de 600 m, este local permite ao seu visitante uma visão de 360º sobre um horizonte vastíssimo, em que se destaca a Serra da Lousã e, com tempo limpo, a Serra da Estrela a quase a 100 km de distância. Não temos acuidade visual para tal, nem as condições o permitiam quando aqui estivemos no princípio de Março de 2016, mas além de bela, é uma visão que guarda bem a ideia de estarmos no “meio de Portugal”.

Essa “coisa” da portugalidade não é ideia ou preocupação que ocupe muito do nossos tempo, mas aqui é quase impossível escapar a esse pensamento. Afinal, aqui não é só um centro definido a regra e esquadro por geógrafos. Aqui, tudo o que a vista alcança é uma das formas de Portugal, uma súmula do muito que ainda se esconde para lá do horizonte, no linguajar do povo, na força deste verde, nos sabores que enchem o palato. Quando regressamos a casa, a  nossa ideia de sermos portugueses ganhou uma nova força.