Vila do Conde deita-se no rio e acorda no mar

Vila do Conde cresce mas mantém o seu núcleo e alma de cidade pequena. Um passeio pelas ruas e um almoço ao pé do rio são duas das recomendações Goodyear.

Mesmo em pleno séc XXI, Vila do Conde e a foz do Ave são uma espécie de fronteira entre dois países. A norte começam a surgir os sinais do Minho, enquanto a sul explode a paisagem industrial e os bairros residenciais que sofrem ainda a influência da malha urbana do Porto, a apenas 30 Kms. Contudo, no meio de tudo isto, Vila do Conde mantém uma identidade muito pitoresca e curiosa, muito por causa da sua relação com o mar, mas também porque as gentes da terra assim a souberam preservar. Venha com a Goodyear visitar uma cidade acolhedora e altamente recomendável para uma escapadela a Norte do país.

Ao passarmos a Azurara, no momento em que encontramos o Rio Ave, abre-se a vista sobre Vila do Conde e sobre o seu branco e baixo casario. A cidade é plana, com poucos pontos que se destaquem na paisagem além do famoso Convento de Santa Clara, e precisamos de penetrar pelas suas ruas para a conhecermos verdadeiramente. Contudo, o primeiro contacto, com as águas do rio a reflectirem os tons do céu e das nuvens em mistura com as alvas casas, só augura coisas boas ao forasteiro.

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Vila do Conde conquista-nos o estômago

Logo a seguir à ponte sobre o Ave, os edifícios do Mosteiro e Igreja de Santa Clara chamam imediatamente a atenção com o seu ar massivo e imponente. Com uma vida que começou no séc. XIV, guarda sinais do gótico, manuelino, barroco e rócócó e, em conjunto com a Igreja Matriz, é o mais significativo monumento religioso da cidade e aquele que dá as boas vindas ao visitante.

A cidade é pequena e por toda a zona antiga mostra esse charme pitoresco, que passa também para as ruas apertadas, a calçada de granito, as antigas lojas dos ofícios relacionados com a construção naval ou o artesanato de rendas e os painéis de azulejos. De passagem pelo centro, recomendamos a visita à Pastelaria de Santa Clara, na Praça Luís de Camões, onde o nome não engana e são as especialidades conventuais a tratar de arruinar a linha dos fregueses. Aqui há, prepare-se, doces de Santa Clara, pastéis de amêndoa, pastéis de feijão ou chila, mas são também conhecidas as suas roscas, o pão de ló, o pão de ló de Ovar e a bola de carne. Se Vila do Conde quer conquistar-nos, não precisa de fazer muito mais!

Da arte e da escrita

De regresso ao caminho, apontamos a bússola para o renovado mercado municipal que tem agora o dia da feira semanal às quartas-feiras. O espaço, deliciosamente engalanado com uma bonita porta pintada a amarelo e vermelho, pode ser visitado todos os dias e tem vários cafés, restaurantes e lojas de artesanato e lavores. Seguindo pela Av. 25 de Abril chegamos à Casa Museu José Régio, local onde o escritor viveu os últimos anos da sua vida, quando regressou definitivamente à sua terra natal. Aqui está exposto o seu local de trabalho e parte da sua coleção de arte popular, enquanto o restante está na casa irmã desta, em Portalegre.

Em Vila do Conde é ancestral a tradição das Rendas de Bilros, e o museu desta arte fica num curioso solar urbano do séc XVIII que podemos encontrar ao fazer o caminho na direcção do Teatro Municipal, passando pela Praça José Régio. Está exposta aqui a maior renda de Bilros do mundo, um título atestado pelo Livro do Guiness, mas poderemos ver também as rendilheiras a trabalhar e a ensinar, ao lado de exemplares históricos destes têxteis. Vila do Conde alberga ainda o maior centro artesanal de produção de rendas e a tradição alastrou-se pela costa até ao norte, à Galiza.

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Do Ave ao Atlântico

Apesar de ainda só termos referido em passagem, é a vertente mar da cidade que a tornou mais famosa e importante, com uma forte tradição piscatória e manutenção naval. A importância de Vila do Conde como porto pode ser entendida no Museu de Construção Naval, na Alfândega Régia, que reúne as memórias da cidade até ao séc. XV, quando era fundamental no auge do comércio marítimo. Fundeada na foz do Ave, mesmo em frente ao museu, uma réplica de uma nau quinhentista faz o complemento à exposição e mostra-nos o quão frágil podia ser a aventura de encarar o mar naquele tempo.

Vamos terminar o nosso passeio por Vila do Conde aqui mesmo na zona ribeirinha onde, como costuma rezar a tradição, se encontram alguns dos melhores restaurantes de qualquer cidade. Vila do Conde não é de forma nenhuma excepção, e tem os frutos do mar para nos colocar com orgulho à mesa. O Cangalho, por exemplo, tem uma óptima selecção de peixe fresco a chegar do mar todos os dias e tem uma esplanada para os dias em que o tempo assim convida. O Adega da Vila, um pouco mais tradicional, tem um número de petiscos que podem satisfazer qualquer estômago só com as entradas. Pataniscas, rojões, salmão, moelas, mexilhões, conforme as épocas, mas sempre, sempre, muito bom. Para terminar, um pudim de abade de priscos e a promessa de voltar o mais depressa possível.