Tormes, epicentro de Queiroz

A Cidade e as Serras é uma obra fundamental para compreender o Portugal do século XIX. As paisagens que a inspiraram continuam inalteradas em Tormes, sob a brisa fresca do Douro

Viajamos porque procuramos realidades distintas do quotidiano. O viajante é uma pessoa com sede de horizontes e experiências distintos. Um confronto entre dois mundos. Eça de Queiroz sabia-o muito bem, e na sua obra crepuscular A Cidade e as Serras joga durante todo o romance com a dicotomia entre o vácuo e moderno Paris do século XIX e a querida serra portuguesa no Baixo Douro. A visão bucólica do autor sobre o mundo rural como um lugar redentor envolve toda a obra e parece deter no tempo a velha casa familiar de Tormes e os montes bravos em torno.

Passaram-se mais de cem anos já desde o dia em que viu a luz em 1901. As desventuras do Jacinto de Tormes na voz do seu compadre Zé Fernandes no seu retorno, como um Xenofonte dândi, desde a faustosa Paris cheia de nobres bem nascidos e fingidores até às entranhas camponesas do país, estão já no panteão da literatura portuguesa. Hoje parecem falar-nos, com essa voz irónica e querida do Eça de Queiroz, num lugar muito arredado e isolado por um mar de tempo. Pois, afinal, o que resta daquelas serras do livro? Será que ainda podemos surpreender-nos com as paisagens rudes e belas que o verbo ágil do autor semeou nos livros em linhas retas, como os sulcos do arado?

“A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas léguas, todo o torrão lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus negrejavam desde Arga até ao Mar de Âncora”. Assim é que nos apresenta o local a novela inicialmente. Na altura em que Jacinto recolhe ao lar familiar encontra mais do que uma casa um celeiro derrubado pelos séculos. É claro que falamos do universo de ficção do autor, porque a casa de Tormes (Baião) teve donos e história distintas, e hoje não encontramos lá uma ruína, mas a sede da Fundação  Eça de Queiroz.

Livro - Quilometrosquecontam

 

Uma região para se perder

Enquanto leio A Cidade e as Serras um cheiro ao selvagem circunda a imaginação: mistura da relva de outono, fresca água nas fontes e chaminés ao longe. A modernidade deixou para trás parte daquele charme, mas não conseguiu findar a sensação primordial da serra. O Caminho de Jacinto, o percurso que o protagonista segue entre a estação e a quinta de Tormes, guarda uma série de paisagens quase inalteradas desde aqueles dias imaginados em que o nobre olhou pela primeira vez a terra dos seus antecessores.

Na visita guiada à casa, verdadeiro mergulho no universo queiroziano, podemos contemplar a mesa alta em que o escritor costumava escrever de pé, além doutros objetos do seu mobiliário e uso pessoal. Nos restos da sua biblioteca com cerca de 400 livros, podemos rememorar aquele engraçado episódio na biblioteca pessoal do Jacinto de Tormes em Paris, quando não conseguia escolher um livro para encerrar o dia entre um catálogo superior a muitos milhares. Perto está o lugar de Cedofeita, onde Eça contemplo a casa pela primeira vez como Jacinto fez no romance. E abaixo a estação do caminho de ferro junto ao Douro.

Para quem não tiver o seu interesse focado na literatura, mas na gastronomia e os prazeres que Tormes oferece ao visitante, está a Casa do Silvério, antiga casa de caseiro hoje preparada para receber turistas. Aliás, a quinta produz hoje um vinho branco homónimo e oferece a visita Um dia em Tormes que inclui um almoço queiroziano com ementas tiradas das obras do literato. Para uma visita mais curta, o Restaurante de Tormes oferece um mergulho análogo no universo da gastronomia queiroziana, não menos rico do que a sua obra literária.

Noutras épocas do ano, a casa é sede de múltiplos eventos de divulgação cultural que o fã da obra do Eça de Queiroz irá desfrutar sem nenhuma dúvida. Os Seminários Queirosianos em julho analisam aspetos muito variados da sua obra e influências em autores posteriores, colocando o escritor e a sua obra no seu contexto histórico.

 

A selvagem beleza em torno

Fora da casa, as Serras envolvem a paisagem como se ainda o Eça escrevesse na sua mesa alta uma continuação do livro original. O universo literário do autor encontrou aqui mais sementes fecundas: A Ilustre Casa de Ramires passa-se também nesta região. Se cruzarmos o Douro para a margem esquerda encontraremos as ruínas do mosteiro de Cárquere (ou Craquede) e o panteão medieval dos Castros, almirantes de Portugal. De volta na outra margem pode o viajante visitar Cinfães e contemplar uma paisagem de beleza inacreditável. Cinfães reclama do visitante conhecer as igrejas românicas de Escaramão e Tarouquela, além da de São Cristovo de Nogueira. Muito próximos da vila, o Castro das Coroas e a Muralha das Portas do Montemuro, mistério arqueológico que ainda não encontrou explicação completa.

Pois é nesta serra misteriosa que perdemos a vista, trazidos pela luz do romance de Eça de Queiroz. Uma invitação ao descobrimento e à aventura. Uma licença para deixar para trás o cadeirão e sair contar quilómetros para o mundo mítico dos autores portugueses que encontraram a melhor inspiração no local menos suspeitado: à sua frente.