Trás-os-Montes, o Reino Maravilhoso de Miguel Torga

A Goodyear foi a São Martinho de Anta descobrir a terra natal de Miguel Torga, o grande arauto das belezas e mistérios de Trás-os-Montes. Venha connosco!

Trás-os-Montes “fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos”, contava Miguel Torga em “O Reino Maravilhoso”. O celebrado ensaísta, dramaturgo e poeta, manteve durante toda a vida uma forte paixão pela região que o viu nascer e apresentou as maravilhas de Trás-os-Montes a todo o país. Em “Os Novos Contos da Montanha”, “A Criação do Mundo” ou nos 16 volumes dos seus diários, as referências são inúmeras e já foram alvo de muitos estudos académicos. Menos pretensiosos, fizemos um pequeno “roteiro Torgueano” por terras transmontanas, à procura de perceber o escritor através dos locais onde viveu.

“Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite.”

O nosso destino foi Sabrosa, São Martinho de Anta, a terra onde Miguel Torga nasceu em 1907, numa casa que ainda podemos ver em bom estado. Era uma família humilde e o futuro médico passou a sua infância nesta aldeia, nunca esquecendo a sua origem nas gentes do povo. Foi também nestes primeiros anos que conheceu a dureza da vida da época (primeiras duas décadas do séc. XX), numa região dura como poucas, imagem que marcaria muita da sua escrita.

Poeta do povo de Trás-os-Montes

Cedo teria que abandonar a casa dos pais, num percurso que o levaria de seguida a Lamego, Porto e ao Brasil, mas ainda teve tempo para criar uma forte relação com São Martinho. Debaixo de dois negrilhos (ulmeiros), situado no Largo de Eiró, está uma figura e placa comemorativa do escritor, num local que Torga conhecia bem. Era aqui a divisão entre as duas aldeias originais, devia ser o local em que se reunia com os amigos da altura e foi, mais tarde, motivo para um poema da sua autoria. Percebemos então que além de vulto da literatura, Torga caiu também nas boas graças do povo, sendo recordado por uma série de placas oferecidas por desconhecidos que aqui vêm num acto de homenagem.

Trás-os-Montes, o Reino Maravilhoso de Miguel Torga

“S. Martinho de Anta é um berço onde tenho de nascer todas as horas e morrer um dia.”

Ao lado da sua casa de infância, no verão de 2016 foi inaugurado o Espaço Miguel Torga, resultado de um projecto do multi-premiado Eduardo Souto Moura, que celebra a memória do escritor. O edifício é uma moderna estrutura que, apesar do betão armado, integra-se perfeitamente na paisagem e encheria o escritor de orgulho, não por ser a si dedicado, mas por salientar tão bem a beleza da sua terra. Este espaço museu está dividido em três núcleos principais: “Torga e Trás-os-Montes: um reino maravilhoso”, dedicado à presença de Trás-os-Montes na sua obra; “São Martinho de Anta: lugar de onde”, que explica a terra como o local de onde parte e onde sempre regressa o autor; e “Andrée Crabbé Rocha e Clara Rocha”, sobre, respectivamente, a esposa e a filha, também figuras das letras e da academia.

Descanso à sombra do Marão

Foi pedido do autor que, aquando da sua morte, fosse sepultado numa campa rasa e é possível visitar o seu túmulo no cemitério local, num espaço muito simples, com a esposa como companheira de um lado e uma torga (urze) do outro. Foi este o pequeno arbusto que lhe emprestou o pseudónimo, sendo que “Miguel” foi escolhido como referência a dois outros grandes “Miguéis” da literatura ibérica: Cervantes e Unamuno. O seu nome de nascimento era afinal Adolfo Correia da Rocha.

Trás-os-Montes, o Reino Maravilhoso de Miguel Torga

Serra, seio de pedra
Onde mamei a infância
Amor de mãe, que medra
Quando medra a distância.

Já perto de Vilar de Celas, apesar de guardar a designação de São Martinho de Anta, a Mamoa de Madorras é um monumento megalítico com cerca de 5.000 anos e está numa posição que lhe oferece uma das melhores vistas sobre a região, da Serra do Marão à Serra do Alvão. Torga passaria por aqui quando andava na caça, actividade que praticava com alguma regularidade, e detinha-se perante este panorama.

Nós também paramos por aqui: Trás-os-Montes é terra para ser apreciada com devido apreço. Das delicadas encostas em socalcos da Régua , as aguarelas desenhadas pelo Coa, às arribas sobre o Douro em Miranda, são cenários que precisam de uma vida para serem conhecidos. Por agora, espreitamos a serra e recordamos um dos mais célebres aforismos que Torga nos deixou: “para cá do Marão, mandam os que cá estão!…”