Rio Sabor: era selvagem agora tem lagos

O Sabor já não é um rio selvagem. Os novos lagos mudaram a paisagem. Ainda pouco conhecidos, são ideais para o turismo de natureza e sabores tradicionais.

O Rio Sabor deixou de ser o “último rio selvagem” de Portugal. Há dois anos, a “mãe de todas as barragens”, para geração de energia, interrompeu o curso do único grande rio em território nacional que ainda não tinha este tipo de infraestruturas.

O rio Sabor nasce na província de Zamora, em Espanha, entra em Portugal através da Serra de Montesinho, Bragança, e aflui posteriormente na margem direita do rio Douro.

“São 70 quilómetros desde a barragem do Baixo Sabor até à foz do Azibo, com grandes lagos, ligados entre si por gargantas e penhascos, que formam um verdadeiro santuário da vida selvagem e oferecem aos visitantes um céu azul e um horizonte de cortar a respiração”, explica o site oficial da Associação de Municípios do Baixo Sabor (AMBS) que procura promover a região e criou a marca “Lagos do Sabor”.

Entretanto, a par da ação do Homem, a Natureza está a adaptar-se e nascem agora novos lugares para o turismo de natureza.

São três lagos que se estendem-se agora pelos concelhos de Macedo de Cavaleiros, Alfândega da Fé e Mogadouro. O Lago de Cilhades, o maior dos três, deve o seu nome a uma aldeia homónima, no concelho de Torre de Moncorvo. Agora submersa, já estava abandonada na altura da construção da barragem. O Lago de Cilhades liga-se ao Lago dos Santuários através da Garganta da Fraga do Fojo. Finalmente, o Lago dos Santuários liga-se ao terceiro lago, do Medal, pelo estreito do Aguilhão.

Com a subida do leito, a Foz do Azibo ficou maior e mais larga. Antes da barragem, o curso de água chegava a ser tão ligeiro no verão que era possível passar a pé de um lado para o outro. Agora… há muita água, potencialmente regadio e turismo. Turismo para quem prefere o contacto com a autenticidade das gentes e dos locais. Pelo menos para já, enquanto o plano estratégico para a utilização do novo espelho de água não for aprovado.

Neste momento, o turismo por aqui passa pela contemplação: do alto de um castelo, de um monte, observando vinhas e oliveiras, aldeias pontilhando a paisagem e monumentos que contam a história do território, e, claro, três novos lagos repletos de água. Mas há, naturalmente outros pontos de interesse.

O que fazer

As águas chegaram há apenas dois anos e ainda não há autorizações para desenvolver atividades turísticas. Por isso, a massificação do turismo ainda não chegou. Mas longe de nós achar que não há nada a fazer.

Para começar, continuam a existir duas praias como antes: a praia da Foz do Sabor, em Torre de Moncorvo, e a praia da Foz do Azibo, em Macedo de Cavaleiros, com temperaturas mais agradáveis do que seria de esperar naquela região do país.

Sem autorizações para desenvolver atividades turísticas, as gentes locais vão improvisando. Os poucos barcos na água dos lagos, chegam através de infraestruturas construídas pelas gentes locais.

Património histórico

Antes de avançar, para o resto do passeio paremos na história do santuário que esteve na origem do nome de um dos Lagos.

Antes da barragem, neste local, existia um santuário, Que não ficou afundado. Foi sim mudado para outro ponto. O edifício foi transportado, peça a peça do local agora inundado para o cimo de um monte, por equipas de restauradores que desmontaram a igreja de um lado e a reconstruíram no cimo do monte da Parada. A igreja remonta ao século XVIII, e foi mandada originalmente construir pela família dos Távoras. Na nova localização foi construído também um pequeno museu onde estão expostas fotografias do processo de mudança do santuário.

Junto a este santuário está prevista a abertura um restaurante panorâmico e um dormitório na Casa do Romeiro. Mas, ambos os espaços, com grande potencial para o turismo rural, ainda estão fechados.

Mas os pontos de interesse histórico e arqueológico não ficam por aqui. É o caso do Castelo de Mogadouro, com vista para esta nova paisagem. O edifício e as terras em redor pertenceram, em tempos, aos Távoras, e merece a pena visitar.

Estando na região será fácil localizá-lo, bem como ao monóptero de São Gonçalo, um monumento de inspiração barroca, considerado de interesse público, localizado num terreno privado. Infelizmente está a degradar-se. O monumento circular com seis colunas já deixou de ter cúpula abobadada e estão a desaparecer os plintos de granito, o que poderá pôr em causa a integridade do monóptero.

O passeio poderá continuar pelas aldeias de Penas Róias ou de Azinhoso. Cada uma delas com as suas singularidades: um castelo em Penas Róias, varandas de madeira e pequenas igrejas com alpendres em Azinhoso.

Património arqueológico

Entretanto, nas margens dos lagos existem dois montes. Um fértil (o monte bendito) e outro onde nada nasce (o monte Morais ou monte maldito). Segundo investigadores este fenómeno deve-se à história geológica do local.

Cada um dos montes terá pertencido a dois continentes diferentes antes de todos os continentes se unirem na Pangeia que depois veio a separar-se para dar lugar à disposição atual dos continentes. Integram o Geopark Terras de Cavaleiros, em Macedo de Cavaleiros, um território reconhecido pelas redes de geoparques da UNESCO e que, além do mais, integra a Reserva da Biosfera Transfronteiriça, e a Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo. Está ainda a candidatar a tradição cultural dos Caretos de Podence como Património Imaterial.

Proximidade da natureza

Outra opção é andar. Quer de automóvel, através do Circuito Panorâmico Automóvel do Baixo Sabor, caminhar pelos vários percursos pedestres ou pela ecopista do Sabor, que faz o caminho de parte da antiga linha do comboio entre o Pocinho e Miranda do Douro. Esta Ecopista termina em Carviçais, Torre de Moncorvo, num total de 24km.

Para um passeio mais didático, poderá optar pelo Centro de Interpretação Ambiental e Recuperação Animal (CIARA), em Torre de Moncorvo. Aqui estão em recuperação muitos animais selvagens apanhados na zona do rio, sobretudo grifos. Simulações 3D permitem perceber melhor a especificidade da região. Mas, é preciso marcar as visitas com antecedência.

Bogas e bardos são peixes capturados no rio e servidos ainda em três restaurantes segundo a receita típica: fritos. As bogas são servidas às postas e os bardos com uma apresentação semelhante à dos jaquinzinhos. No entanto, a barragem trouxe mudanças. E o lúcio chegou à Foz do Sabor e é predador das bogas e dos bardos, um dos problemas resultantes das alterações provocadas pela barragem.

Para mitigar este impacto foi criado recentemente um Centro de Interpretação Ambiental e Recuperação Animal (CIARA), em Torre de Moncorvo.

Onde comer e ficar

Uma das opções é o Restaurante A Lareira, em Mogadouro, liderado por um chef que estudou em Paris e que voltou à terra Natal. O prato principal: a posta mirandesa, típica da região, acompanhada de molho regional. Integram ainda a carta os cogumelos boletos pinícola e a batata do chef.

No restaurante Villar de Masaebo, em Macedo de Cavaleiros, as opções passam por carne de porco bísaro, criados no local.

Poderá optar pela Quinta da Bela Vista, um empreendimento de agroturismo, em Alfândega da Fé. O monte tem quatro quartos e o espaço inclui ainda uma experiência gastronómica que passa por alheira e carne de vitela fatiada em alho e tomilho, “sopas de cegada”.

De fora das iguarias a não deixar de provar não podem ficar as amêndoas cobertas da dona Dina, em Torre de Moncorvo, que conquistaram recentemente uma certificação e se tornaram símbolo da vila.

Captar a atenção

A Associação de Municípios do Baixo Sabor está empenhada em promover o turismo na região. Uma iniciativa original foi a tentativa de bater o record mundial de maior número de selfies, durante o “Caminhão -Megacaminhada fotográfica dos Lagos do Sabor”.

E foi por pouco. As autarquias de Torre de Moncorvo, Macedo de Cavaleiros, Alfândega da Fé e Mogadouro conseguiram atingir as 914 selfies. O recorde do Guiness pertence à China, com apenas mais 12 elementos. Nesse dia, no final de setembro, foram também realizadas caminhadas, passeios de BTT, visitas guiadas de autocarro, uma mostra de venda de produtos tradicionais.