De Idanha-a-Velha a Monsanto na pegada dos templários

A estrada que nos leva de Idanha-a-Velha até Monsanto é um reencontro com a história e com as belas paisagens da Beira. A Goodyear conta-lhe tudo.

Monsanto é a povoação que materializa a conhecida citação de Augusto Cury: “Pedras no caminho? Guardo-as todas, um dia vou construir um castelo…” O granito e o xisto que se misturam nestas terras são a matéria prima que constrói uma das mais curiosas e belas aldeias portuguesas, mas a sua origem tem nascimento mais abaixo, na planície em redor que vai desde Idanha-a-Velha até ao sopé do monte. A Goodyear andou pela região, e agora queremos contar-vos uma estrada que nos apaixonou, entre Idanha-a-Velha e Monsanto.

    Conhecida originalmente como Egitânia, Idanha-a-Velha era, em tempo de Romanos, um das mais vastas e opulentas cidades da Península. Sucessivamente saqueada, destruída e reconstruida por suevos, visigodos e árabes não conseguiu guardar sinais evidentes dessa antiga riqueza. Por alturas do reinado de D. Manuel I, uma praga de formigas resultou na migração de grande parte de população para Monsanto e Idanha-a-Nova. Ainda sobrevivem a Torre dos Templários ou a porta da Muralha Romana, mas mora aqui cada vez menos gente e o último censo só identificou 63 habitantes.

    Nas margens do Pônsul

    A nossa viagem começa oficialmente a partir da Praça de Touros local, mas desafiamos o leitor a um pequeno desvio para visitar a ponte original, construída pelos romanos em data incerta. Se seguir este conselho vai, de seguida, atravessar toda a aldeia, por ruas em calçada, através do Largo da Igreja, do pelourinho e da Sé Catedral, até sair pela Porta Norte das muralhas, com a minúscula Capela de São Sebastião a dizer-nos adeus quando entramos na N232.

    Continuando o percurso através da Nacional, passamos por uma comprida recta que nos leva até à ponte sobre a Ribeira de Moinhos. Em toda a volta, os campos mantém-se tendencialmente planos, mas sempre com um suave ondular que embala a vista. O céu é de um azul estonteante, quase mediterrânico, e as nuvens parecem acompanhar as pequenas colinas que quebram a monotonia da paisagem.

    Apesar de ainda não termos chegado à zona em que teremos que começar a subir, à nossa direita já se sente o monte a querer surgir mas ainda estamos em zona de exploração agrícola. Os rebanhos prosseguem no seu lento ritmo, inquestionável desde o princípio dos tempos, e são um dos poucos sinais que têm que viver humanos nestas terras. Nos 15 quilómetros deste percurso, com a excepção das paragens que fizemos em Idanha e Medelim, as vacas e os pássaros foram os únicos sinais de animação. Não nos cruzámos uma única vez com um outro carro e chegámos a duvidar se estávamos no caminho certo.

    Idanha-a-Velha

    Monsanto provoca-nos

    Chegados a Medelim, viramos à direita no cruzamento e prosseguimos para a N239, na direção de Espanha. Os campos, divididos em talhas mais reduzidas do que é comum nas zonas a sul, primeiro alternam oliveiras com tamujo, e depois vemos surgirem carvalhos, sobreiros, e azinheiras, indicando que o Alentejo não anda longe. Ao fundo, ainda a cerca de 10 quilómetros, a altivez de Monsanto já aparece para nos desafiar e recordar-nos os motivos que nos trouxeram aqui.

    Os muros das explorações já o mostram e daqui para a frente torna-se mais notório, o xisto e o granito misturam-se de forma evidente, ao mesmo tempo que nos apercebemos de uma espinha que brota da terra como um animal a dormir. É a fiada serrana que desemboca em Monsanto e que, vista desta perspectiva, é uma barreira e uma provocação para o viajante.

    É agora altura de abandonar a N239 e virar à direita, no sentido de Relva-Monsanto, e vamos começar a subir a “ilha-monte” que nasceu no meio da paisagem. Penetramos agora uma zona mais arborizada e paramos num recanto da estrada para aproveitar o silêncio e sentir o cheiro do campo. A brisa traz o aroma do rosmaninho e aves como andorinhas, gaios e abelharucos, são os únicos sons que perturbam o total sossego.

    O assalto final

    Ao passarmos na povoação da Relva vemos os sinais da pedra cada vez mais fortes e, mesmo a esta baixa altitude, sentimos uma alma serrana que entra depois pela Beira adentro e que parece viver na Raia com ainda maior intensidade. Ao contrário do percurso que fazemos há já alguns quilómetros, há bastante vida nesta terra: no meio destas ruas e casas construídas em granito, assistimos aos homens que voltam dos campos em tractores e às mulheres que levam consigo cestas de verduras. O extenso arvoredo da Quinta do Burrinho guarda o último souto da região, junto a um extenso parque repleto de espécies exóticas.

    A meio da subida que nos vai levar até aos 750 metros, já é possível apreciar os campos em volta e estender a vista quase até à Malcata e à fronteira com Espanha. Pare aqui o carro durante uns minutos para aproveitar a paisagem e vire-se também na direcção do alto do monte. Está a ver todas essas pedras que parecem periclitantes sobre a encosta? Estão aí há tempo suficiente para que a memória humana não alcance e não vai ser agora que irão escorregar por aí abaixo.

    Idanha-a-Velha

    Chegámos ao nosso destino mas não ao fim da viagem. Não há nenhuma forma certa de visitar a “Aldeia mais portuguesa de Portugal” excepto uma que respeite a máxima: arrume o carro e deixe-se perder. Suba em direção ao velho castelo, passe pelo forno da aldeia, cruze as ruas tortas e veredas, conheça palheiros, furdas e outros exemplos da construção popular. É o granito que dá a cor a Monsanto e é nos cantos e recantos em que a natureza resolveu largar estes blocos gigantes que o Homem se adaptou e reclamou espaços só para si.

    Muito mais do que o ex-libris nacional que Salazar idealizou, Monsanto é uma terra intemporal. Tem o fulgor da pedra e elementos da portugalidade verdadeiramente ancestrais, mas é também um local onde Homem e natureza convivem de maneira muito particular e simbiótica. Meta-se no carro e venha explorar estes 15 quilómetros com tanto que contar.

    • Guida Costa

      A citação que fazem relativamente às pedras, é melhor reformularem
      Frase retirada de um poema de Fernando Pessoa e não um pensamento ou citação de Augusto Curry.
      “Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
      Mas não esqueço de que minha vida
      É a maior empresa do mundo…
      E que posso evitar que ela vá à falência.
      Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
      Apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
      Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
      Se tornar um autor da própria história…
      É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
      Um oásis no recôndito da sua alma…
      É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
      Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
      É saber falar de si mesmo.
      É ter coragem para ouvir um “Não”!!!
      É ter segurança para receber uma crítica,
      Mesmo que injusta…

      Pedras no caminho?
      Guardo todas, um dia vou construir um castelo!”

      • Goodyear

        Antes de mais, agradecemos a sua atenção Guida, gostamos muito de receber as correcções e questões dos nossos leitores.

        No caso desta citação, que tem andado pela Internet de uma forma ou de outra há pelo menos uma década, a verdade é que não é mesmo de Fernando Pessoa e é da autoria de um blogger brasileiro de nome Augusto Curry. Em comentário ao jornal Público a propósito deste assunto em 2006, Francisco José Viegas, na altura o director da Casa Fernando Pessoa, disse o seguinte:
        “O poema em questão não é de Fernando Pessoa, coisa que poderia ser garantida à primeira leitura (pelo tema, pela escrita, pela ortografia). No Brasil, tanto na web como em papel impresso, circulam vários «poemas apócrifos» assinados por Fernando Pessoa; muitas vezes, os seus autores pretendem garantir algum reconhecimento anónimo através da utilização do nome do poeta – são, geralmente, textos de má qualidade e que, infelizmente, se multiplicam todos os dias (…)”
        Poderá conhecer mais pormenores aqui: http://static.publico.pt/homepage/provedor/04.ruiAraujo/textos/2007.05.13.fernandoPessoa.asp

        Agradecemos o seu tempo!