O verão, também no Norte: de Bragança a Carrazeda de Ansiães

Apresentamos-lhe os melhores destinos para conhecer o distrito de Bragança. Acima do Douro esperam bosques, aldeias históricas e recantos para aproveitar o verão

Há quem decida aproar para o sul quando o primeiro calor se espalha pelo país. Pensam nas águas límpidas do Algarve e nas tardes soalheiras do Alentejo à sombra das oliveiras. Não se enganam, porque o verão só acrescenta beleza e encanto a terras como aquelas. Mas também não conseguem desfrutar de algumas das melhores paisagens do verão português. Porque acima da linha do Douro há também estio, e paga a pena ir passar dois ou três dias por estas terras do Norte onde os campos vestem o seu melhor verde e os castanheiros ainda não se desnudaram para o Outono. O verão aqui não significa praia e areia, mas a fresquidão dos carvalhais densos entre os bosques nemorosos, o rumor da água dos ribeiros. Montanhas, colinas e veigas verdes borrifadas de vilas e cidades pétreas cheias de história, onde o país andou os seus primeiros passos. Com certeza, não quer perder esta (re)descoberta estival do Norte…

Sempre atenciosos, nos Quilómetros que contam pegamos as nossas malas, entramos no carro, demos uma vista de olhos nos mapas (de papel, porque gostamos do clássico) e arrancamos motores. Na bagagem, umas boas botas, a câmara fotográfica e muita curiosidade, como sempre. Eis tudo o que precisámos para trazer de volta connosco no regresso umas recomendações para o viajante mais exigente.

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    Bragança, a atalaia do Nordeste

    Começamos a nossa viagem na capital do distrito, uma das mais antigas cidades do país, presidida ainda por um castelo no topo que observa toda a região à volta como tem feito todos os dias durante quase mil anos. Bragança é um encontro com a história entre verdes montanhas agrestes e íngremes, povoadas de tojos, silvas e mato baixo, onde o vento e o sol do verão governam sobre uma paisagem quase inalterada desde a pré-história. Essa mesma pré-história que ainda borbota em toda a parte para o olhar atento.

    A cidade extra muros cresce em direção oeste, como afastando-se da fronteira, entre jóias patrimoniais e arquitectónicas como a Sé Catedral, a Capela da Misericórdia ou a Igreja de São Vicente. No Paço Episcopal pode visitar o Museu Abade de Baçal, dotado de um espólio rico e alargado que mergulha directamente na história política e eclesial local.

    Mas a autêntica alfaia de Bragança, pela qual é conhecida, está no seu castelo, que guarda dentro da sua muralha um núcleo medieval quase intacto. De cima da torre de menagem, velho baluarte da fronteira, é possível enxergar toda a região à volta, e o museu contém ainda outros tesouro, como um completo museu militar que lembra que durante séculos esta terra não conheceu a paz de que hoje desfruta.

    Bragança

    Parque Natural de Montesinho, à sombra dos carvalhos

    Fica muito próximo da cidade de Bragança, mas semelha à vez um mundo completamente distinto. Esquecemos a cidade e os grupos de visitantes, o trânsito e as ruas. Envolve-nos uma paz indescritível enquanto penetramos neste enclave onde o tempo parou. Aldeias antiquíssimas surgem em volta do caminho, onde as velhas tradições comunais subsistem ainda: o forno comunitário, os lagares compartilhados… Na aldeia de Montesinho pode encontrar um completo centro de interpretação a não perder. Mas, se preferir um contacto real com o património material e imaterial da zona, suba pelo passeio no alto da Serra homónima. O caminho parte da povoação e sobe até à barragem da Serra Serrada atravessando formações graníticas e vereias retorcidas, à sombra dos carvalhais.

    Todas as guias turísticas assinalam a aldeia de Guadramil como uma das zonas que não deve perder na visita. É certo, pois para lá de uma beleza arquitectónica bem conservada nas suas casas, as terras à volta são de uma beleza selvagem incrível. A Lombada, perto da aldeia, é uma zona tradicionalmente dedicada à caça onde às vezes é possível mesmo enxergar algum lobo à solta entre os pinhais, que vivem dos corços e veados que também conseguimos ver no local. E se quiser conhecer o património humano antes que o natural, aproxime-se da aldeia de Moimenta, quase na beira da fronteira espanhola. Um miradouro espectacular desvenda as paisagens daquela terra agreste que foi dominada pelos romanos: ficaram como prova a calçada que sulca a ponte medieval, mais um monumento entre o verde destas terras.

    Não deixe esta terra sem ir conhecer a rota dos moinhos de água do rio Baceiro, um percurso entre azinheiras e carvalhos que leva o caminhante entre a zona de merendas de Santo Amaro, o forno de cal de Cova de Lua e uma série de moinhos de água que lembram a importância do cereal na região.

    Paredes de Coura

    Macedo de Cavaleiros, o desafio do turista

    Esta cidade de nome medieval esconde alguma surpresa para o visitante desprevenido. Chegar aqui e conhecer o Geopark Terras de Cavaleiros é um inesperado plano para uma tarde de geoturismo. Permite-nos percorrer um território integrado na rede de geoparques da UNESCO, sendo um autêntico desafio para o turista mais aventureiro. Entre as actividades propostas encontrará a rota geológica, um percurso de automóvel que mergulha no passado mais longínquo da região para explorar os seus testemunhos na própria terra. Outras possibilidades incluem trilhos pelos intermináveis carvalhais da zona, pelos antigos fornos comunitários ou pelas vias cicláveis. Faça a visita que fizer, certifique-se de não perder destinos como as serras de Bornes e Nogueira ou os vales do rio Sabor e Maçãs, bem como a paisagem protegida da Albufeira do Azibo.

    Na cidade, cujos primeiros vestígios são romanos, encontramos um leque de património histórico de primeiro  nível, como os monumentos de interesse nacional das Igrejas de Vilarinho de Agrochão e Lamalonga, onde também podemos contemplar ainda parte da velha Via Romana. Nas proximidades de Macedo, as aldeias históricas completam uma visita a uma zona de excepcional riqueza patrimonial.

    Castelo Montesinho

    Carrazeda de Ansiães, a memória rural

    Esta vila guarda algumas das melhores testemunhas da história regional. Para lá da beleza inerente à zona, cá situa-se o Museu da Memória Rural de Vilarinho da Castanheira, um centro de interpretação que estuda e recolhe todo o tipo de tradições e saberes da zona, com o intuito de preservar esse património imaterial prestes a desaparecer da vida diária. Neste lugar podemos descobrir tudo o relativo aos ofícios tradicionais (ferrador, canastreiro, pescador, pastor…), bem como técnicas relacionadas com a economia local como os fornos de secagem, os carros de bois ou os fornos de telha. O Museu Rural é uma verdadeira homenagem a aquele Portugal rural e campestre, de cultura ancestral e sabedoria imaterial.

    A Vila de Ansiães, de inconfundível matriz medieval, guarda ainda nas suas ruas e becos o aspecto original de uma cidade daquele tempo. O castelo continua ainda a guardar a vila e oferece, para lá de uma vista esplêndida, um centro de interpretação rigoroso e cuidado. Na vila e as suas proximidades encontramos uma série de templos românicos de grande importância patrimonial, uma vez que guardam algumas obras raras da arquitectura medieval nacional, como o Pantocrator da Igreja de S. Salvador de Ansiães, um dos exemplares mais completos do românico português, dotado de uma complexidade iconológica muito infrequente.

    Mas se há alguma coisa pela qual é conhecida a vila é também pela excelente gastronomia. A marrã, tradicionalmente consumida na Santa Eufémia em meados de Setembro, isto é, em final do verão, é uma carne de porco assada à brasa de fama merecida que pode ser experimentada em qualquer restaurante da zona. O “vinho tratado” é o melhor acompanhamento, envelhecido em cascos de carvalho e castanho, que abundam por aqui. O fumeiro local merece um destaque próprio: o presunto e o chouriço de carne encheriam linhas e linhas se quiséssemos falar apenas de gastronomia. Por último, como é natural numa região tão rural e cheia de espaços verdes, a carne de caça (coelho, javali ou perdiz) é também muito boa. E, se preferir o peixe, o Douro fornece às mesas de peixinhos fluviais, fritos ou com delicioso molho de escabeche ao modo local.